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#Romances#Literatura Portuguesa

A Cidade e as Serras

Por Eça de Queirós (1901)

Agora, porém, era sem fervor, arrastadamente, que ele me elevava ao Bosque, onde eu, aproveitando a clemência de Abril, tentava enganar a minha saudade de arvoredos. Enquanto subíamos, ao trote nobre das suas éguas lustrosas, a Avenida dos Campos Elísios e a do Bosque, rejuvenescidas pelas relvas tenras e fresco verdejar dos rebentos, Jacinto, soprando o fumo da cigarrilha pelas vidraças abertas do cupé, permanecia o bom camarada, de veia amável, com quem era doce filosofar através de Paris. Mas logo que passávamos as grades douradas do Bosque, e penetrávamos na Avenida das Acácias, e enfiávamos na lenta fila dos trens de luxo de praça, sob o silêncio decoroso, apenas cortado pelo tilintar dos freios e pelas rodas vagarosas esmagando a areia – o meu Príncipe emudecia, molemente engelhado no fundo das almofadas, de onde só despegava a face para escancarar bocejos de fartura. Pelo antigo hábito de verificar a presença confortadora do “pessoal, dos astros”, ainda, pôr vezes, apontava para algum cupé ou vitória rodando com rodar rangente noutra arrastada fila – e murmurava um nome. E assim fui conhecendo a encaracolada barba hebraica do banqueiro Efraim; e o longo nariz patrício de Madame de Trèves abrigando um sorriso perene; e as bochechas flácidas do poeta neoplatônico Dornan, sempre espapado no fundo de fiacres; e os longos bandós pré-rafaelitas e negros de Madame Verghane; e o monóculo defumado do diretor do Boulevard, e o bigodinho vencedor do duque Marizac, reinando de cima do seu fáeton de guerra; e ainda outros sorrisos imóveis, e barbichas à Renascença, e pálpebras amortecidas, e olhos farejantes, e peles empoadas de arroz, que eram todas ilustres e da intimidade do meu Príncipe. Mas, do topo da Avenida das Acácias, recomeçávamos a descer, em passo sopeado, esmagando lentamente a areia; na fila vagarosa que subia, calhambeque atrás de landau, vitória atrás de fiacre, fatalmente revíamos o binóculo sombrio do homem do Boulevard, e os bandós furiosamente negros de Madame Verghane, e o ventre espapado do neoplatônico, e a barba talmúdica, e todas aquelas figuras, duma imobilidade de cera, superconhecidas do meu camarada, recruzadas cada tarde através de revividos anos, sempre com os mesmos sorrisos, sob o mesmo pó de arroz, na mesma imobilidade de cera; então Jacinto não se continha, gritava ao cocheiro:

-Para casa, depressa!

E era pela Avenida do bosque, pelos Campos Elísios, uma fuga ardente das éguas a quem a lentidão sopeada, num roer de freios, entre outras éguas também delas superconhecidas, lançava numa exasperação comparável à de Jacinto.

Para o sondar eu denegria o Bosque:

-Já não é tão divertido, perdeu o brilho!...

Ele acudia, timidamente:

-Não, é agradável, não há nada mais agradável; mas...

E acusava a friagem das tardes ou o despotismo dos seus afazeres. Recolhíamos então ao 202, onde, com efeito, em breve embrulhado no seu roupão branco, diante da mesa de cristal, entre a legião das escovas, com toda a eletricidade refulgindo, o meu Príncipe se começava a adornar para o serviço social da noite.

E foi justamente numa dessas noites (um Sábado) que nós passamos, naquele quarto tão civilizado e protegido, pôr um desses brutos e revoltos terrores como só os produz a ferocidade dos Elementos. Já tarde, à pressa (jantávamos com Marizac no clube para o acompanhar depois ao Lobengrin na Ópera) Jacinto arrochava o nó da gravata branca – quando no lavatório, ou porque se rompesse o tubo, ou se dessoldasse a torneira, o jato de água a ferver rebentou furiosamente, fumegando e silvando. Uma névoa densa de vapor quente abafou as luzes – e, perdidos nela, sentíamos, pôr entre os grilos do escudeiro e do Grilo, o jorro devastador batendo os muros, esparrinhando uma chuva que escaldava. Sob os pés o tapete ensopado era uma lama ardente. E como se todas as forças da natureza, submetidas ao serviço de Jacinto, se agitassem, animadas pôr aquela rebelião da água – ouvimos roncos surdos no interior das paredes, e pelos fios dos lumes elétricos sulcam faíscas ameaçadoras! Eu fugira para o corredor, onde se alargava a névoa grossa. Pôr todo o 202 ia um tumulto de desastre. Diante do portão, atraídas pela fumarada que se escapava das janelas, estacionava polícia, uma multidão. E na escada esbarrei com um repórter, de chapéu para a nuca, a carteira aberta, gritando sofregamente “se havia mortos?”

Domada a água, clareada a bruma, vim encontrar Jacinto no meio do quarto, em ceroulas, lívido:

-Ó Zé Fernandes, esta nossa indústria!... Que impotência, que impotência! Pela Segunda vez, este desastre!

E agora, aparelhos perfeitos, um processo novo...

-E eu encharcado pôr esse processo novo! E sem outra casaca!

(continua...)

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