Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Portuguesa

A ilustre Casa de Ramires

Por Eça de Queirós (1900)

E assim, quando cerca das oito horas, o Fidalgo consentiu em jantar - já conhecia o seu triunfo esplêndido. E o que o impressionava, relendo os telegramas, era o entusiasmo carinhoso daqueles influentes, povos que ele mal rogava, e que convertiam o ato da Eleição quase num ato de Amor. Toda a freguesia dos Bravais marchara para a Igreja, cerrada como uma hoste, como José Casco na frente erguendo uma enorme bandeira, entre dois tambores que estouravam. O Visconde de Rio-Manso entrara no adro da Igreja de Ramilde na sua vitória, com a neta toda vestida de branco, seguido por uma vistosa fila de char-à-bancs, onde se apinhavam eleitores sob toldos de verdura. Na Finta todos os casais se esvaziavam, as mulheres carregadas de ouro, os rapazes de flor na orelha, correndo à Eleição do Fidalgo entre o repenicar das violas, como à romaria dum Santo. E diante da taberna do Pintainho, em face à Igreja, a gente da Veleda, da Riosa, do Cercal erguera um arco de buxo, com dístico vermelho, sobre paninho: -"Viva o nosso Ramires, flor dos homens!"

Depois, enquanto jantava, um moço da quinta voltou de Vila-Clara, alvoroçado, contando o delírio, as filarmônicas pelas ruas, a Assembléia toda embandeirada, e na casa da Câmara, sobre a porta, um transparente com o retrato de Gonçalo, que uma multidão aclamava.

Gonçalo apressou o café. Por timidez, receoso dos vivórios, não ousava correr a Vila-Clara - a espreitar. Mas acendeu o charuto, passou à varanda, para respirar a doce noite de festa, que andava tão cheia de clarões e rumores em seu louvor. E ao abrir a porta envidraçada quase recuou, com outro espanto. A Torre iluminara! Das suas fundas frestas, através das negras reixas de ferro, saía um clarão; e muito alta, sobre as velhas ameias, refulgia uma serena coroa de lumes! Era uma surpresa, preparada, com delicioso mistério, pelo Bento, pela Rosa, pelos moços da quinta que agora, todos, no escuro, por baixo da varanda, contemplavam a sua obra, alumiando o céu sereno. Gonçalo percebeu os passos abafados, o pigarro da Rosa. Gritou alegremente da borda da varanda:

- O, Bento! Ó, Rosa!... Está aí alguém?

Um risinho esfuziou. A jaqueta branca do Bento surdiu da sombra.

- O Sr. Dr. queria alguma coisa?

- Não, homem! Queria agradecer... Foram vocês, hem? Está linda a iluminação! Mas linda.Obrigado, Bento. Obrigado, Rosa! Obrigado, rapazes! De longe deve fazer um efeito soberbo.

Mas o Bento ainda se não contentava com aquelas lamparinas frouxas. A Torre, para sobressair, necessitava chamas fortes de gás. O Sr. Dr. nem imaginava a altura, depois em cima, a imensidão do eirado.

Então. de repente, Gonçalo sentiu um desejo de subir a esse imenso eirado da Torre. Não entrara na Torre desde estudante - e sempre ela lhe desagradara por dentro, tão escura, de tão duro granito, com a sua nudez, silêncio e frialdade de jazigo, e logo no pavimento térreo os negros alçapões chapeados de ferro que levavam as masmorras. Mas agora as luzes nas frestas aqueciam, reviviam aquela derradeira ossada. Honra de Ordonho Mendes. E de entre as suas ameias, mais alto que da varanda, lhe parecia interessante respirar aquela rumorosa simpatia esparsa, que em torno, pelas freguesias rolava, subindo para ele, através da noite, como um incenso. Enfiou um paletot. desceu à cozinha. O Bento. o Joaquim da Horta, divertidos, agarraram grandes lanternas. E com eles atravessou o pomar, penetrou pela atarracada poterna, de funda ombreira, começou a trepar a esguia escadaria de pedra, que tanta sola de ferro polira e puíra.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...127128129130131...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →