Por Eça de Queirós (1875)
Mas a porta abriu-se, e apareceram os óculos azuis, a touca negra de D. Josefa. Não se pudera conter em cima, na cozinha, tomada dum frenesi agudo de curiosidade; descera na ponta das chinelas e colara o ouvido à fechadura do escritório; mas o grosso reposteiro de baetão estava cerrado por dentro, um ruído de lenha que se descarregava na rua abafava as vozes. A boa senhora então decidiu-se a entrar, "a dar os bons-dias ao senhor pároco".
Mas debalde, por detrás dos vidros defumados, os seus olhinhos agudos esquadrinharam ansiosamente o carão espesso do mano e a face pálida de Amaro. Os dois sacerdotes estavam impenetráveis como duas janelas fechadas. O pároco mesmo falou ligeiramente do reumático do senhor chantre, da notícia que corria sobre o casamento do senhor secretário-geral... Ao fim duma pausa ergueuse, contou que tinha nesse dia uma famosa orelheira para o jantar - e a Sra. D. Josefa, roendo-se, viu-o abalar depois de ter dito já por detrás do reposteiro ao cônego:
- Então até à noite em casa da S. Joaneira, padre-mestre, hem?
- Até à noite.
E o cônego, muito grave, continuou a escrever. D. Josefa então não se conteve; e depois de arrastar um momento as chinelas em tomo do banco do mano:
- Há novidade?
- Grande novidade, mana! disse-lhe o cônego, sacudindo os bicos da pena. Morreu o senhor D. João VI !
- Malcriado! rugiu ela rodando sobre os sapatões, cruelmente perseguida por uma risadinha do mano.
Foi à noite, embaixo, na saleta da S. Joaneira, enquanto Amélia em cima, com a morte na alma, martelava a Valsa dos Dois Mundos, que os dois padres, muito chegados no canapé, de cigarro nos dentes, por debaixo do tenebroso painel onde a vaga mão do cenobita se estendia em garra sobre a caveira, cochicharam o seu plano: - antes de tudo era necessário achar João Eduardo, que desaparecera de Leiria; a Dionísia, mulher de faro, ia bater todos os recantos da cidade para descobrir a toca em que a fera se acoutava; depois, imediatamente, porque o tempo urgia, Amélia escrever-lhe-ia... Só quatro palavras simples: que soubera que ele fora vítima duma intriga; que nunca perdera nada da amizade que lhe tinha; que lhe devia uma reparação; e que viesse vê-la... Se o rapaz hesitasse agora, o que não era provável (o cônego afirmava-o), fazia-se-lhe reluzir a esperança do emprego no governo civil, fácil de obter pelo Godinho, inteiramente governado pela mulher, que era uma escravazinha do pobre Natário?...
- Mas o Natário, disse Amaro, o Natário que detesta o escrevente, que dirá ele a esta revolução?
- Homem, exclamou o cônego com uma grande palmada na coxa, que me tinha esquecido! Pois você não sabe o que aconteceu ao pobre Natário?...
Amaro não sabia.
- Quebrou uma perna! Caiu da égua!
- Quando?
- Esta manhã. Eu soube-o agora à noitinha. Eu sempre lho disse: homem, esse animal ferra-lhe alguma! Pois senhores, ferrou-lha. E tesa! Tem para pêras... E eu que me tinha esquecido! Nem as senhoras lá em cima sabem nada.
Foi uma desolação, em cima, quando souberam. Amélia fechou o piano. Todos lembraram logo remédios que se lhe devia mandar, foi uma gralhada de oferecimentos - ligaduras, fios, um ungüento das freiras de Alcobaça, meia garrafinha dum licor dos monges do deserto de ao pé de Córdova... Era necessário também assegurar a intervenção do Céu: e cada uma se prontificou a usar do seu valimento com os santos da sua intimidade; D. Maria da Assunção, que ultimamente praticava com Santo Eleutério, ofereceu a sua influência; D. Josefa Dias encarregava-se de interessar Nossa Senhora da Visitação; D.
Joaquina Gansoso afiançou S. Joaquim.
- E lá a menina? perguntou o cônego a Amélia.
- Eu?...
E fez-se pálida, numa tristeza de toda a sua alma, pensando que ela, com os seus pecados e os seus delírios, perdera a útil amizade de Nossa Senhora das Dores. - E não poder ela também concorrer com a sua influência no Céu para restabelecer a perna de Natário, foi uma das amarguras maiores, talvez a punição mais viva que sentira desde que amava o padre Amaro.
•••
Foi em casa do sineiro, daí a dias, que Amaro participou a Amélia o plano do padre-mestre. Preparou-a, revelando-lhe primeiro que o cônego sabia tudo...
- Sabe tudo em segredo de confissão, acrescentou para a sossegar. Além disso ele e tua mãe têm culpas em cartório... Tudo fica em família...
Depois tomou-lhe a mão, e olhando-a com ternura, como compadecendo-se já das lágrimas aflitas que ela ia chorar:
- E agora, escuta, filha. Não te aflijas com o que te vou dizer, mas é necessário, é a nossa salvação...
Às primeiras palavras, porém, do casamento com o escrevente, Amélia indignou-se com espalhafato.
- Nunca, antes morrer!
O quê? Ele punha-a naquele estado e agora queria descartar-se dela e passá-la a outro? Era ela porventura um trapo que se usa e que se atira a um pobre? Depois de ter posto fora de casa o homem, havia de humilhar-se, chamá-lo e cair-lhe nos braços?... Ah, não! Também ela tinha o seu brio! Os escravos trocavam-se, vendiam-se, mas era no Brasil!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. O Crime do Padre Amaro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1791 . Acesso em: 29 jun. 2026.