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#Romances#Literatura Portuguesa

A Capital

Por Eça de Queirós (1925)

Então fez versos ; e com a imaginação afinada pela saudade, produziu com facilidade, escrevendo até tarde, emquanto gritos de bebados se repercutiam pelas ruas e perpetuamente rolavam as tipoias, de theatro para theatro.

Terminou, alta noite, uma ultima estrophe — em que dizia que a sua vida, penetrada até ás profundidades pelo amor da Concha, não teria outros amores, senão como tendas que se erguem para uma noite e se desmancham ao alvorecer. Áquella hora, no theatro D. Maria, a Concha e o Manolo, de dominó, apaixoÑadamente enlaçados, giravam com furor n'uma valsa, aos compassos estridentes da Filha de Madame Angot I

Ficou ao outro dia na cama até muito tarde e á noite, depois do jantar, decidiu, para « matar o tempo D, ir a S. Carlos, Tinha uma vaga esperança de encontrar lá a baconeza.

Chegava á esquina do Rocio, quando viu a figura magrinha do Damião, de paletot alvadio, guarda-chuva no braço, que vinha conversando com Nazareno. Que felicid.ade ! Era na sua mágoa como uma consolação, uma força, uma direcção que lhe chegava Correu para elle com os braços estendi- dos :

— 0h, Damião !

Damião recuou, fitou-o, disse simplesmente :

— Eu não fallo a canalhas !

Deu um passo para o lado, travou do braço de Nazareno e seguiu.

Arthur ficara como cataleptico : queria correr, os pés pegavam-se-lhe ; queria fallar, a lingua prendia-se-lhe ; sentia ferver-lhe o cerebro e um calor, onde havia um zumbido, escaldar.lhe as orelhas ; as luzes do Rocio faiscavam-lhe em zig-zags ante os olhos, e as pessoas, com um rumor abafado, pareciam-lhe mover-se no ar. Dous dominós apressados empurraram-no : despertou. Os beiços começaram a tremer-lhe, lagrimas humedeceram-lhe os olhos. A palavra de Damião — canalha ! — atravessou-lhe o cerebro, o rosto, os ouvidos, com 0 estampido, o impulso d'uma bofetada. Sentiu um desespero, um desejo sanguinolento de vingança : vinham-lhe agora á lingua as palavras vibrantes que deveria ter atirado ao Damião; sentia agora no braço a força da bofetada que lhe devia ter dado na face . . . Mas aquelle impeto ardeu um instante e extinguiu-se como um rastilho de polvora ; e abatido, prostrado, foi segtlindo ao comprido da,s casas para o Terreiro do Paço, inconscientemente, com passos molles que oseillavam.

Sentia um espanto, uma revolta aterrada contra o Destino. Porquo merecia tudo o que lhe succedia Que tinha feito ? Era bom, era amante, era intelligente, ora honrado — e a cada passo que dava na vida surgia-lhe uma indifferença, um escarneo, uma humilhação, uma traição, uma desfeita ! Teve a con sciencia da sua fraqueza moral, da sua debilidade effeminada ! Revoltou-se contra si mesmo . . . nham-lhe chamado canalha, e ficara aparvalhado, n'uma tremura ! Teve odio á estructura anemica do seu corpo, á languidez romanesca da sua alma : sentiu-se um fraco, um maricas, um tremulo, um piegas . . . De que servia na vida Mais valia morrer, dcsapparecer como uma bola de sabão que quebra n'um cuspo d'espuma ! Para que viver Não tinha dinheiro, nem posição, nem uma amizade, nem um amor ! Que lhe restava Ir enterrar-se em Oliveira d'Azemeis Pertencer ao Vasco, pisar n'um almofariz semente de linhaça, perpetuamente ? Não ! Então E a morte apparecia-lhe com a doçura d'um repouso e a attracçüo d'um refugio. Deus fizera-lhe a vida amarga para o desgostar d'ella, obrigal-o a sahir, dar logar a outro mais forte, como n'uma hospedaria onde se desgosta o hospede pobre, para dar logar ao hospede rico. Elle que comprehendia tão bem o amor, não encontrava uma mulher que lhe desse um olhar compassivo ; elle que sentia em si idéas, imagens, estylo, não tinha um diabo que dissesse uma palavra do seu livro, lhe desse uma migalha d'aquella celebridade de que ti" nha fome ! Approximava-se cheio de sympathia, de calor, avido de ser util— recebia um empurrão ! Fôra direito á Sociedade, com tanta admiração por ella— e recebera por acolhimento alguns olhares secoados, hombros soberbamente voltados ; lançara-se para a Republica, vibrante d'enthusiasmo — e fôra repellido com vaias e assobios ! A Concha, que elle adorava, safava-se-lhe ! O Damião que admirava, insultava-o ! De que lhe servia viver, caminhando assim, envolvido na sua má sorte como n'uma atmosphera inilludivel ?

(continua...)

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