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#Romances#Literatura Portuguesa

O crime do Padre Amaro

Por Eça de Queirós (1875)

Então, aflito já, vendo passar os dias, escreveu à tia, pedindo-lhe que esquadrinhasse por toda a Lisboa, a ver se por lá aparecera "um tal João Eduardo Barbosa..." Recebeu uma carta da tia em garatujas de três páginas, queixando-se do Joãozinho, do seu Joãozinho, que lhe fizera a vida um inferno, embebedando-se com genebra a ponto que não lhe paravam hóspedes em casa. Mas estava agora mais tranqüila: o pobre Joãozinho havia dias jurara-lhe pela alma da mamã que daí por diante não beberia senão gasosa. Enquanto ao tal João Eduardo, perguntara na vizinhança e ao Sr. Palma do Ministério das Obras Públicas, que conhecia toda a gente, mas nada averiguara. Havia, sim, um Joaquim Eduardo que tinha uma loja de quinquilharias no bairro... E se fosse o negócio com ele bem ia, que era um homem de bem...

- Lérias! lérias! interrompeu o cônego impaciente.

Resolveu-se ele então a escrever. E instado pelo padre Amaro (que não cessava de lhe representar o que a S. Joaneira e ele mesmo, cônego Dias, sofreriam com o escândalo) chegou a autorizar ao seu amigo da capital as despesas necessárias para empregar a polícia. A resposta demorou- se, mas veio enfim, prometedora e magnifica! O hábil polícia Mendes descobrira João Eduardo! Somente não lhe sabia ainda a morada, avistara-o apenas num café; mas em dois ou três dias o amigo Mendes prometia informações precisas.

O desespero dos dois sacerdotes, porém, foi grande quando, daí a dias, o amigo do cônego escreveu que o indivíduo, que o hábil polícia Mendes tomara por João Eduardo, num café da Baixa, sobre sinais incompletos, era um moço de Santo Tirso que estava na capital a fazer concurso para delegado... E havia três libras e dezessete tostões de despesa.

- Dezessete demônios! rugiu o cônego, voltando-se para Amaro furioso. E no fim de contas foi o senhor que gozou, que se refocilou, e sou eu que estou aqui a arrasar a minha saúde com estas andadas, e a fazer desembolsos desta ordem!

Amaro, dependente do padre-mestre, vergou os ombros á injúria.

Mas não estava nada perdido, graças a Deus. A Dionísia lá andava no faro!

•••

Amélia recebia estas notícias com desconsolação. Depois das primeiras lágrimas, a irremediável necessidade impusera-se-lhe, muito forte. Por fim que lhe restava? Daí a dois ou três meses, com aquele seu desgraçado corpo de cinta fina e quadris estreitos, não poderia esconder o seu estado. E que faria então? Fugir de casa, ir como a filha do tio Cegonha para Lisboa, ser espancada no Bairro Alto pelos marujos ingleses, ou como a Joaninha Gomes, que fora a amiga do padre Abílio, levar pela cara os ratos mortos que lhe atiravam os soldados? Não. Então, tinha de casar...

Depois vir-lhe-ia um menino ao fim dos sete meses (era tão freqüente!), legitimado pelo sacramento, pela lei e por Deus Nosso Senhor... E o seu filho teria um papá, receberia uma educação, não seria um enjeitado...

Desde que o senhor pároco lhe afirmara, em juramento, que o escrevente não estava realmente excomungado, que com algumas orações se lhe levantaria a excomunhão, os seus escrúpulos devotos esmoreciam como brasas que se apagam. No fim, em todos os erros do escrevente, ela só podia descobrir a incitação do ciúme e do amor: fora num despeito de namorado que escrevera o Comunicado, fora num furor de paixão traída que espancara o senhor pároco... Ah! Não lhe perdoava esta brutalidade! Mas que castigado fora! Sem emprego, sem casa, sem mulher, tão perdido na miséria anônima de Lisboa que nem a polícia achava! E tudo por ela. Pobre rapaz! No fim não era feio... Falavam da sua impiedade; mas vira-o sempre muito atento à missa, rezava todas as noites uma oração especial a S. João que ela lhe dera impressa num cartão bordado...

Com o emprego no governo civil podiam ter uma casinha e uma criada... Por que não seria feliz, por fim? Ele não era rapaz de botequins, nem de vadiagem. Tinha a certeza de o dominar, de lhe impor os seus gostos e as suas devoções. E seria agradável sair aos domingos de manhã para a missa, arranjada, de marido ao lado, cumprimentada de todos, podendo, à face da cidade, passear o seu filho muito vistoso na sua touca de rendas e na sua grande capa franjada! Quem sabe se, então, pelos carinhos que desse ao pequerrucho e pelos confortos de que cercasse o homem, o Céu e Nossa Senhora se não abrandariam! Ah! para isso faria tudo, para ter outra vez no Céu aquela amiga, a sua querida Nossa Senhora, amável e confidente, sempre pronta a curar-lhe as dores, a livrá-la de infortúnios, ocupada a preparar-lhe no Paraíso um luminoso conchego!

Pensava assim horas inteiras, sobre a sua costura; pensava assim, mesmo no caminho para casa do sineiro; e depois de ter estado um momento com a Totó, muito quieta agora, extenuada da febre lenta, quando subia ao quarto, a primeira pergunta a Amaro era:

- Então, há alguma novidade?

Ele franzia a testa, rosnava:

- A Dionísia lá anda... Por quê, tens muita pressa?

- Tenho muita pressa, tenho, respondia ela muito séria, que a vergonha é para mim.

(continua...)

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