Por Eça de Queirós (1870)
— Ou a qualquer outro fim
— E este papel? Este papel de marca pequeníssima, do que as mulheres compram em Paris, na casa Maquet, e que se chama papel da Imperatriz?
— Muitos homens o usam!- Mas não o cobrem como este foi coberto, com um sachet em que havia o mesmoaroma que se respira no ambiente desta casa. Este papel pertence a uma mulher, que examinou a falsificação que ele encerra, que assistiu a ela, que se interessava na perfeiçãocom que a fabricassem, que tinha os dedos húmidos, deixando no papel um vestígio tão claro...O mascarado calava-se.
— E um ramo de flores murchas, que está ali dentro? Um ra mo que examinei e que é formado por algumas rosas, presas com uma fita de veludo? A fita está impregnada doperfume da pomada, e descobre-se-lhe um pequeno vinco, como o de uma unhada profunda, terminando em cada extremidade por um buraquinho... E o vestígio flagrante que deixou noveludo um gancho de segurar o cabelo!
— Esse ramo podiam ter-lho dado, podia tê-lo trazido ele mes mo de fora. — E este lenço que encontrei ontem debaixo de uma cadeira?E atirei o lenço para cima da mesa. O mascarado pegou nele avidamente, examinou-o e guardou-o.M. C. olhava pasmado para mim, e parecia aniquilado pela dura lógica das minhas palavras. O mascarado ficou por alguns momentos silencioso; depois com uma voz humilde, quase suplicante:- Doutor, doutor, por amor de Deus! esses indícios não pro vam. Este lenço, de mulher indubitavelmente estou convencido que é o mesmo que o morto trazia no bolso. É verdade: não se lembra que não lhe encontrámos lenço?- E não se lembra também que não lhe encontrámos gravata?
O mascarado calou-se sucumbido.- No fim de contas eu não sou aqui juiz, nem parte — excla mei e u. — Deploro vivamente esta morte, e falo nisto unicamente pelo pesar e pelo horror que ela me inspira. Que este moço se matasse ou que fosse morto, que caísse às mãos de uma mulher ou àsmãos de um homem, importa-me pouco. O que devo dizer-lhe é que o cadáver não pode ficar por muito mais tempo insepulto: é pre ciso que o enterrem hoje. Mais nada. É dia. Oque desejo é sair.
— Tem razão, vai sair já — cortou o mascarado. E em seguida, tomando M. C. pelo braço, disse-me:- Um momento! Eu volto já!
E saíram ambos pela porta que comunicava como interior da casa, fechando-a à chavepelo outro lado. Fiquei só, passeando agitadamente. A luz do dia tinha feito surgir no meu espírito uma multidão de pensamentosinteiramente novos e diversos daqueles que me ha viam ocupado durante a noite. Há pensamentos que não vivem se não no silêncio e na sombra, pensamentos que o diadesvanece e apaga; há outros que só surgem ao clarão do Sol.
Eu sentia no cérebro uma multidão de ideias estremunhadas, que à luz repentina da madrugada voejavam em turbilhão como um bando de pombas amedrontadas pelo estridorde um tiro.
Maquinalmente entrei na alcova, sentei-me na cama, encostei um braço no travesseiro.Então, não sei como, olhei, reparei, vi, com estranha comoção, sobre a alvura do travesseiro, preso num botão de madrepérola, um longo cabelo louro, um cabelo de mulher.
Não me atrevi logo a tocar-lhe. Pus-me a contemplá-lo, ávida e longamente.
«- Era então certo! Aí estás, pois! Encontro-me finalmente... Pobre cabelo! Apiedame a simplicidade inocente com que te ficas te aí, patente, descuidado, preguiçoso, lânguido! Podes ter maldade, podes ter malvadez, mas não tens malícia, não tens astúcia. Te nho-te nasmãos, fito-te com os meus olhos; não foges, não estre meces, não coras; dás- te, consentes-te, facilitas-te, meiga, doce, confiadamente... E, no entanto, ténue, exígua, quase microscópi ca, és uma parte da mulher que eu adivinhava, que eu antevia, que eu procuro! É ela autora docrime? É inteiramente inocente? É ape nas cúmplice? Não sei, nem tu mo poderás dizer?»
De repente, tendo continuado a considerar o cabelo, por um processo de espíritoinexplicável, pareceu-me reconhecer de súbi to aquele fio louro, reconhecê-lo em tudo: na sua cor, na sua nuance especial, no seu aspecto! Lembrou-me, apareceu-me então a mulher a quem aquele cabelo pertencia! Mas quando o nome dela me veio insensivelmente aos lábios,disse comigo:
«Ora! Por um cabelo! Que loucura!E não pude deixar de rir. Esta carta vai já demasiadamente longa. Continuarei ama nhã.
VII
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de; ORTIGÃO, Ramalho. O Mistério da Estrada de Sintra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14021 . Acesso em: 30 jun. 2026.