Por Eça de Queirós (1900)
E o João Gouveia, um homem pequeno, muito escuro, muito seco, de bigode mais duro que piaçava, esticado numa sobrecasaca curta, com o chapéu-de-coco atirado para a orelha, não discordava. Empregado imparcial, servindo os Históricos corno servira os Regeneradores, sempre acolhia com imparcial ironia as nomeações de bacharéis novos, Históricos ou Regeneradores, para os gordos lugares Administrativos. Mas, neste caso, sinceramente, quase vomitara, rapazes! Governador Civil, e de Monforte, o Antônio Moreno, que ele tantas vezes encontrara no quarto, em Coimbra, vestido de mulher, de roupão aberto, e a carinha bonita coberta de pó-de-arroz!... - E, travando do braço do Fidalgo, recordava a noite em que o José Gorjão, muito bêbedo, de cartola e com um revólver, exigia furiosamente que o Padre Justino, também bêbedo, o casasse com o Antoninho diante de um nicho da Senhora da Boa Morte! Mas o Titó, que esperava, floreando o bengalão, declarou àqueles senhores que se o tempo sobejava para arrastarem assim na rua, a conversar de Política e de indecências - então voltava ele ao Brito, buscar a aguardentezinha... Imediatamente o Fidalgo da Torre, sempre brincalhão, sacudiu o braço do Administrador, e galgou pela Calçadinha, aos corcovos, com as mãos fortemente juntas, como colhendo uma rédea, contendo um cavalo que se desboca.
E na sala alta do Gago, ao cimo da escada esguia e íngreme que subia da taberna, a um canto da comprida mesa alumiada por dois candeeiros de petróleo, a ceia foi muito alegre, muito saboreada. Gonçalo, que se declarava miraculosamente curado pelo passeio até os Bravais e pelas emoções do voltarete em que ganhara dezenove tostões ao Manuel Duarte - começou por uma pratada de ovos com chouriço, devorou metade da tainha, devastou o seu "frango de doente", clareou o prato da salada de pepino, findou por um montão de ladrilhos de marmelada; e através deste nobre trabalho, sem que a fina brancura da sua pele se afogueasse, esvaziou uma caneca vidrada de Alvaralhão, porque logo ao primeiro trago, e com desgosto do Titó, amaldiçoara o vinho novo do abade. À sobremesa apareceu o Videirinha, "o Videirinha do violão", tocador afamado de Vila-Clara, ajudante de Farmácia, e poeta com versos de amor e de patriotismo já impressos no Independente de Oliveira. Jantara nessa tarde, com o violão, em casa do Comendador Barros, que celebrava o aniversário da sua comenda: e só aceitou um copo de Alvaralhão, em que esmagou um ladrilho de marmelada "para adocicar a goela". Depois, à meia-noite, Gonçalo obrigou o Gago a espertar o lume, ferver um café "muito forte, um café terrível, Gago amigo! um café capaz de abrir talento no Sr. Comendador Barros!" Era essa a hora divina do violão e do "fadinho". E já o Videirinha recuara para a sombra da sala, pigarreando, afinando os bordões, pousado com melancolia à borda dum banco alto.
- A Soledad, Videirinha! - pediu o bom Titó, pensativo, enrolando um grosso cigarro.
Videirinha gemeu deliciosamente a Soledad:
Quando fores ao cemitério Ai Soledad, Soledad!...
Depois, apenas ele findou, aclamado, e enquanto acertava as cravelhas, o Fidalgo da Torre e João Gouveia, com os cotovelos na mesa, os charutos fumegando, conversaram sobre essa venda de Lourenço Marques aos Ingleses, preparada sorrateirarnente (conforme clamavam, arrepiados de horror, os jornais da Oposição) pelo Governo do S. Fulgêncio. E Gonçalo também se arrepiava! Não com a alienação da Colônia - mas com a imprudência do S. Fulgêncio! Que aquele careca obeso, filho sacrílego dum frade que depois se fizera merceeiro em Cabecelhos, trocasse a libras, para se manter mais dois anos no poder, um pedaço de Portugal, torrão augusto, trilhado heroicamente pelos Gamas, os Ataídes, os Castros, os seus próprios avós era para ele uma abominação que justificava todas as violências, mesmo urna revolta, e a casa de Bragança enterrada no lodo do Tejo! Trincando, sem parar, amêndoas torradas, João Gouveia observou:
- Sejamos justos, Gonçalo Mendes! Olhe que os Regeneradores..
O Fidalgo sorriu superiormente. Ah! se os Regeneradores realizassem essa grandiosa operação -bem! Esses, primeiramente, nunca cometeriam a indecência de vender a Ingleses terra de Portugueses! Negociariam com Franceses, com Italianos, povos latinos, raças fraternas... E depois os bons milhões soantes seriam aplicados ao fomento do País, com saber, com probidade, com experiência. Mas esse horrendo careca do S. Fulgêncio!... - E no seu furor, engasgado, gritou por genebra, porque realmente aquele cognac do Gago era urna peçonha torpe!
O Titó encolheu os ombros, resignado:
- Não me deixaste ir buscar a aguardentezinha, agora agüenta... E a genebra é ainda mais peçonhenta. Nem para os negros desse Lourenço Marques que tu queres vender... Portugueses indecentes, a vender Portugal! Até o Sr. Administrador do Concelho devia proibir estas conversas...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.