Por Eça de Queirós (1875)
- E a mana lá, naqueles ares saudáveis da beira-mar, é que acaba de ganhar forças e carnes...
Mas o doutor Gouveia desaprovou a jornada. O ar muito picante e muito rico do mar não convinha à fraqueza de D. Josefa. Era preferível irem para a quinta da Ricoça, nos Poiais, lugar abrigado e muito temperado.
Foi um desgosto para o pobre cônego, que prodigalizou as lamúrias. O quê! ir enterrar-se todo o Verão, o melhor tempo do ano, na Ricoça! E os seus banhos, meu Deus, os seus banhos?
- Veja o senhor, - dizia ele a Amaro, uma noite no escritório, - veja o que eu tenho sofrido... Durante a doença, que desarranjo, que desordem na casa! Chá fora de horas, jantar esturrado! E os cuidados que tive, que me emagreceram... E agora, quando eu pensava poder ir refazer- me para a praia, não senhor, vai para a Ricoça, dispensa os teus banhos... Isto é o que eu chamo sofrer! E no fim de tudo não fui eu que estive doente. Mas sou eu que as agüento... Perder dois anos a fio os meus banhos!
Amaro, então, deu de repente uma punhada na mesa, e exclamou:
- Homem, veio-me uma boa idéia!
O cônego olhou-o com dúvida, como se não achasse possível a uma inteligência humana descobrir o fim dos seus males.
- Quando digo uma boa idéia, padre-mestre, devia dizer uma idéia sublime!
- Acabe, criatura...
- Escute. O senhor vai para a Vieira, e a S. Joaneira, está claro, vai também. Naturalmente alugam casa um ao pé do outro, como ela me disse que tinham feito há dois anos...
- Adiante...
- Bem. Aqui temos a S. Joaneira na Vieira. Agora, a senhora sua mana parte para a Ricoça.
- E então a criatura há-de ir só?
- Não! exclamou Amaro em triunfo. Vai com a Amélia! A Amélia vai-lhe servir de enfermeira! Vão ambas sós! E lá na Ricoça, naquele buraco onde não vai viva alma, naquele casarão onde pode uma pessoa viver sem que ninguém em roda suspeite, lá é que a rapariga tem o filho! Hem, que lhe parece? O cônego erguera-se com os olhos redondos de admiração.
- Homem, famosa idéia!
- É que concilia tudo! O senhor toma os seus banhos. A S. Joaneira, longe, não sabe o que se passa. Sua mana goza os ares... A Amélia tem um sítio escondido para a coisa... À Ricoça ninguém a vai ver... A D. Maria também vai pra Vieira. As Gansosos, idem. A rapariga deve ter o bom sucesso ai pelos princípios de Novembro... Da Vieira, e isso fica por sua conta, não volta ninguém dos nossos até princípios de Dezembro... E quando nos reunirmos de novo está a rapariga limpa e fresca.
- Pois senhores, por ser a primeira idéia que você tem nestes dois últimos anos, é uma grande idéia!
- Obrigado, padre-mestre.
Mas havia uma dificuldade feia: era o ir à D. Josefa, à rigorista D. Josefa, tão implacável às fraquezas do sentimento, à D. Josefa que pedia para as mulheres frágeis as antigas penalidades góticas - as letras marcadas na testa com ferro em brasa, os açoutes nas praças públicas, os in pace tenebrosos - ir à Josefa e pedir-lhe para ser cúmplice dum parto!
- A mana vai dar urros! disse o cônego.
- Nós veremos, padre-mestre, replicou Amaro repoltreando-se e balouçando a perna, muito certo do seu prestígio devoto. Nós veremos... Hei-de-lhe eu falar... E quando lhe tiver contado umas lérias... Quando lhe tiver representado que é para ela um caso de consciência encobrir a pequena... Quando lhe lembrar que nas vésperas da morte é que se deve fazer alguma boa ação, para não se apresentar à porta do Paraíso com as mãos vazias... Nós veremos!
- Talvez, talvez, disse o cônego. A ocasião é boa, porque a pobre mana está fraquita do juízo e leva-se como uma criança.
Amaro ergueu-se, esfregando vivamente as mãos:
- Pois é, mãos à obra! É mãos à obra!
- E é necessário não perder tempo, porque o escândalo estala. Olhe que esta manhã, lá em casa, a besta do Libaninho pôs-se a gracejar com a rapariga, a dizer-lhe que tinha a cinta grossa...
- Oh, que patife! rugiu o pároco.
- Não, não seria por mal. Mas que a rapariga tem engrossado, é fato... Com esta atarantação da doença ninguém tem tido olhos para nada... Mas agora pode-se reparar... É sério, amigo, é sério!
•••
Por isso, logo na manhã seguinte, Amaro foi, segundo a expressão do cônego, "dar a grande abordagem à mana".
Antes, porém, explicou embaixo no escritório ao padre-mestre o seu plano: primeiro, ia dizer a D. Josefa que o cônego estava na inteira ignorância do desastre da Ameliazinha, e que ele, Amaro, o sabia, não em segredo de confissão (nesse caso não o poderia revelar), mas pelas confidências secretas dos dois - de Amélia e do homem casado que a seduzira!... Do homem casado, sim!... Porque enfim era necessário provar à velha que havia a impossibilidade duma reparação legítima...
O cônego coçava a cabeça descontente:
- Isso não vai bem arranjado, disse ele. A mana sabe bem que não iam homens casados à Rua da Misericórdia.
- E o Artur Couceiro? exclamou Amaro, sem escrúpulo.
O cônego largou a rir, com gosto. O pobre Artur, sem dentes, cheio de filhos, com os seus olhos de carneiro triste, acusado de perder virgens!... Não, essa era boa!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. O Crime do Padre Amaro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1791 . Acesso em: 29 jun. 2026.