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#Romances#Literatura Portuguesa

Coração, Cabeça e Estômago

Por Camilo Castelo Branco (1862)

Amar uma menina herdeira; contratada para casar; galante; lida nos bons catecismos espirituais; criada com passarinhos e flores; rodeada dos mágicos rumores das florestas: tudo isto me pareceu talhado à minha ansiedade de lutar, de sofrer, de viver com glória, ou morrer com honra. Quando cismava nisto, e me assaltava ao mesmo tempo a cobiça de entrar num restaurante à la carte, e pedir um pastel de pombos, corria-me de vergonha da minha viloa natureza!

Encontrei, uma vez, o criado de D. Paula a passear os cavalos no Campo Pequeno. Dialogámos acerca de raças cavalares, e dos lamparões dos mesmos, que ele sabia curar com proficiência. Encaminhei a conversação até falarmos da fidalga, e obtive os seguintes esclarecimentos: perguntou-lhe a menina se eu dissera alguma coisa, quando entreguei o livro, e mostrara-se admiradíssima de eu querer saber o nome dela. Desejara muito saber se eu lera o título do livro: informação que o criado não soubera dar. Perguntara-lhe se me via algumas vezes na estrada, e ficara muito pensativa quando soube que eu ali parava, olhando para as janelas, quando o criado, à meia-noite, se erguia para aquietar os cavalos.

Estas revelações animaram-me a pedir ao expansivo boleeiro que me aproximasse do coração de sua ama, por intermédio de uma carta respeitosa e digna dela. O criado, vencida a ficção dos escrúpulos, aceitou a carta, que eu escrevi numa mercearia do Campo Grande, a qual poderia entrar numa coleção de cartas para o uso dos anjos, se os amores lá de cima carecessem do favor do estilo e prosperassem na razão direta do arredondado do período.

Ao outro dia, fui a Benfica. Vi o papagaio, que saltou da gaiola ao peitoril da varanda, quando eu passava, e disse: “Tô carrocha” pareceu-me isto um ludibrio do pássaro, ensinado pela dona; mas a Providência é tão boa para os tolos que os compensa com o engenho de imputarem ao acaso as caçoadas que racionalmente e acintemente os castigam.

Depois de muitas diligências malogradas, encontrei o criado, que me asseverou a entrega da carta e o rubor da menina quando a leu. Falei-lhe na resposta, e ele redargüiu que não ousava pedi-la por ser falta de respeito.

Nesta situação, tão dolorosa como ofensiva do meu orgulho, fui a um baile. Não foi de todo despressentida a minha entrada nas salas. A juventude de ambos os sexos encarou em mim com afetuosa benquerença. Os cabelos iam fatais e as olheiras fatalíssimas.

Às onze horas, quando eu, no salão de espera, me atirava a uma almofada, como corpo que não pode com a alma, tangeu duas vezes a sineta do pátio, e em seguida entrou Paula, pelo braço de um moço bem figurado, com outras senhoras e cavalheiros idosos no préstito.

Creio que me não viu, e, se me viu, fez o que fazem as mais inocentes e desartificiosas senhoras quando não querem ver.

Segui-a. Avizinhei-a nas salas. Ouvi o som de sua voz. Tive indiretamente notícias do papagaio, pedidas por uma outra menina. Convidei-a para uma quadrilha. Vi-lhe um gesto de assentamento, e senti-me brutificar, pensando no que havia de dizer-lhe.

Destes apertos têm saído grandes tolices e grandes conceitos. Quer me parecer que não fui infeliz falando-lhe deste teor:

- A providência dos infelizes encaminhou para aqui os meus passos. Eu não sabia que vinha aqui encontrar o anjo que fez da minha vida um suplício. Entrei nestas salas, como Dante, na região das lágrimas, como Trofônio no seu antro, donde não há mais sair com um sorriso nos lábios. V. Exa. Calca aos pés o mais devotado coração que ainda palpitou em peito de homem. Enganei-me, quando a vi, ao relumbrar dos relâmpagos, naquela tarde tempestuosa. Amei-a então, como o nauta suspiroso ama a cruz do adro da sua terra natal. Amei-a como o rouxinol a sombra dos sinceiros. Amei-a como o orvalho a flor e a aragem da tarde as asas iriadas da borboleta.

Paula fitou-me e coçou a testa com o leque.

Noutro intervalo da dança continuei:

- Por que não respondeu à minha carta?

- Era impossível. Eu já dei o meu coração. Por delicadeza lhe não devolvi a sua carta, e peço-lhe que me não escreva outra, que me compromete - respondeu ela.

Não me soou bem este galicismo dos lábios de Paula. Eu, em todas as situações da minha vida, quando vejo a língua dos Barros e dos Lucenas comprometida, dou razão ao filósofo francês que, à hora da morte, emendava um solicismo da criada, protestando defender até ao último respiro os foros da Língua. E com que admiração eu leio aquilo do gramático Dumarsais, que, em trances finais de vida, exclamava: “Hélas! Je mén vais... ou je mén vas... car je crois toujours que lún et l’autre se dit ou se disent!”

Tinha-se achegado de nós o sujeito que lhe dava o braço à entrada. No semblante de Paula conheci o receio de ter sido ouvida pelo cavalheiro, que a fitava com desconfiança.

(continua...)

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