Por Eça de Queirós (1878)
Ela sorriu. Estava agora muito sobressaltada. A cada momento olhava o relógio. Sentia-se doente; os pés arrefeciam-lhe, uma vaga febre fazia-lhe a cabeça pesada. O seu pensamento estava na casa, em Juliana, em Sebastião, cortado de palpites, de esperanças, de terrores... E via, sem compreender, a multidão de soldados vestidos de cores bipartidas, com armas obsoletas, que marchavam, paravam numa cadência afetada, erguendo uma poeira sutil no tablado malregado. Um coro vigoroso ressoava: era a marcha arrogante e festiva dos reires alemães celebrando a alegria das excursões vitoriosas pelos países do vinho, e a posse das bolsas mercenárias cheias de sonoros risdales! E os seus olhos seguiam um barbaças corpulento, que, por cima dos gorros quadrados dos besteiros, balançava monotonamente um largo quadrado de paninho - a bandeira do Santo Império, negra, vermelha e de ouro!
Mas então ergueu-se um rumor no fundo da platéia. Vozes duras altercavam. "Ordem! ordem!" dizia-se. Localistas na superior puseram-se rapidamente em bicos de pés na palhinha das cadeiras. Quatro policias e dois municipais apareceram à porta do fundo; e depois de uma troça, de risadas, foram levando um moço lívido, que cambaleava - e o lado esquerdo do seu jaquetão de pelúcia estava todo vomitado!
Mas fez-se logo silêncio: o pano de fundo oscilava um pouco acotovelado pela saída festiva dos reitres e dos populares; e no palco deserto, tendo à direita um pórtico oscilante de catedral e à esquerda a portinha triste de uma casa burguesa, Valentim, com uma longa pêra, à beira da rampa, beijava sofregamente uma medalha; mas Luísa não o escutava. Pensava com o coração confrangido: que fará a esta hora Sebastião?
Sebastião, às nove horas, por um nordeste agudo que torcia as luzes do gás dentro dos candeeiros, dirigia-se devagar à casa de um comissário de policia, seu primo afastado, o Vicente Azurara. Uma velha servente, engelhada como uma maçã raineta, levou-o ao quarto escolástico, onde o senhor comissário estava a cozer uma grande constipação; encontrou-o com um gabão pelos ombros, os pés embrulhados num cobertor, tomando grogues quentes, e lendo o Homem dos três calções. Apenas Sebastião entrou, tirou do nariz adunco as grandes lunetas, e erguendo para ele os olhos pequeninos, chorosos de defluxo, exclamou:
- Estou com um diabo de uma constipação há três dias, que me não quer largar... - E rosnoualgumas pragas, passando a mão magra e nodosa sobre uma face trigueira, de linhas duras, a que um espesso bigode grisalho dava ferocidade.
Sebastião lamentou-o muito; não admirava, com a estação que ia!... Aconselhou-lhe água sulfúrica com leite fervido.
- Eu, se isto não despega - disse o comissário rancorosamente -, atiro-lhe amanhã para dentrocom meia garrafa de genebra; e se não for por bem, há de ir à força... E que há de novo?
Sebastião tossiu, queixou-se de andar também adoentado, e chegando a cadeira para ao pé do primo Vicente, pondo-lhe a mão sobre o joelho:
- Ó Vicente, tu, se eu te pedisse um polícia pra me acompanhar cá para uma coisa, só parameter medo, só para fazer que uma pessoa restitua o que tirou, tu davas ordem, bem?
- Ordem para quê? - perguntou lentamente o Vicente, com a cabeça baixa, os olhinhosavermelhados em Sebastião.
- Ordem para me acompanhar, para se mostrar. É só para se mostrar. É um caso esquisito...Para meter medo... Tu sabes que eu não sou capaz... E para que uma pessoa restitua o que tirou. Sem fazer escândalo...
- Roupas? Dinheiro?
E o comissário cofiava refletidamente o bigode com os seus longos dedos magros, muito queimados de cigarro.
Sebastião hesitou:
- Sim. Roupas, coisas... E para não haver escândalo... Tu percebes...
O Vicente murmurou com um ar profundo, fixando-o:
- Um policia para se mostrar...
Escarrou ruidosamente. E franzindo a testa:
- Não é coisa de política?
- Não! - fez Sebastião.
O comissário embrulhou mais os pés no cobertor, rolou em redor os olhos, ferozmente:
- Nem toca com gente graúda?
- Qual!
- Um policia para se mostrar... - ruminava o Vicente. - Tu és um homem de bem... Dá cá aquelapasta de cima da cômoda.
Tirou um papel pautado, examinou, acavalando a luneta no nariz, meditou com a mão em garra sobre a testa:
- O Mendes... Serve-te o Mendes?
Sebastião, que não conhecia o Mendes, acudiu logo:
- Sim, quem quiseres. É só para se mostrar...
- O Mendes. E um homenzarrão. É sério, foi da Guarda.
Fez-lhe aproximar o tinteiro; escreveu devagar a ordem; releu-a duas vezes; cortou os tt, secoua à chaminé do candeeiro; e dobrando-a com solenidade:
- À segunda divisão!
- Obrigado, Vicente. É um grande favor... Obrigado. E agasalha-te, homem. E não te esqueças: água sulfúrica da Farmácia Azevedo na Rua de São Roque; meia chávena de leite fervido... E obrigado. Não queres nada, hem? ar
- Não. Dá uma placa ao Mendes. É sério, foi da Guarda!
- E acavalando as lunetas retomou o Homem dos três calções.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. O Primo Basílio. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7530 . Acesso em: 29 jun. 2026.