Por Eça de Queirós (1925)
Estava-se então proximo do Entrudo. N'essa semana, por duas ou tres vezes já, Arthur impedira-a habilmente de sahir ; ella não parecera contrariada, sómente tinha tristezas, monices », dizia-se nervosa, queixava-se d'enxaquecas. Na sexta-feira — antes do Domingo Gordo — Arthur, voltando ás duas horas da redacção do Seculo, encontrou-a de chapéu, pondo o véu ao espelho. Ia á Paca.
— Ora, deixa lá a Paca !
— Mas preciso tambem de ir á modista . . .
— Ora, deixa-te de modistas !
Esperava uma « scena» e ficou admirado, vendo-a tirar sem uma palavra o chapéu, o véu, o vestido, agarrar n'um lenço que andava a embainhar havia mez e meio. e ir sentar-se, .com um suspiro, á janella. Arthur, despeitado d'aquella resignação muda, agarrou n'um livro, estendeu-se em cima da cama. E o silencio que se cavou entre elles pareceulhe triste e escuro como uma separação.
Manolo devia vir jantar n'essa noite, mas ás tres horas o Manuel veio dizer que o snr. Manrique pedia desculpa, mas que, tendo-lhe e,hegado um parente de Badajoz, só poderia apparecer á sobremesa.
A Concha não se moveu, cosendo devagar, lugubremente, e no silencio do quarto só se ouvia, subtilmente, voltarem-se as folhas do livro.
O jal\tar foi triste. A Concha, com duas rosetas vermelhas no rosto, não comia ; Arthur, a quem aquelle silencio infeliz, aquelle fastio desconsolado, exaltavam o ciume, petrificava-se com desespero na sua mudez, o cerebro cheio de phrases, de recriminações, de palavras eommovidas, que a sua lin• gua, d'um peso de chumbo, se recusava a pronun ciar. A sobremesa passou, e Manolo não veio.
Em logar d'elle foi Melchior quem appareceu ao café, e, com um rosto satisfeito, disse logo abru ptamente que ao entrar na sala de jantar, vira o Manolo com a Mercedes, unha e carne com ella, muito chegadinhos— e o pobre calvo a babar-se ao lado, o asno !
A Concha fez-se pallida, depois escarlate. E subitamente, tornou-se muito amavel com o Melehior : fel-o sentar ao pé d'ella, muito juntinhos queimou-lhe ella mesmo o café, desmanchou-lhe o cabelIo, occupando-se d'elle. palrando alto, sem um olhar, uma palavra para Arthur.
— Vocês estão amuados ? — perguntou Melchior com o rosto tumido de prazer.
Arthur teve um sorriso amargo :
— Tem estado com os nervos, a menina.
Mas a Concha ergueu-se bruscam ente, entron no quarto fechando a porta sobre si e sentiram-na no corredor gritar pela creada.
— Que diabo tem ella ? — perguntou Melchior, sorvendo placidamente o seu café.
Arthur teve uma tentação de desabafar, contar as suas suspeitas ; mas, vaidoso, não querendo dar a Melchior o gostinho de vêr justificadas as suas desconfiançasI — encolheu os hombros, disse :
— Eu sei lá ! Mulheres !
Melchior deu-lhe de lado um olhar apiedado e desdenhoso e pareceu sorver com delicia a ultima gota da chicara.
Mas a Concha voltara, com os olhos muito brilhantes, um pouco vermelha, toda coberta de pó d'arroz. Trazia uma excitação artificial, hysterioa, : deelarou que se achava disnosta a tudo ! Quiz tocar o fado — mas atirou com tedio a guitarra ; deu lun pulo para os joeihos de Melchior, ergueu-se, valsou só pela saleta e foi necessario que lhe arrancassem a garrafa de cognac, porque a queria beber d'um trago. Continuava a não fallar a Arthur, nem o olhava ; perguntou mesmo a Melchior se queria ir só com ella dar um passeio a Belem — mas só com ella, 10s dos, como dos noci,os !
E Melchior ria, todo banhado de gozo.
— Vá — disse com bonhomia — vá, faga as paI zes com o seu marido !
Ella encolhen os hombros com um despreza soa berano e estendeu os a Melchior para uma valsa. trauteando, volteavatn pela sala, pulando, tropeçando nas cadeiras, abalando o soalho com risadas sonoras, n'um grande arranque de troca ; desappareceram mesmo um momento no quarto ás escuras— e Arthur, furioso, ouvia a Concha rir, com rizinhos calidos de cocemns. -Não se ermlera da mesa, fumando, n 'um desespero lugub ne, com lagrizcas na
Quando ella voltou á sala, compondo o cabello, seguida de Melchior que torcia o bigode, o Manuel levantava a mesa.
— Va decir at snr, Manrique, abajo, que te esperamos — disse ella. — Listo !
O Manuel voltou d'ahi a momentos :
— Diz que não póde vir. Estava no quarto da Mercedes, em grande pandega . . .
Toda a animação da Concha murchou, como depois d'uma rajada uma bandeira cahindo ao comprido do mastro. Deu duas voltas pela saleta e foi para o quarto, ás escuras. Foram encontral-a, d'ahi a pouco, enroscada em cima da cama, dobrada sobre si mesma, n'uma immobilidade hostil. Respondeu bruscamente que tinha (lêyes de cabeça, febre. Para a distrahir, Melchior quiz tocar um fado : ella gritou-lhe que se calasse ! E como Arthur, julgando-a doente, a interrwava com um carinho que imploquarto fechando a porta sobre si e sentiram-na no corredor gritar pela creada.
— Que diabo tem ella ? — perguntou Melchior, sorvendo placidamente o scu café.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43205 . Acesso em: 29 jun. 2026.