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#Romances#Literatura Portuguesa

A Capital

Por Eça de Queirós (1925)

Os olhos da senhora de, vestido de xadrez pousaram-se ainda um mo'mento nos d'Arthur. Outras faces passaram deante d'elle, apoiadas aos vidros : os soldados e o desertor gelhofavam de garrafa á bocca e o rapaz do campo, com os olhos vermelhos como carvões, dizia adeus agitando um grande lenço ; a velha ia seguindo o wagon, a gemer, estendendo-lhe ainda desesperadamente as mãos duras e negras. Por fim o trem, com um silvo penetranm te, desapparecou na curva, entre os pinheiraes já escurecidos.

Arthur sentia-se triste, Toda a noite, assim, aquelle comboio rolaria, passando as estações illuminadas, as aldeolas adormecidas, levando o Chouriço, feliz, estirado no seu gabão, o pobre emigrante banhado em lagrimas, o desertor para a enxovia, aquella linda mulher para o seu palacete. De madrugada chegariam a Lisboa: a Lisboa que lhe parecia mais desejavel, pensando quo era só lá que uma civilisação superior produzia aquellas bellezas delicadas de perfil patricio, como certas flores preciosas que só nascem em terrenos muito preparados ! Quem seria ella ? O gordo de pince-nez, era de certo o marido ; e sentia alli duas existencias discordantes : elle pesado e material, ella d'uma sentimentalidade subtil . . . Desejaria saber o seu nome e o seu pasgado, os seus gostos, o tom da sua voz e que poeta preferia. Feliz o que escrevera aquelle volume que ia lendo e que a fazia scismar : devia ser talvez um romance de Daudet ou de Sandeau, uma obra delicada e nobre. Em que pensaria ella durante essa noite toda, com cabecinha pallida apoiada ao encosto do wagon, em quanto, defronte, o marido muito prosaicamente resonasse ? Lembrar-se-ia da estação de Ovar ? . .

Arthur deu ainda um olhar aos raüs que iam assim, continuamente, parallelos e luzidios, até Lisboa e atravessou para o outro lado da estação onde o esperava o char-à-bancs d'Oliveira d'Azemeis.

Estava tão pensativo, que o Manuel cocheiro teve de lhe perguntar duas vezes se o padrinhozinho não apparecera.

-— Não veio. Vamos lá, 'vamos lá I

Atirou-se para um canto do char-à-bancs, e emquanto o carro rolava surdamente na estrada já escura, Arthur, fitando pela vidraça aberta uma claridade terna de luar que apparecia por cima da linha negra dos pinheiraes, recitava versos d'Hugo, suffocado d'uma melancolia deliciosa :

Et j'étais devant toi plein de joie et de flamme Car tu me regardais avec toute ton ame.

Arthur tinha então vinte e tres annos, Pertencia a uma familia burgueza, originaria de Lisboa, mas dispersada na provincia desde a guerra civil. Seu bisavô paterno, que ficara na tradição familiar como uma, gloria domestica, pertencera, em Lisboa, ao grupo de poetas parasitas que se enthusiasmavam platonicamente nos botequins por Mirabeau e Robespierre, faziam sonetos aos fidalgos em dias d'annos, desejavam morrer pela liberdade e espancavam a ronda ao sahir dos garaug, onde eram admittidos para recitar elegias ás Malvinas. Já velho, começara e, traduzir em verso as Ruinas, de Volney, e os seus manuscriptos eram propriedade d'uma das suas netas, que casara em Oliveira d'Azemeis e levara para sua companhia as duas irmãs mais no vas, Ricardina e Sabina. Seu avô, esse, fôra, no Porto, tabellião correcto e obscuro. Seu pae, depois de ter, na primeira mocidade, publicado duas Meditações funerarias n'um semanario do Porto, casara com a snr. 8 D. Maria das Neves Alpedrim, senhora pallida e magra, que tocava harpa e fôra comparada n'um folhetim do tempo a uma Virgem d'Ossían ; mais tarde estabelecera-se seriamente em Ovar, onde tinha obtido o logar d'escrivão de Direito.

Foi lá que Arthur nasceu, annos depois — e a mãe, encantada, dera-lhe este nome, em memoria dos seus tempos d'harpa e dos cavalleiros de xácara, cujos amores e proezas na Terra Santa tanto a, tinham commovido.

O pae, esse, homem excellente e terno que até ahi se desolara eom a esterilidade do seu casamento, adorou logo a creança e com o seu respeito B.lpersticioso pela magistratura, ainda Arthur não fôra baptizado, ja o bom Manuel Corvello decidira economisar com methcdo, para mais tarde o levar a Coimbra e fazer d'elle um bacharel ; mas secretamente esperava que o filho cultivasse as Bellas-Letras, e a sua esperança era que o Arthurzinho, um dia, reunisse em si as qualidades dos dous homens que elle mais admirava em Ovar— o delegado Pimenta, d'argumentação tão capciosa, nutrido de legislação, um Pegas destinado a uma desembargadoria, e o advogado Silveira, d'imagens floridas, celebre na comarca pelos seus folhetins poeticos no Campeão d'Aveiro !

(continua...)

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