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#Romances#Literatura Portuguesa

A Capital

Por Eça de Queirós (1925)

E assim, com um amigo que o comprehelldia üo bem, uma amante que lhe queria tanto, 0 otor dos Esmaltes e Joias tinha dias em que an dava inchado de gozo, Se nao tosse o dinheiro ! O maldito dinheiro ! .

A resposta do emprezario no emtanto tardava e Arthur instava com Melchior para que voltasse a fallar-lhe, o apertasse. Que diabo, a cousa urgia ! E havia agora na sua impaciencia, nao só a necessidade de recursos, mas o desejo de deslumbrar o hespanhol com o espectaculo d'uma l)laléa: arreba tada. Melchior, complacente, fôra ao emprezario que se declarara, « occupadissimo, menino, occupa• dissimo » e pedia mais quinze dias ! Mas a cousa havia de ir, a cousa havia de ir !

Porém Melchior v andava de novo desconjiaao com o h6panhol : Ir:itava-o sobretudo o saber que a Concha retomara o habito de sahir de manhã, duas, tres vezes por semana. Ora ia vêr a Paca estava muito doente, ora, á modista, ora apeD08 dar un passeito. Col'.su.rou Arthur por consentir n%a.qüel -

-Iag passeabas.

—A rapariga não ha-de estar aqui como n'um convento dizia .A rthur;

E accrescenlava, girando com fatuidade sobre os calcan hares : — Estou tão certo d'ella como de mim mesmo !

Melchior deixava-lhe cahir sobro as costas um olhar rancaoroso, cheio d'um desprezo immeuso,

Não podia, por vezes, disfarçar ataques subitos d'odio pelo emigrado. De repente, sem razão, embezerrava. A Concha percebia, vinha gracejar com elle, perguntar-lhe o que tinha su abc¿elito, se estava zangado com su uietita, retorcia-lhe o bigode, sentava-se-lhe mesmo nos joelhos, rindo, puland.o, emquanto Manolo, muito serio, harpejava os bor(Iões da guitarra ou jogava com Arthur o écarté a dous tostões. Melchior, ordinariamente, acalmava-se, mas, só com Arthur, desabafava : não podia tragar o Manolo ! Não podia ! Um dia quebrava a cara ao

Manolo . . .

— Mas porquê, Melchior

Melchior calava-se e d'ahi a pouco rosnava :

— O governo é que tem a culpa ; consentir n'esta sucia de foragidos !

Arthur espantava-se d'um patriotismo tão fanatico, tão intolerante. Era necessario tambem não ser caturra, que diabo ! Os hespanhoes _eram uma raça nobre . . .

— Uma corja ! — rugia Melchior.

E dando passadas pelo quarto, sondava com mãos nervcosas as algibeiras, como para procurar uma arma :

— Um dia rasgo entranhas a um castelhano . E uma oceasião, njãD se contendo, disse a Arthur n'uma explosão :

— Pois você não vê como ella fa.z olho ao Manolo

Arthur riu. Ora, storias ! Mas aquella palavra, com a lentidão d'uníll veneno absorvido, começou a espalhar-lhe no oangue um ciume crescente. Observou-os aos douys. Porém, via-os tão naturaes, tão francos, tão camgradas, tão innocentes!... Pensou que disfarçavan:n » e suspeitou das sahidas da Concha. Um dia que ouvira dizer que ia a casa da Paca, seguiu-a de longe, cosido com as fachadas. Que, allivio quando é, viu entrar, com effeito, no portal de Paca ! Jurou a si mesmo, n'um elanee. de yeconhecimento, mais para a compensar da injusta suspeita com que a offendera. Mas depois reflectiu que no pred;r» da Paca havia mais andares. ou ainda que a. cancha poderia ter sahido por uma porta Vaidoso, irritou-se de ter sido simplorio e quasi deÉ#j0U que ella fosse culpada. Assim, certa Elanhñ qlle a sabia lá, seguiu-a e foi tocar á campainha. Per,tuntou pela señorita Concha : esperou dez minutos viu-a apparecer de chapéu, as faces em braza, os Olhos brilhantes.

Que era ? Porque tinha vmdo

Elle riu : passara nor alli, lenibrara-se de a vir buscar. Mas em casa, de repente, pergun tou-lhe quasi com severidade, porque lhe apparecera ella tão vermelha ? Em logar de se escandalisar com aquella pergunta repassada de desconfiança, con tou-lhe que assistira a uma scena ! Ah ! A Paca que se julgava perdida, a chorar ! O querido a cho rar ! O pequeno a chorar ! Um horror !

Mas Arthur não estava tranquillo. Tinha a sensacão vaga de que ella « se lhe ia escapando b. Sentia-a menos sua. E aquella incerteza exaltava o seu amor. Tinha um desejo pungente de lhe saber os pensamentos. Desconfiava de tudo, do Manuel, da creada sobretudo — e sentia uma contrariedade amarga quando via entrar o Manolo. Os serões eram menos alegres havia silencios embaraçados, e o emigrado, para os preencher, tinha d'esgotar o seu repertorio de malagueñas, que a Concha escutava sorumb atica, com os braços cruzados, erguendo ás vezes para elle ou para Arthur o seu olhar muito brilhante.

Uma manhã, ouvindo-lhe dizer que ia á Paca, Arthur declarou gue estava incommodado, que não sahia, que desejava que ella lhe fizesse companhia. Ella atirou logo para uma cadeira o vestido que ia pôr e veio interrogal-o muito ternamente : o que lhe doia queria deitar-se

— Estou exquisito, passa logo — respondeu Arthur, muito satisfeito da promptidão com que ella desistira do passeio » e vendo na sua solicitude a persistencia do seu amor.

(continua...)

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