Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Portuguesa

O Primo Basílio

Por Eça de Queirós (1878)

Ele calou-se, mordendo furioso o charuto. E Sebastião, para a sossegar, propôs que viesse a tia Vicência, a preta, velar a Juliana.

- Era talvez melhor - murmurou Luísa.

Chegaram à porta de Sebastião. O frufru do vestido de seda de Luísa, àquela hora, na sua casa, dava uma comoção a Sebastião: a mão tremia-lhe ao acender as velas da sala. Foi acordar a tia Vicência para fazer chá; tirou ele mesmo os lençóis dos baús, apressado, feliz daquela hospitalidade. Quando voltou à sala, Luísa estava só, muito pálida, ao canto do sofá.

- Jorge? - perguntou ele.

- Foi ao seu escritório, Sebastião, escrever ao pároco para o enterro... E com os olhosbrilhantes, numa voz sumida e assustada: - Então?

Sebastião tirou da algibeira a carteirinha de Juliana. Ela agarrou-a sofregamente - e com um movimento brusco tomou-lhe a mão e beijou-lha.

Mas Jorge entrava, sorrindo.

- Então agora está mais descansada, a menina?

- Inteiramente - disse ela com um suspiro de alívio.

Foram tomar chá. Sebastião contou a Jorge, corando um pouco, a maneira como entrara em casa, a Juliana lhe estivera a dizer que fora despedida, e falando, exaltando-se, zás, de repente, caíra para o lado morta...

E acrescentou:

- Coitada!

Luísa via-o mentir, olhando-o com adoração.

- E a Joana? - perguntou Jorge de repente. Luísa, sem se perturbar, respondeu:

- Ah, esqueci-me dizer-te... Tinha pedido licença para ir ver uma tia que está muito mal, para oslados de Belas... Diz que volta amanhã... Mais uma gota de, chá, Sebastião...

Esqueceram-se depois de mandar a Vicência - e ninguém velou a morta.

CAPÍTULO XIV

Luísa passou a noite às voltas, com febre. Jorge de madrugada ficou assustado da freqüência do seu pulso e do calor seco da pele.

Ele mesmo muito nervoso, não pudera dormir.

O quarto, onde se não acendera luz havia muito, tinha uma frialdade desabitada na parede, junto ao teto, havia manchas de umidade; e a cama antiga de colunas torneadas sem cortinados, o velho trenó do século passado com o seu espelho embaciado davam, à luz bruxuleante da lamparina, um sentimento triste de convivências extintas. O achar-se ali com a sua mulher, numa cama alheia, trazia-lhe, sem saber por quê, uma vaga saudade; parecia-lhe que se dera na sua vida uma alteração brusca - e que, semelhante a um rio a que se muda o leito, a sua existência, desde essa noite, começaria a correr entre aspectos diferentes. O nordeste fazia bater os caixilhos da vidraça, e uivava encanado na rua.

Pela manhã, Luísa não se pôde levantar.

Julião, chamado à pressa, tranqüilizou-os:

- É uma febrezita nervosa. Quer sossego, não vale nada. Foi o medozinho de ontem, hem?

- Sonhei toda a noite com ela - disse Luísa. - Que tinha ressuscitado... Que horror!

- Ah! Pode estar sossegada... E já a aviaram, a mulher?

- O Sebastião lá anda com a maçada - disse Jorge. - E eu vou dar uma vista de olhos.

Na rua já se sabia a morte da Tripa Velha.

A mulher que a veio amortalhar, uma matrona muito picada das bexigas com os olhos avermelhados da paixão da aguardente, era conhecida da Sra. Helena. Estiveram um momento a palrar ao sol, à porta do estanque:

- Muito que fazer agora, Sra. Margarida, hem?

- Bastante, bastante, Sra. Helena - disse a amortalhadeira com a voz um pouco rouca. - Noinverno sempre há mais obra. Mas tudo gente velha, com os frios. Nem um corpinho bonito para vestir...

A Sra. Margarida tinha predileções artísticas. Gostava de um bonito corpo de dezoito anos, uma mocinha fresca para lavar, escarolar, enfeitar... Entrouxava à má cara a gente velha. Mas com as raparigas novas esmerava-se: acatitava as pregas da mortalha; calculava o chique de uma flor, de um laço; trabalhava com os requintes ajanotados de uma modista do sepulcro.

A estanqueira contou-lhe muitas particularidades sobre a Juliana, os favores dos patrões, as tafularias dela, os luxos do quarto tapetado... A Sra. Margarida dizia-se "banzada". E para quem agora iria tudo aquilo? - perguntavam. - A Tripa Velha não tinha parentes...

- Era uma riqueza para a minha Antoninha! - disse a amortalhadeira traçando o xale comtristeza.

- Como vai ela, a pequena?...

- Aquilo vai mal, Sra. Helena. Aquela cabeça doida! - E exalando a sua dor com loquacidade: Deixar o brasileiro que a trazia nas palminhas... E por quem? Por aquele desalmado, que lhe come tudo, que já lhe arranjou um filho e que a derreia com pau... Mas então, as raparigas são assim... Vão atrás do palmo de cara... Que ele é bonito rapaz! Mas um bêbedo!... Coitada!... Pois vou vestir a boneca, Sra. Helena. - E entrou na casa compungidamente.

O padre já chegara também. Estava na sala com Sebastião, que conhecia de Almada, e falava de lavoura, de enxertos, das regas, numa voz grossa - passando, com um gesto lento da sua mão cabeluda, o lenço enrolado por debaixo do nariz. As janelas em toda a casa estavam abertas ao sol muito doce. Os canários chilreavam.

- E estava há muito tempo na casa, a defunta? - perguntou o padre a Jorge, que passeava pelasala, fumando.

- Há quase um ano.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...130131132133134...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →