Por Eça de Queirós (1925)
Ah, mas não havia de ficar assim, sem uma vinganga ! Pensou em lhe escrever uma carta cheia de todas as infamias que Melchior lhe revelara, ameaçando-a de lhe escarrar na cara, se ella ousasse, encontrando-o, erguer os olhos para elle, Mas para onde dirigiria a carta? Estaria ainda em Lisboa? Imaginou affligil-a de ciumes, tomando outra hespanhola,—a Angelita, que ella odiava—e enchendo-a de vestidos e joias . . . Mas o dinheiro ? Em cinco semanas tinha gasto quinhentos mil réis ! E com quem ! Com aquella creatura vil. — E este desperdicio augmentou o seu odio. Acabrunhou-a de injurias ; rasgou em pedaços a sua photographia ; decidiu não lhe enviar os bahús — ou remettel-os, tendo inutilisado á tesourada os vestidos e esmagado a martello as joias que ella lhe extorquira— porque Ih 'as extorquira, a ladra !
Quiz adormecer, mas não podia. A idéa de que ella., áquella hora, delirava douda nos braços do Manolo, de que nos intervallos da lubricidade, com os corpos lassos, muito unidos, caçoavam d'elle, riam, chamavam-lhe «o asno do portuguez davalhe um odio, cortado d'um pungente ciume carnal, que o fazia torcer-se sobre o enxergão, atirando punhadas ao travesseiro. Como Melchior, sentiu odio á Hespanha. Oh, se houvesse uma guerra ! Com que jubilo de vingança iria pelo Paiz, lançando proclamações, armando aldeias, arremessando contra a fronteira massas esmagadoras de patriotas ! E decidiu-se a escrever folhetins sobre a Hespanha « pondo-a mais raza que a lama ! »
Foi sob estas impressões que toda a noite sonhou com invasões e batalhas : via-se á frente de Portugal armado em massa, passando o Caia, invadindo a Hespanha, á Attila, e vindo, com a furia irreprimivel d'um elemento, abater-se sobre Madrid aterrada ; ahi, sentia-se semi-deus, era Achilles : estava nú, tinha um elmo pelagico e arrastava tres vezes em torno das muralhas, que lhe pareciam as de Troia, entre um pranto de viuvas subindo para a mudez do céu, o corpo branco e exangue do Manolo. Depois, era em Lisboa, na celebração da Victoria: ahi, era o Cid: tinha uma armadura refulgente d'emblemas; estava n'um palanque coberto do pannos leves de sêda, ao lado do Rei, de D. Luiz de Bragança, que trazia sobre a cabeça, enterrada até aos olhos, uma enorme coroa d'imperador da peninsula. Amarrada a um pelourinho, nua, torcia-se a Concha, a quem verdugos experientes, com musculos d'athletas, iam arrancando a pelle a chibatadas; defronte, a perder de vista, estendia-se uma negrura de fórmas humanas : eram as raças d'Hespanha, captivas, com os pulsos arroxeados e cangas nos pescoços, que sargentos de caçadores, torcendo o buço e meneando a chibata, iam levando para os descampados onde deviam, plebe vil, estrumar os campos de trigo e enxofrar as vinhas.
Quando acordou ao ruido da porta que se abria, a voz do Manuel chamou-o á realidade :
—É a Conchita que quer os bahús. Está lá em baixo o gallego . . .
— Não vai nada ! Não sahe nada ! — exclamou Arthur com uma violencia que ainda participava do seu sonho d'invasão.
Aconchegou-se nos lençoes, quiz readormecer. Não poude : faltava-lhe aquelle corpo lindo tão co- , nhecido, que elle enlaçava logo ao acordar, ainda languido de somno. Saltou da cama e começava a vestir-se, quando o Manuel, entreabrindo a porta subtilmente, adiantou o rosto ban hado de satisfação :
— O Manolo manda dizer que se os bahús não vão, manda cá um policia ou vem elle com um chi-! cote...
Arthur voltou-se como uma fera, mas o Manuel accudiu :
— Usted fica mal ! Usted dê as roupinhas ! Olhe que usted tem franstorno !
A sua voz era tão antipathica, que para o não vêr, por lassidão, por nojo, para acabar por uma vez com a Concha, com o Manolo, e vagamente assustado d'um escandalo, gritou furioso :
— Leve tudo ! Leve com os diabos ! Deixe-me ! — Usted está com o ferrito ! — disse muito jovialmente o Manuel.
O homem era-lhe tão odioso, que resolveu sahir do Hotel. E como se sentia vexado diante da Mercedes, da creada, dos dous hespanhoes tenebrosos, foi n'essa manhã almoçar á Aurea. Só quando viu nas ruas as lojas fechadas, se lembrou de que era Domingo Gordo. Como o passaria
Demorou o almoço, leu todos os jornaes, a astração Franceza, e ás duas horas, tomava o seu café, quando, na mesa ao pé, se veio sentar o calvo, o Videirinha, a quem o creado, de certo habituado, serviu logo um Cognac com siphão. O Videirinha cumprimentou Arthur com affabilidade e de certo para entabolar cavaco disse com bonhomia : — Domingozinho Gordo !
—É verdade, Domingo Gordo . , . — respondeu Arthur,
Videirinha immediatamente se veio sentar ao pé d'elle e com uma voz de pezame, baixo :
— Lá soube o desgosto ! Sinto muito ! A minha Mercedinha tambem sentiu muito.
Arthur, furioso com a compaixão do Videirinha, respondeu impaciente :
— Que tolice ! Desgosto ? Ora essa ! Allivio ! Eu estava farto d'ella !
Videirinha, não acreditando, bebeu discretamente um gole de Cognac. E fazendo estalar a lingua, erguendo muito as sobrancelhas :
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43205 . Acesso em: 29 jun. 2026.