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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Maias

Por Eça de Queirós (1888)

Então todos os dias, durante semanas, teve essa hora deliciosa, esplendida, perfeita, «a visita à ingleza». Saltava do leito, cantando como um canario, e penetrava no seu dia como n'uma acção triumphal. O correio chegava; e invariavelmente lhe trazia uma carta da Gouvarinho, tres folhas de papel d'onde cahia sempre alguma pequena flôr meio murcha. Elle deixava ficar a flôr no tapete: e mal podia dizer o que havia n'aquellas longas linhas cruzadas. Sabia apenas vagamente que, tres dias depois d'ella chegar ao Porto, o pai, o velho Thompson, tivera uma apoplexia. Ella lá estava, d'enfermeira. Depois, levando duas ou tres bellas flôres do jardim embrulhadas n'um papel de sêda, partia para a rua de S. Francisco, sempre no seu coupé - porque o tempo mudára, e os dias seguiam-se, tristonhos, cheios de sudoeste e de chuva.

Á porta o Domingos acolhia-o com um sorriso cada vez mais enternecido. Niniche corria de dentro, a pular d'amizade; elle erguia-a nos braços para a beijar. Esperava um instante na sala, de pé, saudando com o olhar os moveis, os ramos, a clara ordem das coisas; ia examinar no piano a musica que ella tocára essa manhã, ou o livro que deixára interrompido, com a faca de marfim entre as folhas.

Ella entrava. O seu sorriso ao dar-lhe os bons dias, a sua voz d'ouro tinham cada dia para Carlos um encanto novo e mais penetrante. Trazia ordinariamente um vestido escuro e simples: apenas ás vezes uma gravata de rica renda antiga, ou um cinto cuja fivella era cravejada de pedras, avivavam este traje sobrio, quasi severo, que pareria a Carlos o mais bello, e como uma expressão do seu espirito.

Começavam por fallar de miss Sarah, d'aquelle tempo agreste e humido que lhe era tão desfavoravel. Conversando, ainda de pé, ella dava aqui e além um arranjo melhor a um livro, ou ia mover uma cadeira que não estava no seu alinho; tinha o habito inquieto de

recompor constantemente, a symetria das coisas; - e, machinalmente, ao passar, sacudia a superficie de moveis já perfeitamente espanejados com as magnificas rendas do seu lenço.

Agora acompanhava-o sempre ao quarto de miss Sarah. Pelo corredor amarello, caminhando ao seu lado, Carlos perturbava-se sentindo a caricia d'esse intimo perfume em que havia jasmim, e que parecia sahir do movimento das suas saias. Ella ás vezes abria

familiarmente a porta de um quarto, apenas mobilado com um velho sofá: era alli que Rosa brincava, e que tinha os arranjos de Cri-cri, as carruagens de Cri-cri, a cozinha de Cri-cri. Encontravam-na vestindo e conversando profundamente com a boneca; ou então, ao canto do sofá, com os pésinhos cruzados, immovel, perdida na admiração d'algum livro d'estampas aberto sobre os joelhos. Ella corria, estendia a boquinha a Carlos; e toda a sua pessoa tinha a frescura de uma linda flôr.

No quarto da governante, Maria Eduarda sentava-se aos pés do leito branco; e logo a pobre miss Sarah, ainda cheia de tosse, confusa, verificando a cada instante se o lenço de sêda lhe cobria correctamente o pescoço, affirmava que estava boa. Carlos gracejava com ella, provando-lhe que n'esse feio tempo d'inverno, a felicidade era estar alli na cama, com bons cuidados em redor, alguns romances patheticos, e appetitosa dieta portugueza. Ella voltava os olhos gratos para Madame, com um suspiro. Depois murmurava - Oh yes, I am very comfortable!

E enternecia-se.

Logo nos primeiros dias, ao voltar á sala, ria Eduarda tinha-se sentado na sua cadeira escarlate, e, conversando com Carlos, retomára muito naturalmente o seu bordado como na presença familiar de um velho amigo. Com que felicidade profunda elle viu desdobrar-se essa talagarça! Devia ser um faisão de plumagens rutilantes: mas por ora só estava bordado o galho de macieira em que elle pousava, galho fresco de primavera, coberto de florzinhas brancas, como n'um pomar da Normandia.

Carlos, junto da linda secretariasinha de pau preto, occupava a mais velha, a mais commoda das poltronas de reps vermelho, cujas molas rangiam de leve. Entre elles ficava a mesa de costura com as Illustrações ou algum jornal de modas; ás vezes, um instante calado, elle folheava as gravuras, em quanto as lindas mãos de Maria, com brilhos de joias, iam puxando os fios de lã. Aos pés d'ella Niniche dormitava, espreitando-os a espaços, através das repas do focinho, com o seu bello olho grave e negro. E n'esses escuros dias de chuva, cheios de friagem lá fóra e do rumor das goteiras, aquelle canto da janella, com a paz do vagaroso trabalho na talagarça, as vozes lentas e amigas, e ás vezes um dôce silencio, tinha um ar intimo e carinhoso... Mas no que diziam não havia intimidades. Fallavam de Paris e do seu encanto, de Londres onde ella estivera durante quatro lugubres mezes de inverno, da Italia que era o seu sonho vêr, de livros, de coisas d'arte. Os romances que preferia eram os de Dickens;

(continua...)

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