Por Eça de Queirós (1900)
Já desde séculos se perdera a memória do lugar que ocupava aquela torre nas complicadas fortificações da Honra e Senhorio de Santa Irenéia. Não era decerto (segundo Padre Soeiro) a nobre torre albarrã, nem a de Alcáçova, onde se guardava o tesouro, o cartório, os sacos tão preciosos das especiarias do Oriente - e talvez, obscura e sem nome, apenas defendesse algum ângulo de muralha, para os lados em que o Castelo enfrontava com as terras semeadas e os olmedos da Ribeira. Mas, sobrevivente às outras mais altivas, compreendida nas construções do Paço formoso que se erguera dentre o sombrio Castelo Afonsino, e que dominava Santa Irenéia durante a dinastia de Avis, ligada ainda por claras arcarias dum terraço ao Palácio de gosto italiano, em que Vicente Ramires converteu o Paço manuelino depois da sua campanha de Castela; isolada no pomar, mas sobranceando o casarão que lentamente se edificara depois do incêndio do Palácio em tempo de El-Rei D. José, e a derradeira certamente onde retiniram armas e circularam os homens do Terço dos Ramires - ela ligava as idades e como que mantinha, nas suas pedras eternas, a unidade da longa linhagem. Por isso o povo lhe chamara vagamente a "Torre de D. Ramires". E Gonçalo, ainda sob a impressão dos avós e dos tempos que ressuscitara na sua Novela, admirou com um respeito novo a sua vastidão, a sua força, os seus empinados escalões, os seus muros tão espessos. que as frestas esguias na espessura se alongavam como corredores, escassamente alumiadas pelas tigelinhas de azeite, com que o
Bento as despertara. Em cada um dos três sobrados parou, penetrando curiosamente. quase com uma intimidade, nas salas nuas e sonoras, de vasto lajedo, de tenebrosa abóbada, com os assentos de pedra, estranho buraco ao meio, redondo como o dum poço e ainda pelas paredes riscadas de sulcos de fumos, os anéis dos tocheiros. Depois em cima, no imenso eirado que a fieira de lamparinas, cingindo as ameias, enchia de claridade, Gonçalo, erguendo a gola do paletot na aragem mais fina, teve a dilatada sensação de dominar toda a Província, e de possuir sobre ela uma supremacia paternal, só pela soberana altura e velhice da sua torre, mais que a Província e que o Reino. Lentamente caminhou em roda das ameias, até o miradouro. a que um candeeiro de petróleo, sobre uma cadeira de palhinha posta em frente à fresta, estragava o entono feudal. No céu macio, mas levemente enevoado, raras estrelas luziam, sem brilho. Por baixo a quinta, toda a largueza dos campos, a espessura dos arvoredos se fundiam em escuridão. Mas na sombra e silêncio, por vezes além, para o lado dos Bravais, lampejavam foguetes remotos. Um clarão amarelado e fumarento, caminhando mais longe, entestando para a Finta, era decerto um rancho com archotes festivos. Na alta Igreja da Veleda tremeluzia uma iluminação vaga, rala. Outras luzes, incertas através do arvoredo, riscavam o velho arco do Mosteiro, em Santa Maria de Craquede. Da terra escura subia, por vezes, um errante som de tambores. E lumes, fachos, abafados rufos, eram dez freguesias celebrando amoravelmente o Fidalgo da Torre, que lhes recebia o amor e o preito no eirado da sua torre, envolto em silêncio e sombra.
O Bento descera, com o Joaquim, para reforçar as lamparinas nas frestas dos muros, onde elas esmoreciam na espessura. E Gonçalo sozinho, acabando o charuto, recomeçou a rolda, lento, em torno às ameias, perdido num pensamento que já o agitara estranhamente, através daquele sobressaltado domingo... Era pois popular! Por todas essas aldeias, estendidas à sombra longa da Torre, o Fidalgo da Torre era pois popular! E esta certeza não o penetrava de alegria, nem de orgulho - antes o enchia agora, naquela serenidade da noite, de confusão, de arrependimento! Ah! se adivinhasse - se ele adivinhasse!... Como caminharia, com a cabeça bem levantada, com os braços bem estendidos, sozinho, em confiança risonha para todas essas simpatias que o esperavam, tão certas, tão dadas. Mas não! Sempre se julgara cercado da indiferença daquelas aldeias, onde ele, apesar do antiquíssimo nome, era o costumado moço, que volta de Coimbra e vive silenciosamente da sua renda, passeando na sua égua. A essas indiferenças tão naturais nunca ele imaginara arrancar o punhado de votos, o punhado de papelinhos que necessitava para entrar na Política, onde ele conquistaria pela destreza o que os velhos Ramires recebiam por herança - fortuna e poder. Por isso se agarrara tão avidamente à mão do Cavaleiro, à mão do Sr. Governador Civil - para que S. Exa., o bom amigo, o mostrasse, o impusesse como o homem necessário, o querido do Governo, o melhor entre os bons, a quem as freguesias deviam oferecer num domingo o punhado de votos.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.