Por Eça de Queirós (1875)
Mas Amélia, agora, já não tinha aquela necessidade amorosa de contentar em tudo o senhor pároco. Acordara quase inteiramente daquele adormecimento estúpido da alma e do corpo, em que a lançara o primeiro abraço de Amaro. Vinha-lhe aparecendo distintamente a consciência pungente da sua culpa. Naqueles negrumes dum espírito beato e escravo, fazia- se um amanhecimento de razão. - O que era ela no fim? A concubina do senhor pároco. E esta idéia, posta assim descarnadamente, parecialhe terrível. Não que lamentasse a sua virgindade, a sua honra, o seu bom nome perdido. Sacrificaria mais ainda por ele, pelos delírios que ele lhe dava. Mas havia alguma coisa pior a temer que as reprovações do mundo: eram as vinganças de Nosso Senhor. Era da perda possível do Paraíso que ela gemia baixo; ou de mais medonho ainda, de algum castigo de Deus, não das punições transcendentes que acabrunham a alma além da tumba, mas dos tormentos que vêm durante a vida, que a feririam na sua saúde, no seu bem-estar e no seu corpo. Eram vagos medos de doenças, de lepras, de paralisias ou de pobrezas, de dias de fome - de todas essas penalidades de que ela supunha pródigo o Deus do seu catecismo. Como em pequena, nos dias em que se esquecia de pagar à Virgem o seu tributo regular de Salve-Rainhas, temia que ela a fizesse cair na escada ou levar palmatoadas da mestra, arrefecia de medo agora, à idéia de que Deus, em castigo dela se deitar na cama com um padre, lhe mandasse um mal que a desfigurasse ou a reduzisse a pedir esmola pelas vielas. Estas idéias não a deixavam, desde o dia em que na sacristia pecara de concupiscência dentro do manto de Nossa Senhora. Tinha a certeza que a Santa Virgem a odiava, e que não cessava de reclamar contra ela; debalde procurava abrandá-la, com um fluxo incessante de orações humilhadas; sentia bem Nossa Senhora, inacessível e desdenhosa, de costas voltadas. Nunca mais aquele divino rosto lhe sorrira; nunca mais aquelas mãos se tinham aberto para receber com agrado as suas orações, como ramos congratulatórios. Era um silêncio seco, uma hostilidade gelada de divindade ofendida. Ela conhecia o crédito que Nossa Senhora tem nos concílios do Céu; desde pequena lho tinham ensinado; tudo o que ela deseja o obtém, como uma recompensa devida aos seus prantos no Calvário; seu Filho sorri-lhe à sua direita, o Deus Padre fala-lhe à esquerda... E compreendia bem que para ela não havia esperança - e que alguma coisa medonha se preparava lá em cima, no Paraíso, que lhe cairia um dia sobre o corpo e sobre a alma, esmagando-a com um desabamento de catástrofe... Que seria?
Cessaria as suas relações com Amaro, se o ousasse: mas receava quase tanto a sua cólera como a de Deus. Que seria dela se tivesse contra si Nossa Senhora e o senhor pároco? Além disso, amava-o. Nos seus braços, todo o terror do Céu, a mesma idéia do Céu desaparecia; refugiada ali, contra o seu peito, não tinha medo das iras divinas; o desejo, o furor da carne, como um vinho muito alcoólico, davam-lhe uma coragem colérica; era com um brutal desafio ao Céu que se enroscava furiosamente ao seu corpo. - Os terrores vinham depois, só no seu quarto. Era esta luta que a empalidecia, lhe punha pregas de envelhecimento ao canto dos lábios secos e ardidos, lhe dava aquele ar murcho de fadiga que irritava o padre Amaro.
- Mas que tens, tu, que parece te espremeram o suco? perguntava- lhe ele quando aos primeiros beijos a sentia toda fria, toda inerte.
- Passei mal a noite... Nervoso.
- Maldito nervoso! rosnava o padre Amaro impaciente.
Depois vinham perguntas singulares que o desesperavam, repetidas agora todos os dias. Se tinha dito a missa com fervor? Se tinha lido o Breviário? Se tinha feito a oração mental?...
- Sabes tu que mais? disse ele furioso. Sebo! E esta! Tu pensas que eu sou ainda seminarista, e que tu és o padre examinador, que verifica se cumpri a Regra? Ora a tolice!
- É que é necessário estar bem com Deus - murmurava ela.
Era com efeito a sua preocupação, agora, que Amaro fosse um bom padre. Contava, para se salvar e para se livrar da cólera de Nossa Senhora, com a influência do pároco na corte de Deus: e temia que ele por negligência de devoção a perdesse, e que, diminuindo o seu fervor, diminuíssem os seus méritos aos olhos do Senhor. Queria-o conservar santo e favorito do Céu para colher os proveitos da sua proteção mística.
Amaro chamava a isto "caturrices de freira velha". Detestava-as, por as achar frívolas - e porque tomavam um tempo precioso, naquelas manhãs da casa do sineiro...
- Nós não viemos aqui para lamúrias, dizia ele, muito secamente. Fecha a porta, se queres.
Ela obedecia, - e então aos primeiros beijos na penumbra da janela cerrada, ele reconhecia enfim a sua Amélia, a Amélia dos primeiros dias, o delicioso corpo que lhe tremia todo nos braços, em espasmos de paixão.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. O Crime do Padre Amaro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1791 . Acesso em: 29 jun. 2026.