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#Romances#Literatura Portuguesa

O Primo Basílio

Por Eça de Queirós (1878)

- Se não se tivesse zangado hoje...

- Estourava amanhã. Estava nas últimas... Deixa em paz a criatura. Está começando a esta horaa apodrecer, não a perturbemos.

Declarou então, esfregando as mãos com frio, que comia alguma coisa. Achou no armário um pedaço de vitela fria, uma garrafa meia de Colares. Instalou-se e, com a boca cheia, deitando o vinho do alto:

- Então sabes a novidade, Sebastião?

- Não.

- O meu concorrente foi despachado!

Sebastião murmurou:

- Que ferro!

- Era previsto - disse Julião com um grande gesto. - Eu ia fazer um escândalo, mas... - e teve umrisinho - amansaram-me! Estou num posto médico, deram-me um posto médico! Atiraram-me um osso!

- Sim? - fez Sebastião. - Homem, ainda bem, parabéns. E agora?

- Agora, roê-lo.

De resto, tinham-lhe prometido a primeira vagatura. O posto médico não mau... Em definitivo, a situação melhorara...

- Mas mesquinha, mesquinha! Não saio do atoleiro...

Estava farto de Medicina, disse depois de um silêncio. Era um beco sem saída. Devia-se ter feito advogado, político, intrigante. Tinha nascido para isso!

Ergueu-se, e com grandes passadas pela sala, o cigarro na mão, a voz cortante, expôs um plano de ambição: - O país está a preceito para um intrigante com vontade! Esta gente toda está velha, cheia de doenças, de catarros de bexiga, de antigas sífilis! Tudo isto está podre por dentro e por fora! O velho mundo constitucional vai a cair aos pedaços... Necessitam-se homens!

E plantando-se diante de Sebastião:

- Este pais, meu caro amigo, tem-se governado até aqui com expedientes. Quando vier a revolução contra os expedientes, o país há de procurar quem tenha os princípios. Mas quem tem aí princípios? Quem tem aí quatro princípios? Ninguém; têm dívidas, vícios secretos, dentes postiços; mas princípios, nem meio! Por conseqüência se houver três patuscos que se dêem ao trabalho de estabelecer meia dúzia de princípios sérios, racionais, modernos, positivos, o país tem de se atirar de joelhos e suplicar-lhes: "Senhores, fazei-me a honra insigne de me pôr o freio nos dentes!" Ora, eu devia ser um destes. Nasci para isso! E seca-me a idéia de que enquanto outros idiotas, mais astutos e mais previdentes, hão de estar no poleiro a reluzir ao sol, al hermoso sol portugués, como se diz nas zarzuelas, eu hei de estar a receitar cataplasmas a velhas devotas, ou a ligar as rupturas de algum desembargador caduco.

Sebastião calado pensava na outra, morta em cima.

- Estúpido país, estúpida vida! - rosnou Julião.

Mas uma carruagem entrou na rua, parou à porta.

- Chegam os príncipes! - disse Julião. Desceram logo.

Jorge ajudava a Luísa a sair do trem, quando Sebastião, abrindo a porta bruscamente:

- Houve cá grande novidade!

- Fogo? - gritou Jorge voltando-se aterrado.

- A Juliana, que lhe rebentou o aneurisma - disse a voz de Julião da sombra da porta.

- Oh, com os diabos! - E Jorge atarantado procurava à pressa na algibeira troco para o cocheiro.

- Ai, eu já não entro! - exclamou logo D. Felicidade, mostrando à portinhola a sua larga faceenvolvida numa manta branca. - Eu já não entro!

- Nem eu! - fez Luísa toda trêmula.

- Mas para onde queres que vamos, filha? - exclamou Jorge.

Sebastião lembrou que podiam ir para casa dele. Tinha o quarto da mamã, era só pôr lençóis na cama.

- Vamos, sim! Vamos, Jorge! É o melhor! - suplicou Luísa.

Jorge hesitava. A patrulha que ia passando ao alto da rua, ao ver aquele grupo junto à lanterna do trem, parou. E Jorge enfim, instado, muito contrariado, consentiu.

- Diabo de mulher, morrer a semelhante hora! A carruagem vai-a levar, D. Felicidade...

- E a mim, que estou em chinelas! - acudiu Julião.

D. Felicidade lembrou então, como cristã, que era necessário alguém, para velar a morta...

- Ora, pelo amor de Deus, D. Felicidade! - exclamou Julião entrando logo para a carruagem,batendo com a portinhola.

Mas D. Felicidade insistia: era uma falta de religião! Ao menos pôr duas velas, mandar chamar um padre!...

- Largue, cocheiro! - berrou Julião impaciente.

A carruagem deu a volta. E D. Felicidade à portinhola, apesar de Julião que a puxava pelos vestidos, gritava:

- É um pecado mortal! É uma irreverência! Ao menos duas velas!

O trem partiu a trote:

Luísa agora tinha escrúpulos: realmente podia-se mandar chamar alguém...

Mas Jorge enfureceu-se. Chamar quem, àquela hora? Que beatice! Estava morta, acabou-se! Enterrava-se... Velar o estafermo! Fazer-lhe talvez câmara ardente. Queria ela ir velá-la?...

- Então, Jorge, então!... - murmurava Sebastião.

- Não, é demais! É vontade de criar embaraços, que diabo!

Luísa baixava a cabeça; e, enquanto Jorge, praguejando, ficou atrás a fechar a porta da casa, ela foi descendo a rua pelo braço de Sebastião.

- Estourou de raiva - disse-lhe ele baixinho.

Toda a rua Jorge resmungou. Que idéia, irem dormir agora fora de casa! Realmente era levar muito longe as mariquices!...

Até que Luísa lhe disse, quase chorando:

- Vê se me queres torturar mais e fazer-me mais doente, Jorge!

(continua...)

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