Por Eça de Queirós (1925)
Outros Entrudos antigos, em Coimbra passaram-lhe na memoria, tão alegres, com as taines da Sophia, cheias de batinas d'onde sahem de os esguichos d'uma grande seringa de latão ! os guinchos divertidos, as luc,tas d'ovos, as (JitaQrilhas {noite no theatro D. Luiz, e os grogs, as felicidades ! . , . Esperava tanto divertir-se, aquelle Entrudo, com a Concha ! . , .
— Uma partida assim . — murmurou.
Immediatamente Melchior enfureceu-se. E de quem era a culpa ? P 'ra que tinha mettido o hespanhol de portas a dentro ?
— Quem podia adivinhar !
— Quem podia adivinhar ? — exclamou Melchior com tanta ira que Arthur recuou, temendo uma violencia : — Bastava ter olhos ! P 'ra que estava o desavergonhado do andaluz sempre mettido no quarto ? Mas você, com a sua boa-fé d'Oliveira d'Azemeis ! É necessario conheca Lisboa ! É necessario ter olho ! — E repuxando com um dedo a pelle da face, esgazeava a orbita, junto á cara d'Arthur, d'um modo medonho.
Rompeu então em improperios contra a Concha. Era uma bebeda ! Tinha os vicios mais nojentos. Cada palavra que dizia era uma mentira vil. Pre gava d'aquelles calotes a toda a gente. Era baixa de natureza, Fazia-se passar pela filha d'um negociante . . . Não estava mnu, o negociante ! O pae era um trapeiro de Madrid, e ella fôra, desde os doze annos, das que andam pela Puerta del Sol a charnar os soldados para o vão nas portas ! E tinha dado uma doença asquerosa ao Conde de Villa-Rica, pobre velho !
Arthur revoltou-se. Era mentira !
Melchior escandalisou-se : fez revelações, citou nomes, datas, sitios ; e como um homem que vê sobrenadar sujidades nas aguas d'um enxurro, Arthur viu passar na verbosidade do localista todas as infamias da Concha. Parecia-lhe incrivel !
— Porque me não disse você
— Eu não sou accusa-Christos ,
E então injuriou o Manolo : se o tivesse alli, fazia-o em pedacinhos ! E como o Bourgogne lhe exaltara a loquacidade, atirando o chapéu p'ra nuca, estendeu o seu odio pelo hespanhol a toda a Hespanha ; cobriu de vituperios essa nação illustre — que era um covil de pulhas ! Bastava só olhar-lhes !para as finanças, os caloteiros ! E a administração ? Uma ladroeira ! E o exercito ? Uma cobardia indo cente ! E ainda se falava em União-lborica ! Que viessem para ello !
Calou-se um momento e brandindo a bengala para o céu :
— Ah ! so eu torno a acreditar em mulheres !
Arthur ficou petrificado. Que lhe tinha ella promettido ou jurado, então o? E viu de repente na e,o• lera do Melchior, não o interesse do amigo, mas o despeito do amante. O quê, tambem elle ! Aquella suspeita foi-lhe dolorosa. E andando em silencio, olhava pelo canto do olho o perfil espesso, a figura grossa, o andar pesado. Ella dera-se a um grotesco id'aquelles? Era de mais ! Ao menos a paixão pelo Manolo tinha sua justificação : era bonito, era valente, era romanesco, era divertido! Mas este, o Melchior, pelintra, caloteiro, covarde, debochado, imbecil, bebado ? Pouh ! Todos os defeitos de Melchior lhe appareciam agora, disformes, monstruosos. Envergonhou-se da sua amizade como córara do seu amor ! Que amante t E que amigo ! Veio-lhe como um desejo infinito d'outro meio, mais limpo, mais elevado, mais digno. E á esquina da calçada do Alecrim, despediu-se do jornalista seccamente.
Ia decidido a esquecer a Concha. Pisando com um pé nervoso a rua do Arsenal, construia já o plano d'uma nova existencia : arrancaria do seu cerebro, como se tira da pelle uma pustula, a lembranca, d'aquella prostituta d'instinctos vis, infectada de virus—que lhe preferira o Melchior, a porca ! Recomeçaria a trabalhar : afinal, o seu destino era fazer obras d'arte e não viver agachado nas saias enxovalhadas d'uma muchacha de bordel ! Depois dos Amores de Poeta, escreveria outro drama, comedias em verso ! Forçaria a celebridade como quem viola uma mulher ! E seria um grande homem, emquanto ella, abandonada pelo emigrado, roída de doenças, erraria eefomeada pelo lodo do beco do Monete ! E elle, teria outros amores, dignos do seu alto coração e da sua posição nas Letras ! Renovaria as relações com a baroneza.
que desleixara — idiota ! —por aquella meretriz barata. Oh !
Quando entrou no quarto, todo o seu futuro lhe apparecia tão reluzente de felicidades, que já considerava providencial que o estafermo se tivesse pirado ! »
— Ainda bem ! Respiro ! Ouf !
Mas o aspecto do robe-de-chambre d'ella, a sua camisinha de dormir dobrada aos pés da cama, todo aquelle cheiro de mulher de que o ar estava impregnado, deram-lhe uma commocão tão brusca que os seus nervss se distenderam : uma saudade infinita amolleceu-lhe a alma e atirando-se de brucos sobre a cama, rompeu a chorar !
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43205 . Acesso em: 29 jun. 2026.