Por Eça de Queirós (1878)
Mas a campainha retinia finamente. O engenheiro saiu, em bicos de pés. E o pano ergueu-se devagar na alegria da quermesse, cheia de uma luz branca e dura. Casas acasteladas branquejavam no pano de fundo, nalguma colina do Reno amiga das vinhas. Escarranchado sobre uma pipa, o barrigudo e folgazão Rei Cambrinus ria enormemente, erguendo, na sua atitude de tabuleta gótica, a vasta caneca emblemática da cerveja germânica. E estudantes, judeus, reitres e donzelas, nas suas cores vivas de paninho, moviam-se de um modo automático e sonâmbulo, aos compassos largos da instrumentação festiva.
A valsa então desenrolou-se languidamente, como um fio de melodia, em espirais suaves que ondeavam e fugiam: Luísa seguia os pezinhos das dançarinas, as pernas musculosas volteando no tablado; e as saias tufadas e curtas faziam como o girar multiplicado e reproduzido de vagos discos de cambraia.
- Que bonito! - murmurava ela com uma felicidade no rosto.
- De apetite - afirmava D. Felicidade revirando os olhos.
Certas agudezas delicadas de flautins enterneciam Luísa; e a casa, Juliana, as suas misérias, tudo lhe parecia recuado, no fundo de uma noite esquecida.
Mas o jovial Diabo adiantava-se por entre os grupos, e logo, com gestos aduncos e rapaces, cantou o Dio del oro. A sua voz arremessada afirmava, num tom brutal, o poder do dinheiro; nas massas da instrumentação passavam sonoridades claras e tilintantes de um remexer sôfrego de tesouros; e as notas altas finais caíam, de um modo curto e seco, como marteladas triunfantes cunhando o divino ouro!
Luísa então viu D. Felicidade perturbar-se; e seguindo o seu olhar negro, subitamente avivado, descobriu na geral a calva polida do Conselheiro Acácio que cumprimentava, prometendo generosamente, com a mão espalmada, a sua visita próxima.
Veio, apenas o pano desceu, e felicitou-as imediatamente por terem escolhido aquela noite: a ópera era das melhores e estava gente muito fina. Lamentou ter perdido o primeiro ato; ainda que não gostasse extremamente da música, apreciava-o por ser muito filosófico. E, tomando da mão de Luísa o binóculo, explicou os camarotes, disse os títulos, citou as herdeiras ricas, nomeou os deputados, apontou os literatos. - Ah! Conhecia bem São Carlos! Havia dezoito anos!
D. Felicidade, rubra, admirava-o. O Conselheiro sentia que não pudessem ver o camarote real: a rainha, como sempre, estava adorável.
Sim? Como estava?
De veludo. Não sabia se roxo, se azul-escuro. Afirmar-se-ia, e viria dizer...
Mas quando o pano subiu, ficou sentado por trás de Luísa começando logo a explicar - que aquela (Siebel, colhendo flores no jardim de Margarida), posto que segunda dama, ganhava quinhentos mil réis por mês...
- Mas apesar destes ordenadões morrem quase sempre na miséria - disse com reprovação. Vícios, ceias, orgias, cavalgadas...
A portinha verde do jardim abriu-se, e Margarida entrou devagar, desfolhando o malmequer da legenda, caracterizada de virgem, com as duas longas tranças louras. Cismava, falava só, amava: a doce criatura sente em volta de si o ar pesado, e quereria bem que sua mãe voltasse!
Os olhos de Luísa encheram-se então de melancolia, com a saudosa balada do rei de Tule; aquela melodia dava-lhe a vaga sensação de um pálido país de amores espirituais, banhado de luares frios, longe, no Norte, junto a um mar gemente - ou de tristezas aristocráticas, cismadas num terraço, sob a sombra de um parque...
Mas o Conselheiro preveniu-as, dizendo:
- Agora é que é! Reparem. Agora é o ponto capital.
De joelhos, diante do cofre das jóias, a dama requebrava-se, garganteando; apertava nas mãos o colar, extasiada; punha os brincos com denguices delirantes; e da sua boca muito aberta saía um canto trinado, de uma cristalinidade aguda - entre o vago sussurro da admiração burguesa.
O Conselheiro disse discretamente:
- Bravo! Bravo!
E, excitado, dissertou: aquilo era o melhor da ópera! Era ali que se via a força das cantoras...
D. Felicidade quase tinha medo que lhe estalasse alguma coisa na garganta. Preocupava-se também com as jóias. Seriam falsas? Seriam dela?
- É para a tentar, não é verdade?
- É um drama alemão - disse-lhe baixo o Conselheiro.
Mas Mefistófeles ia arrastando a boa Marta; Fausto e Margarida perdiam-se nas sombras cúmplices do jardim afrodisíaco - e o Conselheiro observou que todo aquele ato era um pouco fresco.
D. Felicidade murmurou-lhe - entre repreensiva e extática:
- Quantas cenas não terá tido assim, maganão!
O Conselheiro fitou-a, indignado:
- O quê, minha senhora? Levar a desonra ao seio de uma família!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. O Primo Basílio. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7530 . Acesso em: 29 jun. 2026.