Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Portuguesa

O Primo Basílio

Por Eça de Queirós (1878)

Luísa, quando ele saiu à tardinha, fechou-se no quarto, com a carteirinha de Juliana, correu os transparentes por precaução, acendeu uma vela, e queimou as cartas. As mãos tremiam-lhe; e via, com os olhos marejados de lágrimas, a sua vergonha, a sua escravidão irem-se, dissiparem-se num fumo alvadio! Respirou completamente! Enfim! E fora Sebastião, aquele querido Sebastião!

Foi então à sala, à cozinha, ver a casa: tudo lhe pareceu novo, a sua vida cheia de doçura; abriu todas as janelas; experimentou o piano; rasgou mesmo em pedaços, por superstição, a música da Medjé, que lhe dera Basílio; conversou muito com a Mariana; e saboreando o seu caldo de galinha de convalescente, com a face alumiada de felicidade:

- "Que bem que vou passar agora!" - pensava.

Quando sentiu no corredor os passos de Jorge que entrava, correu, deitou-lhe os braços ao pescoço, e com a cabeça no ombro dele:

- Estou tão contente hoje! E se tu soubesses, é tão boa rapariga a Mariana!

Mas nessa noite a febre voltou. Julião, de manhã achou-a pior. Crescimentos... - disse descontente.

Estava receitando, quando D. Felicidade entrou, muito excitada. Ficou toda surpreendida de ver Luísa doente; e debruçando-se sobre ela, disse-lhe logo ao ouvido:

- Tenho que te contar!

Apenas Jorge e Julião saíram, desabafou, sentada aos pés da cama - com uma voz ora baixa pela gravidade da confidência, ora aguda pelo ímpeto da indignação:

Tinha sido roubada! Indignamente roubada! O homem que mandara a Tui, o grande ladrão, tinha escrito à Gertrudes, à criada, que não estava resolvido a voltar a Lisboa; que a mulher de virtude mudara de povoação; que ele não queria saber mais desse negócio e que até o achava esquisito; que oferecia o seu préstimo em Tui - tudo isto numa boa letra de escrevente público, num português horrível - e do dinheiro nem palavra!

- Que te parece o mariola? Oito moedas! Eu, se não fosse pela vergonha, ia direita à policia...Ai! Os galegos pra mim acabaram! Por isso o Conselheiro não se chegava ao rego! Pudera! A mulher nunca lançou a sorte!... - Porque se já não acreditava na honestidade dos galegos, não perdera a fé no poder das bruxas.

Que ela não era pelas oito moedas! Era pelo ferro! E depois, quem sabe onde estaria agora a mulher! Ai, era de endoidecer!... Que te parece, hem?

Luísa encolheu os ombros, muito abafada na roupa, as faces escarlates, cerravam-lhe os olhos numa sonolência pesada: D. Felicidade aconselhou-lhe vagamente um suadouro, suspirando; e, como Luísa não lhe podia dar consolações, saiu para ir à Encarnação desabafar com a Silveira.

Nessa madrugada Luísa piorou. A febre recrudescera. Jorge inquieto, vestiu-se à pressa, às nove horas da manhã, foi buscar Julião. Descia a escada rapidamente, abotoando ainda o paletó, quando o carteiro subia, tossindo o seu catarro.

- Cartas? - perguntou Jorge.

- Uma para a senhora - disse o homem. - Flá de ser para a senhora...

Jorge olhou o envelope; tinha o nome de Luísa, vinha da França.

- De quem diabo é isto? - pensou. Meteu-a no bolso do paletó, e saiu.

Daí a meia hora voltava com Julião, num trem.

Luísa dormitava, amodorrada.

- É preciso cautela... Vamos a ver... - murmurou Julião coçando devagar a cabeça, enquanto dooutro lado do leito Jorge o olhava ansiosamente.

Receitou e ficou para almoçar com Jorge. Estava um dia frio e pardo. A Mariana, abafada num casabeque, servia com os dedos vermelhos, inchados de frieiras. E Jorge sentia-se entristecer, como se toda a névoa do ar se lhe fosse lentamente depositando e condensando na alma.

A que se podia atribuir semelhante febre? - dizia, muito desconsolado. Tão extraordinário! Havia seis dias, ora melhor, ora pior...

- Estas febres vêm por tudo - replicou Julião, partindo tranqüilamente uma torrada - Às vezes poruma corrente de ar, às vezes por um desgosto. Tenho eu, por exemplo, um caso curioso: um sujeito, um Alves, que esteve para falir, e que viveu, coitado, durante dois meses em torturas. Há duas semanas, por um golpe de fortuna - a velhaca às vezes tem destes caprichos - arranjou todos os seus negócios, viu-se livre. Pois senhor, desde então tem uma febre assim, tortuosa, complexa, com sintomas disparatados... O que é? É que a excitação nervosa abateu, e a felicidade trouxe-lhe uma revolução no sangue. Pode muito bem dar à casca. Faz então a falência geral, a grande, aquela em que o credor é implacável, saca à vista, e... per omnia saecula!

Ergueu-se, e acendendo o cigarro:

- Em todo o caso um repouso absoluto. E necessário ter-lhe o espírito em algodão em rama.Nada de palestra, nada de frases, e se tiver sede, limonada. Até logo!

E saiu, calçando as luvas pretas que usava agora desde que pertencia ao posto médico.

Jorge voltou à alcova: Luísa ainda dormitava. Mariana, sentada ao pé numa cadeirinha baixa, com o rostinho muito triste, não tirava de Luísa os seus grandes olhos vagamente espantados.

- Tem estado muito inquieta - murmurou.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...132133134135136...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →