Por Eça de Queirós (1875)
E cada dia a desejava mais, dum desejo contínuo e tirânico, que aquelas horas escassas não satisfaziam. Ah! positivamente, como mulher não havia outra!... Desafiava a que houvesse outra, mesmo em Lisboa, mesmo nas fidalgas!... Tinha pieguices, sim, mas era não as tomar a sério, e gozar enquanto era novo!
E gozava. A sua vida por todos os lados tinha confortos e doçuras - como uma destas salas onde tudo é acolchoado, não há móveis duros nem ângulos, e o corpo, onde quer que pouse, encontra a elasticidade mole duma almofada.
Decerto, o melhor era as suas manhãs em casa do tio Esguelhas. Mas tinha outros regalos. Comia bem: fumava caro numa boquilha de espuma: toda a sua roupa branca era nova e de linho: comprara alguma mobília: e não tinha, como outrora, embaraços de dinheiro porque a Sra. D. Maria da Assunção, a sua melhor confessada, lá estava com a bolsa pronta. Sobretudo, ultimamente, tivera uma pechincha: uma noite em casa da S. Joaneira, a excelente senhora, a propósito duma família de ingleses que vira passar num char-à-banc para ir visitar a Batalha, exprimira a opinião que os ingleses eram hereges.
- São batizados como nós, observara D. Joaquina Gansoso.
- Pois sim, filha, mas é um batismo para rir. Não é o nosso rico batismo, não lhes vale.
O cônego então, que gostava de a torturar, declarou pausadamente que a Sra. D. Maria dissera uma blasfêmia. O santo concílio de Trento, no seu cânone IV, sessão VII, lá determinara "que aquele que disser que o batismo dado aos hereges, em nome do Padre, do Filho e do Espírito, não é o verdadeiro batismo, seja excomungado!". E a D. Maria, segundo o santo concílio, estava desde esse momento excomungada!...
A excelente senhora teve um flato. Ao outro dia foi lançar-se aos pés de Amaro, que em penitência da sua injúria feita ao cânone IV, sessão VII do santo concilio de Trento, lhe ordenou trezentas missas de intenção pelas almas do purgatório - que D. Maria lhe estava pagando a cinco tostões cada uma.
Assim, ele podia às vezes entrar na casa do tio Esguelhas com um ar de satisfação misteriosa e um embrulhozinho na mão. Era algum presente para Amélia, um lenço de seda, uma gravatinha de cores, um par de luvas. Ela extasiava-se com aquelas provas da afeição do senhor pároco; e era então no quarto escuro um delírio de amor, enquanto embaixo a tísica, sobre a Totó, ia fazendo "trás... trás..."
XIX
- O senhor cônego? Quero-lhe falar. Depressa!
A criada dos Dias indicou ao padre Amaro o escritório, e correu a cima contar a D. Josefa que o senhor pároco viera procurar o senhor cônego, e com uma cara tão transtornada que decerto tinha sucedido alguma desgraça!
Amaro abrira abruptamente a porta do escritório, fechou-a de repelão, e sem mesmo dar os bonsdias ao colega, exclamou:
- A rapariga está grávida!
O cônego, que estava escrevendo, caiu como uma massa fulminada para as costas da cadeira: - Que me diz você?
- Grávida!
E no silêncio que se fez o soalho gemia sob os passeios furiosos do pároco da janela para a estante.
- Está você certo disso? perguntou enfim o cônego com pavor.
- Certíssimo! A mulher já há dias andava desconfiada. Já não fazia senão chorar... Mas agora é certo... As mulheres conhecem, não se enganam. Há todas as provas... Que hei-de eu fazer, padre-mestre?
- Olha que espiga! ponderou o cônego atordoado.
- Imagine você o escândalo! A mãe, a vizinhança... E se suspeitam de mim?... Estou perdido... Eu não quero saber, eu fujo!
O cônego coçava estupidamente o cachaço, com o beiço caído como uma tromba. Representavam-se-lhe já os gritos em casa, a noite do parto, a S. Joaneira eternamente em lágrimas, toda a sua tranqüilidade extinta para sempre...
- Mas diga alguma coisa! gritou-lhe Amaro desesperado. Que pensa você? Veja se tem alguma idéia... Eu não sei, eu estou idiota, estou de todo!
- Aí estão as conseqüências, meu caro colega.
- Vá para o inferno, homem! Não se trata de moral... Está claro que foi uma asneira... Adeus, está
feita!
- Mas então que quer você? disse o cônego. Não quer decerto que se dê uma droga à rapariga, que a arrase...
Amaro encolheu os ombros, impaciente com aquela idéia insensata. O padre-mestre, positivamente, estava divagando...
- Mas então que quer você? repetia o cônego num tom cavo, arrancando as palavras ao abismo do tórax.
- Que quero! Quero que não haja escândalo! Que hei-de eu querer?
- De quantos meses está ela?
- De quantos meses? Está de agora, está dum mês...
- Então é casá-la! exclamou o cônego com explosão. Então é casá-la com o escrevente!
O padre Amaro deu um pulo:
- Com os diabos, tem você razão! É de mestre!
O cônego afirmou gravemente com a cabeça que era "de mestre".
- Casá-la já! Enquanto é tempo! Pater est quem nuptiae demonstrant... Quem é marido é que é pai.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. O Crime do Padre Amaro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1791 . Acesso em: 29 jun. 2026.