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#Romances#Literatura Portuguesa

O Conde d'Abranhos

Por Eça de Queirós (1925)

No dia seguinte, tinha justamente o venerando doutor aberto a pauta – quando outro morcego, maior, mais negro, começa a esvoaçar furiosamente pela aula! O respeitável Dr. Pascoal fechou a pauta, saiu da aula, todo trémulo, todo branco...

Alípio, porém, vira o condiscípulo indigno que soltara os morcegos, e ali mesmo, na geral, decidiu, por amor da disciplina violada e do professorado ultrajado, acusá-lo ao decano. Mas como repugnava ao seu carácter leal ir, de viva voz, a casa do Dr. Pascoal, denunciar o condiscípulo, redigiu uma carta anónima com estas palavras:

O vilão que arrojou o morcego às faces de V. Ex.ª perturbou o recinto escolar, é o nº 89!

Era um certo Adriano Cravilho, que – posto que de uma inteligência notável e de.18 um temperamento honesto – tinha, como se diz em Coimbra, «o furor de fazer partidas».

Uma semana depois, condenado por um processo secreto e sumário, era riscado da Universidade perpetuamente. O respeitável Dr. Pascoal, porém, ficara tão reconhecido ao «anónimo» que lhe revelara o autor do malefício, que costumava dizer no conselho da faculdade, que, se soubesse quem era, «pespegava-lhe um accessit no fim do ano. Porque enfim, colegas, livrou a aula de um malvado!»

Estas palavras, espalhadas, impressionaram Alípio. O seu acto apareceu-lhe revestido de uma importância inesperada; examinando-o, descobria-lhe a nobreza, via-o como um verdadeiro serviço feito à Ciência, à Disciplina, à Ordem, ao princípio autoritário. E considerava que se é justifi-cado o pudor que nos faz ocultar o serviço feito a um amigo, há uma falsa modéstia em esconder um benefício prestado à sociedade. Pode esquivar-se ao reconhecimento quem salva um homem – não quem salva um princípio!

E dias antes dos actos, dirigiu-se a casa do Dr. Pascoal, e escrevendo diante dele as palavras textuais da carta anónima, convidou-o a comparar as letras, provando ao venerável professor que era ele, Alípio Abranhos, quem prestara aquele serviço tão marcante à Disciplina.

– Pois faz favor de deixar o seu nome... faz favor de deixar o seu nome – exclamou o ancião, que estava na idade em que a memória é como tela gasta, que, repuxada, se esgaça.

Alípio deixou o seu nome – e no fim do ano recebia o 1º accessit.

Teve ainda o 1º accessit no segundo ano –ano em que ele, justamente, dedicou a sua dissertação sobre o Direito das Gentes ao Dr. Capelo, conhecido pela redundância dos seus períodos, com esta dedicatória: «Ao Deus da Eloquência, Ex.mo Dr. Capelo, of. d. c. Alípio Abranhos, discípulo deslumbrado».

Teve uma distinção no terceiro ano – ano, exactamente, em que (segundo vejo nas suas notas) a tia Amália lhe aumentou a mesada, o que habilitou Alípio a fazer presentes delicados a D. Rosalinda Carreira, que a calúnia então apontava como concubina do seu lente de Direito

Civil.

No quarto ano recebeu enfim o segundo prémio – para o que concorreu uma sabatina em que, argumentando com o lente, o sofista Dr. Abreu, e enleado por um sofisma complexo, lhe lançou estas belas palavras: «não sei o que hei-de responder; a luta é desigual: eu só tenho por mim o estudo e V. Exª, tem o génio!»

No quinto ano, ignoro que recompensa recebeu a sua fecunda aplicação.

Estas honras, porém, não eram dadas unicamente ao seu talento: eram, também o prémio da sua conduta moral. Nunca o moço Alípio fora visto em conflitos com futricas ou em noitadas nos bilhares da Baixa. O seu ódio à estroinice era tão grande, que, para evitar a brutalidade burlesca do entrudo, refugiava-se em Celas, para onde ia a pé, em deliciosas excursões pelas margens suaves do Mondego. Não se pense, porém, que as severidades do estudo – tão justamente comparadas pelo nosso lírico a um vento esterilizador, – tinham ressequido no jovem Alípio as florescências naturais do sentimento moço. Se eu não receasse afectar uma forma preciosa, compará-lo-ia a um código dentre cujas folhas saísse uma flor de amorperfeito. Neste urso (nome pitoresco que se dá em Coimbra aos premiados, que, absorvidos pelo estudo, se descuidam de cul-tivar as graças exteriores) neste urso, havia um gamo – se tomarmos o gamo como símbolo animal das naturais vivacidades e das irreprimíveis simpatias. Somente Alípio era destas naturezas prudentes que cuidadosamente ocultam o que o Destino, o Acaso ou a Providência, lhes deu de mais excessivo ou desregrado.

(continua...)

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