Por Eça de Queirós (1925)
Melchior precipitara-se, mas a porta fôra rapidamente fechada. Dentro, a Concha gritava ; frascos partiam-se contra o chão, cadeiras arremessadas batiam contra as paredes e a voz affiicta da creada dizia, quasi chorosa :
— Então, hija ! Então, hiia ! Por Dios
Arthur, com a cara marcada, os olhos vermelhos como brazas, ficara no meio da sala, petrificado. E Melchior, com medo da policia, d'escandalos, d'aqui-d'el-reis á janella, calmara subitamente muito pallido. Disse mesmo, agarrando o chapéu
— Meu rico, eu safo-me, que não estou para me metter em alhadas !
Mas, a instancias d'Arthur, ficou. E ambos sentados á mesa, com a garrafa de cognac no meio, fizeram até alta noite grogs frios, fumando, cabisbai-
xos.
— Raio de mulheres I — dizia Melchior de vez em quando.
— Um desgosto assim ! — murmurava Arthur. E recahiam n'um silencio triste.
No emtanto, a creada — que tres ou quatro vezes, pela porta do corredor, fôra abaixo e voltara, parecendo levar e trazer recados — veio, quasi de
madrugada dizer-lhes, pé ante pé, que a pobrecita tinha adormecido.tarde, Melchior ficou no Hotel, e Ar rn-:lo, commovido, entrou no quarto. A Con -acolhida na roupa, resonava devagarinho. despiu-se sem ruido, escorregou entre os lenqoes, pondo-lhe um beijo cauteloso no braço
Acordou d'ahi a pouco — já o dia entrava pelas frinchas da janella — ouvindo um rumor no quarto : a Concha, a pé, abria a porta da saleta.
Que e': 2 — disse elle, estremunhado.
Vou buscar agua, estou a arder.
Arthur, prostrado das emoções, dos cansaços da noite, acconnuodou-se na roupa e adormeceu profun- I
damente.
Quando acordou—deviam ser dez horas—estava só na cama. Pulou para o chão, abriu a janella ao sol magnifico d'um dia adoravel. A porta da saleta estava aberta. Viu logo o chambre d'ella cahido no soalho, as chinelas, uma caixa de chapéus aberta ! Que era Onde ?
campainha, a oreada veio correndo e immediatcl)ic começou, com grandes gestos, a dizer que não sabia nada, que não tinha visto a seE*nora, r:ue não se queria metter em questões !
aterrado, passou um jaquetão, correu ao quarto do Melchior. Ao ouvir, estremunhado, « que a Concha sahira i), sentou-se d'um pulo na cama :
— Chame o Manuel !
O creado veio, fumando o seu cigarro, com a cabeça baixa, o olhinho malicioso, coçando os cabellos por traz da orelha.
— Onde está a senhora . — gritou Melchior.
O Manuel olhou para um, depois para o outro, e com as mãos na cinta, a barriga para diante, o cigarro na bocca, o olho meio fechado ao fumo :
— Então ustedes não sabem ?
— O quê, homem ?
O Manitel tirou o cigarro e torceu-se devagar n'uma risada interior, muda.
— Acaba, carrasco ! — berrou Melchior, com uma punhada no enxergão.
— Pirou-se ! —- fez o outro, com uma voz muito aguda de gozo.
— Com o Manolo ? — exclamou Melchior, suffocado, de joelhos na cama, os olhos esgazeados.
— Pois já usted vê — disse o creaclo, como-achando perfeitamente logico.
Melchior voltou-se para Arthur que se fizera muito branco e com uma expressão de desprezo, de furor, atirando-lhe as palavras como escarros :
— Sua besta ! Sua besta !
— Mas então—balbuciou Arthur—mas então . . .
O Manuel chegou-se para a cama e com sua voz arrastada :
— Pois o Manolo e a Conchita estavam juntos
Para se consolarem, n'essa noite, foram jantar ao Hotel Central : estavam taciturnos. Arthur mal comia e pareceu-lhe mcsmo um espectaculo grosseiro e indigno da sua melancolia, o deleite muito ex pansivo com que Melchior devorou, repetiu o Jambon d' Yopk atvx épinard8, E todavia Melchior estivera lugubre toda a tarde na redacção, soltando de vez em quando suspiros estrondosos que diver tiam o Esteves, e nio poderu produzir uma só local, apesar d'esforços de parturiente : de facto, o Jambon d' York era a sua, primeira consolação n'esse dia. E limpando os beiços, murmurou ao ouvido d 'Arthur :
Parece-me que merecemos tuna garrafinha de Bourgogne,
Arthur consenffu gom um gesto indifferente. Parecia-lhe que uma nevoa imponderavel, parda e funeraria cobria as cousas e as physionomias, e A 'uma grande lassidão do cerebro, via constantemente diante de si formas fragmentadas da Concha ou tos pertencentes á Concha ou sitios e sitiAgões, que atravessara com ella. Era u-m trabalho de reminiscencia saudosa, em que procurava reviver aàS alegrias que perdera ; tinha nos membros molleaas de noites mal dormidas e na alma uma sensafto de vexame ; vinham-lhe de repente, como faiscas, odios sanguinarios ao Manolo.
Os seus vagos suspiros reprimidos tinhA.m já feito voltar a cabeça a um allemão, de pinc,Rnez e barbas doutoraes, que, ao seu lado, uma banana com methodo.
Como a noite estava de luar, sahirar-h de_ pois do café : seguiram, sem destino, ao longo do Aterro.
— E ámanhã é Domingo Gordo • • — nosnou Melchior com um furor sombrio.
—Domingo Gordo. , . — murmurou Arthur com tristeza.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43205 . Acesso em: 29 jun. 2026.