Por Eça de Queirós (1900)
Mas não! Gracinha não acreditava! Ora! imaginações da Maria Mendonça.
- O primo Antônio bem a conhece, sabe como ela é casamenteira...
- Pois se até a mim me quis casar - ribombou o Titó saltando do rebordo da varanda. - Imagine aprima... Até a mim! Com a viúva Pinho, da loja de panos.
- Credo!
Mas o Gouveia insistia, com superioridade, um sentimento verdadeiro da vida positiva:
- Olhe, Sra. D. Graça, acredite V. Exa., sempre era melhor arranjo para o Gonçalo que a África...Eu não acredito nesses prazos... Nem na África. Tenho horror à África. Só serve para nos dar desgostos. Boa para vender, minha senhora! A África é como essas quintarolas, meio a monte, que a gente herda duma tia velha, numa terra muito bruta, muito distante, onde não se conhece ninguém, onde não se encontra sequer um estanco; só habitada por cabreiros, e com sezões todo o ano. Boa para vender.
Gracinha enrolava lentamente nos dedos a fita do avental:
- O quê! vender o que tanto custou a ganhar, com tantos trabalhos no mar, tanta perda de vida efazenda?!
O Administrador protestou logo, com calor, já enristado para a controvérsia:
- Quais trabalhos, minha senhora? Era desembarcar ali na areia, plantar umas cruzes de pau, atirar uns safanões aos pretos... Essas glórias de África são balelas. Está claro, V. Exa. fala como fidalga, neta de Fidalgos. Mas eu como economista. E digo mais...
O seu dedo agudo ameaçava argumentos agudos.
Titó acudiu, salvou Gracinha:
- Oh, Gouveia, nós estamos a tirar o tempo à prima Graça, que anda nos seus arranjos. Essasquestões da África são para depois, com o Gonçalo, à sobremesa... E então, minha querida prima, até domingo, em Craquede. Lá comparece o rancho todo. E quem atira os foguetes sou eu!
Mas Gouveia, cofiando o coco com a manga, ainda esperava converter a Sra. D. Graça às idéias sãs, sobre Política Colonial.
- Era vender, minha senhora, era vender! - Ela sorria, já consentia - tomando a mão deVideirinha, que hesitava, com os dedos espetados:
- E então, Sr. Videira, tem agora algumas quadras novas para o Fado?
Corando, Videirinha balbuciou que "arranjara uma coisita, também num fado, para a volta do Sr. Doutor". Gracinha prometeu decorar, para cantar ao piano.
- Muito agradecido a V. Exa.... Criado de V. Exa....
- Então até domingo, primo Antônio... Está uma tarde linda.
- Até domingo, em Craquede, prima.
Mas à porta envidraçada, João Gouveia parou mais teso, bateu na testa:
- Já me esquecia, desculpe V. Exa.! Recebi uma carta do André Cavaleiro, da Figueira da Foz.Manda muitas saudades ao Barrolo. E quer saber se o Barrolo lhe poderia ceder daquele vinho verde de Vidainhos. E também para um africanista, para o Conde de S. Romão... Parece que a Sra. Condessa se péla por vinho verde!
E os três amigos, em fila, atravessaram a sala de jantar, onde o vozeirão do Titó ainda ribombou, louvando a esteira nova de cores. No corredor, Videirinha espreitou para a Livraria, notou o molho de penas de pato espetado no velho tinteiro de latão, que esperava, rebrilhando solitariamente sobre a mesa nua sem papéis nem livros. Depois a Rosa apareceu à porta do quarto de Gonçalo, ajoujada de roupa, com um riso em cada ruga da sua face redonda e cor de tijolo, que o farto lenço de cambraia, muito branco, circundava como um nimbo. O Titó afagou carinhosamente o ombro da boa cozinheira:
- Então, tia Rosa, agora recomeçam essas grandes petisqueiras, hem?
- Louvado seja Deus, Sr. D. Antônio! Que imaginei que não tornava a ver o meu rico senhor.Também já tinha decidido... Se me enterrassem o corpo aqui em Santa Irenéia, antes de eu ver o menino, a alma com certeza ia à África para lhe fazer uma visita.
Os seus miúdos olhos piscaram, lacrimejando de gosto - e seguiu pelo corredor, tesa e decidida, com a sua trouxa que rescendia a maçã camoesa. O Gouveia murmurara com uma careta: "Safa!" E os três amigos desceram ao pátio onde, por curiosidade do Titó, visitaram as obras da cavalariça.
- Veja você! - exclamou ele para o Gouveia, que acendia o charuto. - Você a negar!... Mobílias,obras, égua inglesa... Tudo já dinheiro de África.
O Administrador encolheu os ombros:
- Veremos depois como ele traz o fígado...
Diante do portão o Titó ainda parou a colher, na roseira costumada, uma rosinha para florir o jaquetão de veludilho. E juntamente entrava o Padre Soeiro, recolhendo duma volta pelos Bravais, com o seu grande guarda-sol de paninho e o seu breviário. Todos acolheram com carinho o santo e douto velho, tão raro agora na Torre.
- E então, no domingo, cá temos o nosso homem, Padre Soeiro!
O capelão achatou sobre o peito a mão gorda, com reverência, com gratidão...
- Deus ainda me quis conceder, na minha velhice, mais esse grande favor... Pois mal o esperava. Terras tão ásperas, e ele tão delicado...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.