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#Romances#Literatura Portuguesa

A ilustre Casa de Ramires

Por Eça de Queirós (1900)

Logo depois do derradeiro Natal passado com Gonçalo, André, que ainda os acompanhara à Missa do Galo e consoara nos Cunhais, voltou para Lisboa, para essa "Reforma", de que se lastimava... No silêncio que entre ambos então se alargou, corria já uma frialdade de abandono... E quando André recolheu a Oliveira, ao seu Governo Civil, partia ela para Amarante, onde a santa mãe do Barrolo adoecera, com uma vagarosa doença de anemia e velhice, que em maio a levou para o Senhor.

Em junho fora o comovido embarque de Gonçalo para a África - e no tombadilho do paquete, entre o barulho e as bagagens, um encontro com André, que chegara de Oliveira, dias antes, e contou muito alegremente do casamento da Mariquinhas Marges. Todo esse verão, como o Barrolo decidira fazer obras consideráveis no velho palacete do largo de El-Rei, o passaram na quinta da Murtosa, que ela escolhera por causa da linda mata, dos altos muros de convento. A essa solidão atribuiu logo o Barrolo a sua melancolia, a sua magreza, aquele cansado cismar a que se abandonava, pelos bancos musgosos da mata, com um romance esquecido no regaço. Para que ela se distraísse, se fortificasse com banhos do mar, alugou em setembro, na Costa, o vistoso chalé do Comendador Barros. Ela não tomou banhos, nem aparecia na praia, à fresca hora das barracas, entre as senhoras sentadas em cadeirinhas baixas; - e só à tarde passeava pelo comprido areal, rente à vaga, acompanhada por dois enormes galgos que lhe dera Manuel Duarte. Uma manhã, ao almoço, ao abrir as Novidades, Barrolo pulou, com um berro, um espanto. Era a queda inesperada do Ministério do S. Fulgêncio! André Cavaleiro apresentava logo a sua demissão pelo telégrafo. E ainda pelas Novidades souberam na Costa que S. Exa. partira para uma 'longa e pitoresca viagem", a viagem a Constantinopla, à Ásia Menor, que ele anunciara ao jantar nos Cunhais. Ela abrira um Atlas: com o dedo lento caminhou desde Oliveira até a Síria, por sobre fronteiras e montes; já André lhe parecia desvanecido, nesses horizontes mais luminosos; fechou o Atlas, pensando simplesmente "como a gente muda!"

Em novembro voltaram a Oliveira, num sábado de chuva, e ela na carruagem sentia toda a melancolia e a frialdade do céu penetrar no seu coração. Mas no domingo acordou com um lindo sol nas vidraças. Para a missa das onze na Sé, ela estreou um chapéu novo; depois, no caminho para casa da tia Arminda, levantou os olhos para o casarão do Governo Civil; agora habitava lá outro Governador Civil, o Sr. Santos Maldonado, um moço louro que tocava piano.

Na outra primavera o Barrolo, agora escravizado pela paixão de obras, imaginou demolir o Mirante para construir outra estufa, mais vasta, com um repuxo entre palmeiras, que formaria "um jardim de inverno catita".

Os trabalhadores começaram por esvaziar o Mirante da velha mobília que o guarnecia desde o tempo do tio Melchior; o imenso divan jazeu dois dias no jardim, encalhado contra uma sebe de buxo, e o Barrolo, impaciente, com aquele desusado traste, de molas quebradas, nem o consentiu nas arrecadações do sótão, mandou que o queimassem com outras cadeiras, partidas, numa fogueira de festa, na noite dos anos de Gracinha. E ela andou em torno da fogueira. O estofo puído flamejou, depois o mogno pesado mais lentamente, com um leve fumo, até que uma brasa ficou latejando, e a brasa escureceu em cinza.

Logo nessa semana as Lousadas, mais agudas, mais escuras, invadiram uma tarde os Cunhais - e apenas espetadas no sofá, logo lhe contaram, com um riso feroz nos olhinhos furantes, do grande escândalo, o Cavaleiro! em Lisboa! sem rebuço! com a mulher do Conde de S. Romão! um fazendeiro de Cabo Verde!

Nessa noite, ela escreveu a Gonçalo uma carta muito longa que começava: - "Por cá estamos todos bem, e neste ramerrame costumado..." E com efeito a vida recomeçara, no seu ramerrame, simples, contínua, e sem história, como corre um rio claro numa solidão.

À porta envidraçada da varanda o filho da Críspola espreitou - o filho da Críspola, que ficara sempre na Torre, como "andarilho", mas crescera muito para fora da sua antiga jaqueta de botões amarelos, usava agora jaquetões velhos do Sr. Doutor, e já repuxava o buço:

- E que está lá embaixo o Sr. Antônio Vilalobos, com o Sr. Gouveia e outro senhor, o Videirinha,e perguntam se podem falar à senhora...

- O Sr. Vilalobos! Sim! que subam, que entrem para aqui, para a varanda!

Ao atravessar a sala, onde dois esteireiros de Oliveira pregavam uma esteira nova, o vozeirão do Titó já ribombava, notando os "preparativos da festa..." E quando entrou na varanda a sua face mais barbuda, mais requeimada, rebrilhava com a alegria de encontrar enfim a Torre despertando daquela modorra, em que tudo dentro parecia tristemente apagado, até o lume das caçarolas:

- Peço desculpa da invasão, prima Graça. Mas passamos, de volta dum passeio dos Bravais,soubemos que a prima viera com o Barrolo...

(continua...)

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