Por Eça de Queirós (1925)
Um ar frio e humido envolveu-o : estava junto ó muralha do Terreiro do Paço. O rio agitado, na maré crescente, batia tristemente na escuridão, contra as escadas dc Caes ; entre os botes amarrados, a agua tinha tenebrosidades frias ; vultos de navios faziam na noite escura redobramentos de sombras, e aqui, além, n'um mastro, tremulava um fanal mortiço. — Era só subir ao parapeito, saltar, estava livre Seria a agonia d'um momento, uma suffocação estrebuxada, goles d'agua engulidog paz! . . . Então pareceu-lhe que estava morto já, que o encontravam inchado, verde, todo coberto de lÔdo : reconhecel-o-iarn e o mysterio dramatico da sua morte encheria os jornaes, dar-lhe-ia uma tragica celebridade ! . . . Os Esmaltes e Joias seriam lidos ; procurar-se-ia n'elles o segredo da sua resolucão, como n'um documento de amargura ; folhetins comparal-o-iam a Chatterton, a Gérard de Nerval . . . A Concha choraria, a Baroneza amaria a sua memoria ! . . . E aquella gloria em volta do seu cadaver tentava-o estranhamente porque não Porque não . . . Certos reflexos mais negros da agua chamavam-no com intenções de pupilla,s humanas ; reteve-o o horror do frio, a idéa da roupa molhada collada ao corpo c uma vaga inercia, a preguiça de tomar uma resolução tão violenta . . E ao mesmo tempo, sentia-se enternecido, com uma saudado roa manesca da sua propria existencia extincta, E olha. va a agua, de pé, com a cabeça toda em febre Uma voz fina, muito lisboeta, disse ao lado :
— O senhor viu por acaso tirarem-me o chapéu
Voltou-se comc que estremunhado. Era um sujeitinho barrigudo, nedio, de repas grisalhas, que repetiu :
— O senhor viu tirarem-me o chapéu
— Eu ? Não ! — disse Arthur impaciente.
— Homem, esta ! Tinha-me encostado alli . .
Jantei em casa do Gonçalves, do Gonçalves da rua dos Retrozeiros, ha-de conhecer, o Gonçalves, o da Camara . . . Jantei com elle, vim depois dar o meu passeio hygienico : sento-me alli um bocado . . . vem me uma quebreira, talvez da pinguita do Porto o Gonçalves tem bom Porto, tem bons vinhos. O sogro é negociante de vinhos . . . De repente sinto um friozinho na calva : tinham-me tirado o chapéu ! O senhor não viu
— Não vi — disse Arthur, afastando-se, furioso com aquelle importuno.
Mas o sujeito pôz-se a andar ao lado d'elle e com gestos curtinhos, a voz muito cantada :
— Homem, esta ! Eu não é pelo chapéu, diabos levem o chapéu ! pelo ferro ! E que ha-de dizer minha senhora Oh, menino, d'onde vens tu sem chapéu ? Ora, ora ! Se as lojas estivessem abertas ! Que eu não é pelos tres mil réis ! porque não estão abertas ! Senão ia ao Roxo, está claro que ia ao Roxo. O Roxo conhece-me bem. Mas que ferro ! Um chapéu novo ! Então não viram ! Ir para casa sem chapéu ! Sempre vai uma ladroeira pela Baixa ! Se fosse o lenço ! Bem me importava com o lenço ! Mas o chapéu ! o ferro ! É o ferro ! O senhor não viu ?
— Oh, senhor, já lhe disse que não ! —E Arthur apressava-se, indignado d'aquella interrupção burlesca á sua tragica meditação.
l.fas o sujeito ia-lhe ao lado, querendo acertar o passo pelo d'elle, loquaz, excitado ; acompanhava-o pelo Terreiro do Paço, repetia a historia da somneca, fallava no jantar do Gonçalves, contou casos d'outros roubos, até que á porta do Hespa nhol, já enervado, desesperado, Arthur interrom peu-o :
— Bem, eu moro aqui, adeus !
Mas o outro reteve-o pelo botão do paletot e Arthur, immobilisado, teve de o ouvir.
— O senhor comprehende, eu sou muito conhecido na Baixa, não posso sahir por ahi fóra sem chapéu. Que ha-de dizer minha senhora Que ella é uma santa : sou casado ha vinte e cinco annos e nunca me deu senão gostos. É dos Pereiras, dos Pereiras de Santo Amaro. É das melhores, uma *anta ! Mas emfim il para casa sem chapéu ! Começa logo a Joaquina — e então a Joaquina ! É a creada ; boa creada, trabalhadeira . . . Começa logo : Olha o senhor que vem sem chapéu ! Pudera, se m'O tiraram. Que eu é pelo ferro !...
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43205 . Acesso em: 29 jun. 2026.