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#Romances#Literatura Portuguesa

O crime do Padre Amaro

Por Eça de Queirós (1875)

Era pois nesse dia que se ia saber do Sr. João Eduardo, e escrever-se-lhe!... Devia encontrar-se com Amélia às onze horas; e foi a primeira coisa que lhe disse, atirando a porta do quarto com mau modo:

- O homem apareceu... Pelo menos apareceu o amigo intimo, o tipógrafo, que sabe onde a besta pára.

Amélia, que estava num dia de desalento e terror, exclamou: - Ainda bem, que se acaba este tormento!

Amaro teve um risinho repassado de fel:

- Então agrada-te, hem?

- Se te parece, neste susto em que ando...

Amaro teve um gesto desesperado de impaciência. Susto! Não estava má hipocrisia! Susto de quê? Com uma mãe que era uma babosa, que lhe consentia tudo... O que era, era que queria casar... Queria outro! Não lhe agradava aquele divertimento pela manhã, de fugida... Queria a coisa comodamente, em casa. Imaginava a menina que o iludia a ele, um homem de trinta anos e quatro anos de experiência de confissão? Via bem através dela... Era como as outras, queria mudar de homem.

Ela não respondia, muito pálida. E Amaro, furioso com o seu silêncio:

- Calas-te, está claro... Que hás-de tu dizer? Se é a verdade pura!... Depois dos meus sacrifícios...

Depois do que tenho sofrido por ti... Aparece-te o outro, larga para o outro!

Ela ergueu-se, e batendo o pé, desesperada:

- Foste tu que quiseste, Amaro!

- Pudera! Se imaginas que me havia de perder por tua causal Está claro que quis!... - E olhando-a de alto, fazendo-lhe sentir um desprezo de alma muito reta; - Mas nem vergonha tens de mostrar a alegria, o furor de ir para o homem!... És uma desavergonhada, é o que é...

Ela, sem uma palavra, branca como a cal, agarrou o mantelete para sair.

Amaro, exasperado, segurou-a violentamente pelo braço:

- Para onde vais? Olha bem para mim. És uma desavergonhada... Estou-te a dizer. Estás morta por dormir com o outro...

- Pois acabou, estou! disse ela.

Amaro, perdido, atirou-lhe uma bofetada.

- Não me mates! gritou ela. É o teu filho!

Ele ficou diante dela, enleado e trêmulo: àquela palavra, àquela idéia do seu filho, uma piedade, um amor desesperado revolveu todo o seu ser: e arremessando-se sobre ela, num abraço que a esmagava, como querendo sepultá-la no peito, absorvê-la toda só para si, atirando-lhe beijos furiosos que a magoavam, pela face e pelos cabelos:

- Perdoa, murmurava, perdoa, minha Ameliazinha! Perdoa, que estou doido!

Ela soluçava, num pranto nervoso, - e toda a manhã foi no quarto do sineiro um delírio de amor a que aquele sentimento da maternidade, ligando-os como um sacramento, dava uma ternura maior, um renascimento incessante de desejo, que os lançava cada vez mais ávidos nos braços um do outro. Esqueceram as horas; e Amélia só se decidiu a saltar do leito quando ouviram embaixo na cozinha a muleta do tio Esguelhas.

Enquanto ela se arranjava à pressa diante do bocado de espelho que ornava a parede, Amaro diante dela contemplava-a com melancolia, vendo-a passar o pente nos cabelos - nos cabelos que ele dentro em breve não tornaria a ver pentear; deu um grande suspiro, disse-lhe enternecido:

- Estão a acabar os nossos bons dias, Amélia. És tu que queres... Hás-de-te lembrar algumas vezes destas boas manhãs...

- Não diga isso! fez ela com os olhos arrasados de água.

E atirando-se-lhe de repente ao pescoço, com a antiga paixão dos tempos felizes, murmurou-lhe:

- Hei-de ser sempre a mesma para ti... Mesmo depois de casada.

Amaro agarrou-lhe as mãos sofregamente:

- Juras?

- Juro.

- Pela hóstia sagrada?

- Juro pela hóstia sagrada, juro por Nossa Senhora!

- Sempre que tenhas ocasião?

- Sempre!

- Oh, Ameliazinha! oh, filha! não te trocava por uma rainha!

Ela desceu. O pároco, dando uma arranjadela ao leito, ouvia-a embaixo falar tranqüilamente com o tio Esguelhas; e dizia consigo que era uma grande rapariga, capaz de enganar o diabo, e que havia de fazer andar numa roda-viva o pateta do escrevente.

Aquele "pacto", como lhe chamava o padre Amaro, tornou-se entre eles tão irrevogável que já lhe discutiam tranqüilamente os detalhes. O casamento com o escrevente consideravam-no como uma destas necessidades que a sociedade impõe e que sufoca as almas independentes, mas a que a natureza se subtrai pela menor fenda, como um gás irredutível. Diante de Nosso Senhor, o verdadeiro marido de Amélia era o senhor pároco; era o marido da alma, para quem seriam guardados os melhores beijos, a obediência intima, a vontade: o outro teria quando muito o cadáver... Já às vezes mesmo tramavam o plano hábil das correspondências secretas, dos lugares ocultos de rendez-vous...

Amélia estava de novo, como nos primeiros tempos, em todo o fogo da paixão. Diante da certeza que em algumas semanas o casamento ia tornar "tudo branco como a neve", os seus transes tinham desaparecido, o mesmo terror da vingança do Céu calmara-se. Depois, a bofetada que lhe dera Amaro fora como a chicotada que esperta um cavalo que preguiça e se atrasa: e a sua paixão, sacudindo-se e relinchando forte, ia-a de novo levando no ímpeto duma carreira fogosa.

(continua...)

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