Por Eça de Queirós (1900)
"... Deves agora estar ansiosa por saber da grande chegada do primo Gonçalo. Foi realmente brilhante, e parecia uma recepção de pessoa real. Éramos mais de trinta amigos. Está claro, apareceu toda a roda da nossa parentela; e se rebentasse de repente nessa manhã uma revolução, os Republicanos apanhavam ali junta, na estação do Rossio, toda a flor da nobreza de Portugal, da velha, da boa. De senhoras, era a prima Chelas, a tia Louredo, as duas Esposendes (com o tio Esposende, que, apesar do reumatismo e da vindima, veio expressamente da quinta de Torres), e eu. Homens, todos. E como estava o Conde de Arega, que é secretário de El-Rei, e o primo Olhalvo, que é o seu Mordomo-Mor, e o Ministro da Marinha e o Ministro das Obras Públicas, ambos condiscípulos e íntimos de Gonçalo, as pessoas na estação deviam imaginar que chegava El-Rei. O Sud-Express trouxe quarenta minutos de demora. De modo que parecia um salão, com toda aquela gente de sociedade, muito alegre, e o primo Arega, sempre tão amável e engraçado, e fazendo já convites para um jantar (que depois deu) ao primo Gonçalo. Lá fui a esse jantar com o meu vestido verde, novo, que ficou bem...
Gouveia gritou triunfando:
- Hem? Que disse eu?! cá está vestido. Vestido verde!
- Lê para diante, homem! - bramou o Titó.
E o Administrador, realmente interessado, recomeçou, com entono:
"...com o meu vestido verde novo, exceto a saia, um pouco pesadota. Creio que fui eu a primeira que avistou o primo Gonçalo, na plataforma do Sud-Express. Não imaginas como vem... ótimo! Até mais bonito, e sobretudo mais homem. A África nem de leve lhe tostou a pele. Sempre a mesma brancura. E duma elegância, dum apuro! Prova de como se adianta a civilização da África! dizia o primo Arega, este é estilo novo de tangas em Macheque!... Como imaginas, muito abraço, muita beijoca. A tia Louredo choramingou. Ah, já esquecia! Estava também o Visconde de Rio-Manso, com a filha, a Rosinha. Muita linda ela, com um vestido do Redfern, fez sensação. Todos me perguntavam quem era, e o Conde de Arega, está claro, logo com apetite de ser apresentado. O Rio-Manso também choramingou ao abraçar o primo Gonçalo. E ali viemos todos, em nobre séquito, pela estação fora, entre o pasmo dos povos. Mas imediatamente uma cena. De repente, no meio de toda aquela nata de brasões, o primo Gonçalo rompe e cai nos braços do homenzinho de bonnet agaloado que recebia à porta os bilhetes. Sempre o mesmo Gonçalo! Parece que o conheceu ao chegar a Lourenço Marques, onde o homem tratava de se estabelecer como fotógrafo. Mas já esquecia o melhor - o Bento! Não imaginas o Bento... Magnífico! Deixou crescer um bocado de suíça. É um modelo, vestido em Londres, de grande casaco de viagem de pano claro, até aos pés, luvas amareladas, gravidade imensa. Gostou de me ver na estação - perguntou logo, com o olho miúdo, pela Sra. D. Graça, e pela Rosa. A noite, o José e eu jantamos em família, com o primo Gonçalo, no Bragança, para conversar da Torre e dos Cunhais. Ele contou muitas coisas interessantes da África. Traz notas para um livro, e parece que o prazo prospera. Nestes poucos anos plantou dois mil coqueiros. Tem também muito cacau, muita borracha. Galinhas são aos milhares. É verdade que uma galinha gorda em Macheque vale um pataco. Que inveja! Aqui em Lisboa custa seis tostões, só com ossos - porque tendo também alguma carne no peito, salta para cá dez tostões, e agradece! No prazo já se construiu uma grande casa, próximo do rio, com vinte janelas e pintada de azul. E o primo Gonçalo declara que já não vende o prazo nem por oitenta contos. Para felicidade completa até achou um excelente Administrador. Eu todavia duvido que ele volte para a África. Tenho agora cá a minha linda idéia sobre o futuro do primo Gonçalo. Talvez até rias. E não adivinhas... com efeito, eu mesma só nessa noite em que jantamos no Bragança, recebi de repente a inspiração. O Rio-Manso está também no Bragança. Quando descíamos para o jantar, para um gabinete, encontramos no corredor o velho com a pequena. O homem tornou logo a abraçar Gonçalo, com uma ternura de pai. E a Rosinha tão vermelha se fez, que até Gonçalo, apesar de excitado e distraído, notou e corou de leve. Parece que já há entre eles um conhecimento antigo, por causa dum cesto de rosas, e que, desde anos, o Destino os anda sorrateiramente chegando. Ela é realmente uma beleza. E tão simpática, tão bem-educada!... Diferença de idade, apenas onze anos; e o dote tremendo. Falam em quinhentos contos. Ha: apenas a questão de sangue, e o dela, coitadinha... Enfim, como se diz em heráldica - "o Rei faz a pastora Rainha". E os Ramires não só vêm dos Reis, mas os Reis vêm dos Ramires. - E agora passando a assunto menos interessante..."
Discretamente João Gouveia dobrou a carta, que entregou a Gracinha, louvando a Sra. D. Maria Mendonça como um repórter precioso. Depois, com um cumprimento:
- E; minha senhora, se as previsões dela se realizam...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.