Por Eça de Queirós (1900)
- O Sr. Doutor ainda se demora?
- Não. A festa acabou, Bento.
Nos começos de dezembro, com o primeiro número dos Anais, apareceu a Torre de D. Ramires.
E todos os jornais, mesmo os da oposição, louvaram "esse estudo magistral (como afirmou a Tarde) que, revelando um erudito e um artista, continuava, com uma arte mais moderna e colorida, a obra de Herculano e de Rebelo, a reconstituição moral e social do velho Portugal heróico". Depois das festas de Natal, que ele passou alegremente nos Cunhais, ajudando Gracinha a cozinhar bolos de bacalhau por uma receita sublime do Padre José Vicente, da Finta, os amigos de Oliveira, os rapazes do Club da Arcada ofereceram ao Deputado por VilaClara, na sala da Câmara, adornada de buxos e bandeiras, um banquete, a que assistia o Cavaleiro, de grã-cruz, e em que o Barão das Marges (que presidia) saudou "o prestigioso moço que, talvez em breve, nas cadeiras do Poder, levantasse do marasmo este brioso país, com a pujança, a valentia, que são próprias da sua raça nobilíssima!"
No meado de janeiro, por uma agreste noite de chuva, Gonçalo partiu para Lisboa; e através do inverno, em Lisboa, andou sempre nos Carnet-Mondain e High-Life dos jornais, nas noticias de jantares, do raouts, de tiros aos pombos, de Caçadas de El-Rei, tão notado nos movimentos mais simples da sua elegância, que os Barrolos assinaram o Diário Ilustrado para saber quando ele passeava na avenida. Em Vila-Clara, na Assembléia, o João Gouveia já encolhia os ombros, rosnando: - "Desandou em janota!" - Mas nos fins de abril uma notícia de repente alvoroçou Vila-Clara, espantou na quieta Oliveira os rapazes do Club e da Arcada, perturbou tão inesperadamente Gracinha, então em Amarante com o Barrolo, que nessa noite ambos abalaram para Lisboa - e na Torre atirou a Rosa para um banco de pedra da cozinha, lavada em lágrimas, sem compreender, gemendo:
- Ai o meu rico menino, o meu rico menino, que o não torno mais a ver!
Gonçalo Mendes Ramires, silenciosamente, quase misteriosamente, arranjara a concessão dum vasto prazo de Macheque, na Zambézia, hipotecara a sua quinta histórica de Treixedo, e embarcava em começos de junho no paquete Portugal, com o Bento, para a África.
XII
Quatro anos passaram ligeiros e leves sobre a velha Torre, como vôos de ave.
Numa doce tarde dos fins de setembro, Gracinha, que chegara na véspera de Oliveira acompanhada pelo bom Padre Soeiro, descansava na varanda da sala de jantar, estendida sobre o canapé de palhinha, ainda com um grande avental branco, tapando o vestido até ao pescoço, um velho avental do Bento. Todo o dia, de avental, através do casarão, ajudada pela Rosa e pela filha da Críspola, se esfalfara, arrumando e limpando, com tanto gosto e fervor no trabalho, que ela mesma sacudira o pó a todos os livros da Livraria, o seu sossegado pó de quatro anos. O Barrolo também se ocupara, dando sentenças nas obras da cavalariça, que a valente égua da briga da Grainha em breve partilharia com uma égua inglesa, de meio sangue, comprada em Londres. Também Padre Soeiro remexera, pelo Arquivo, zelosamente, com um espanejador. E até o Pereira da Riosa, o bom rendeiro, apressava desde madrugada dois moços na final limpeza da horta, agora muito cuidada, já com meloal, já com morangal, e duas novas ruas, ambas bordadas de roseiras e recobertas de latada que a parra densa já recobria.
Com efeito a Torre, entre a alvoroçada alegria de todos, enfeitava a sua velhice - porque no domingo, depois dos seus quatro anos de África, Gonçalo regressava à Torre.
E Gracinha, estendida no canapé com o seu velho avental branco, sorrindo pensativamente para a quinta silenciosa, para o céu todo corado sobre Valverde, recordava esses quatros anos, desde a manhã em que abraçara Gonçalo, sufocada e a tremer, no beliche do Portugal... Quatro anos! Assim passados, e nada mudara no mundo, no seu curto mundo dentre os Cunhais e a Torre, e a vida rolara, e tão sem história como rola um rio lento numa solidão; Gonçalo na África, na vaga África, mandando raras cartas, mas alegres, e com um entusiasmo de fundador de Império; ela nos Cunhais, e o seu Barrolo, num tão quieto e costumado viver, que eram quase de agitação os jantares em que reuniam os Mendonças, os Marges, o coronel do 7, outros amigos, e à noite na sala se abriam duas mesas de pano verde para o voltarete e para o boston.
E neste manso correr de vida se desfizera mansamente, quase insensivelmente, a sombria tormenta do seu coração. Nem ela agora compreendia como um sentimento, que através das suas ansiedades ela justificava, quase secretamente santificava por o saber único, e o desejar eterno, assim se sumira, insensivelmente, sem dilacerações, deixara apenas um leve arrependimento, alguma esfumada saudade, também estranheza e confusão, restos de tanto que ardera, formando uma cinza fina... A sucessão das coisas rolara, como o vento às lufadas num campo, e ela rolara, levada com a inércia duma folha seca.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.