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#Romances#Literatura Portuguesa

O crime do Padre Amaro

Por Eça de Queirós (1875)

Enterneceu-se então. Ah, ele já não a amava, estava farto dela! Ah, que desgraçada, que desgraçada que era! - Atirou-se de bruços para a cama e rompeu num choro estridente.

- Cala-te, mulher, que te podem ouvir na rua! dizia Amaro desesperado, sacudindo-a pelo braço.

- Não me importa! Que ouçam! Para a rua vou eu, gritar que estou neste estado, que foi o Sr. padre Amaro, e que me quer agora deixar!...

Amaro fazia-se lívido de raiva, com desejo furioso de lhe bater. Mas conteve-se; e com uma voz que tremia sob a sua serenidade:

- Tu estás fora de ti, filha... Dize lá, posso eu casar contigo? Não! Bem, então que queres? Se se percebe que estás assim, se tens o filho em casa, vê o escândalo!... Por ti, estás perdida, perdida para sempre! E eu, se se souber, que me sucede? Perdido também, suspenso, metido em processo talvez... De que queres tu que eu viva? Queres que morra de fome?

Enterneceu-se também àquela idéia das privações e das misérias do padre interdito. - Ah, era ela, era ela que o não amava, e que depois dele ter sido tão carinhoso e tão dedicado, lhe queria pagar com o escândalo e com a desgraça...

- Não, não, exclamou Amélia em soluços, lançando-se-lhe ao pescoço.

E ficaram abraçados, tremendo no mesmo enternecimento, - ela molhando de pranto o ombro do pároco, ele mordendo o beiço com os olhos todos turvos de água.

Desprendeu-se brandamente, enfim, e limpando as lágrimas:

- Não, filha, é uma desgraça que nos sucede, mas tem de ser. Se tu sofres, imagina eu! Ver-te casada, a viver com outro... Nem falemos nisso... Mas então, é a fatalidade, é Deus que a manda! Ela ficara aniquilada, à beira do leito, tomada ainda de grandes soluços. Tinha chegado enfim o castigo, a vingança de Nossa Senhora, que ela sentia preparar-se há tempos no fundo dos céus, como uma tormenta complicada. Aí estava, agora, pior que os fogos do Purgatório! Tinha de se separar de Amaro que imaginava amar mais, e ir viver com o outro, com o excomungado! Como poderia ela nunca reentrar na graça de Deus, depois de ter dormido e vivido com um homem que os cânones, o papa, toda a terra, todo o Céu consideravam maldito?... E devia ser esse seu marido, talvez o pai de outros filhos... Ah, Nossa Senhora vingava-se demais!

- E como posso eu casar com ele, Amaro, se o homem está excomungado?!

Amaro então apressou-se a tranqüilizá-la, prodigalizando os argumentos. Era necessário não exagerar... O rapaz, verdadeiramente, excomungado não estava... Natário e o cônego tinham interpretado mal os cânones e as bulas... Bater num sacerdote que não estava revestido não era motivo de excomunhão ipso facto, segundo certos autores... Ele, Amaro, era dessa opinião... De mais a mais podiam levantar-lhe a excomunhão.

- Tu compreendes... Como disse o santo concilio de Trento, e como sabes, nós atamos e desatamos. O moço foi excomungado?... Bem, levantamos-lhe a excomunhão. Fica tão limpo como dantes. Não, isso não te dê cuidado.

- Mas de que havemos de viver, se ele perdeu o emprego?

- Tu não me deixaste dizer... Arranja-se-lhe o emprego. Arranja-lho o padre-mestre. Está tudo combinadinho, filha!

Ela não respondeu, muito quebrada e muito triste, com duas lágrimas persistentes ao comprido das faces.

- Dize cá, tua mãe não desconfia de nada?

- Não, por ora não se percebe, respondeu ela com um grande ai.

Ficaram calados: ela limpando as lágrimas, serenando para sair; ele de cabeça baixa, trilhando lugubremente o soalho do quarto, pensando nas boas manhãs de outrora, quando só havia ali beijos e risadinhas abafadas; tudo mudara agora, até o tempo que estava todo nublado, um dia de fim de Verão, ameaçando chuva.

- Percebe-se que estive a chorar? perguntou ela, compondo ao espelho o cabelo.

- Não. Vais-te?

- A mamã está à minha espera...

Deram um beijo triste, e ela saiu.

•••

No entanto a Dionísia farejava pela cidade na pista de João Eduardo. A sua atividade desenvolvera-se, sobretudo, mal soubera que o cônego Dias, o ricaço, estava interessado na pesquisa. E todos os dias, à noitinha, esgueirava-se cautelosamente pelo portão de Amaro a dar-lhe as novidades: já sabia que o escrevente estivera ao princípio em Alcobaça com um primo boticário; depois fora para Lisboa; ai, com uma carta de recomendação do doutor Gouveia, empregara-se no cartório dum procurador; mas o procurador, passados dias, por uma fatalidade, morrera de apoplexia; e desde então o rasto de João Eduardo perdia-se no vago, no caos da capital. Havia, sim, uma pessoa que lhe devia saber a morada e os passos: era o tipógrafo, o Gustavo. Mas infelizmente o Gustavo, depois duma questão com o Agostinho, deixara o Distrito e desaparecera. Ninguém sabia para onde fora; por desgraça, a mãe do tipógrafo não a podia informar - porque morrera também.

- Oh, senhores! dizia o cônego quando o padre Amaro lhe ia levar estes fios de informação. Oh, senhores! mas então nessa história toda a gente morre! Isso é uma hecatombe!

- Você graceja, padre-mestre, mas é sério. Olhe que um homem em Lisboa é agulha em palheiro. É uma fatalidade!

(continua...)

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