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#Romances#Literatura Portuguesa

A Capital

Por Eça de Queirós (1925)

O outro bocejou, repoltreou-se na cadeira, disse negligentemente que a sua querida tinha ficado em Sevilha . . De resto, presentemente, a politica de via prevalecer sobre o sentimento : quando o povo soffre não se póde pensar em prazeres ! A sua querida, agora, era a Patria !

Obrigou-o a acceitar outro charuto e dizendo que ia escrever a sua correspondencia, sahiu assobiando a Marselheza !

Arthur galgou a e:cada para ir contar á Concha o conhecimento que fizera, feliz em mostrar a sympathia que inspirara a um hespanhol tão bonito e tão illustre. A Concha fez-se escarlate, deu duas

voltas pelo quarto @om a cabeça baixa, contemplando o bico das botinas, foi arramar as escovas sobre o toucador, um pouco tremula, e por fim disse com uma voz ambigua — que achava cara de mau ao seu patricio, « su paisano». Mas de repente, acommettida d'uma jovialidade brusca, arrebatou Arthur pela cinta e fel-o rodar n'uma valsa.

D'ahi a pouco, o creado entrava corn uma caixa de charutos Intimidades ; era um presente do hespanhol, que mandava o seu cartão de visita :

D. MANUEL MANHIQUE ROJAS Y CUEVAS

Arthur ficou muito lisonjeado e a C0i)cha declaroa, com a auctoridade d'uma mulher experiente da sociedade, que era necessario convidal-o a jantar. Arthur admirou um tacto tão fino e á tardinha, quando a Con.cha, muito vestida, toda perfumada, se ia sentar á mesa enfastiada d 'esperar, Arthur, que desde as quatro horas sahira, appareceu trazendo pelo braço D. Manuel Manrique ; ella fez-se muito vermelha, o seio arfou-lhe e baixando as palpebras, curvou-se n'um cumprimento digno.

O jantar foi muito alegre. D. Manuel interessou profundamente Arthur. Fel-o rir, contando episodios picarescos da sua fuga para Portugal, com quatro duros na algibeira ; enthusiasmou-o pelas viagens, descrevendo-lhe a Havana, os cafesaes, as florestas tropicaes, as danças dos negros e os profundos céus abrazados ; exaltou-o pelos romantismos da guerra civil, explicando a defeza heroica das barricadas na Cal.le da Aduana, em Cadiz, e espantou-o pela grandeza dos seus planos politicos, fazendo-lhe antevêr uma grande federação das republicas latinas, em opposigão aos despotismos saxonicos e 81avos. E ia declamar contra o papado e contra a Egreja, n'um furor d'impiedade democratica, quando a Concha, muito devota, fez um gesto escandalizado. D. Manuel immediatamente se re tractou, e mesmo disse :

— Pero nada se hace sin Za cotuntad de Dios !

Aquillo pareceu a Arthur de muito bom gosto, d'uma alta cortezia, e, electrisado, deu-lhe sem reaerva a sua amizade. Fallaram então de Lisboa, de Madrid, de theatros, e bebiam fraternalmente —— quando Melchior abriu de rompante a porta. Ao vêr o hespanhol confortavelmente installado no seu logar habitual, teve uma expressão tão desaponta da, que a Concha deu uma risada :

— E8 Melchior, el pobre ! Mas logo apresen- tou-o com gravidade ao emigrado.

Melchior arrastou devagar uma cadeira, recebeu com um ar soturno um calice de curaçao e ficou embezerrado, mudo, torcendo o bigode com os dedos tremulos, deitando olhares ferozes a Arthur, á Concha e ao hespanhol.

Emfim, não se contendo, ergueu-se, chamou Arthur para o quarto de cama e cruzando desespera• damente os braços, n'urna voz estrangulada, disse : — Então que significa o bebado do hespauhol mettido aqui de casa e pucarilho ?

Arthur explicou o encontro, a offerta do charutos, elogiou o hespanhol : era um rapaz de grande talento, iinha ido á Havana,

Ao diabo que o carregue !

Falle baixo, homem ! —- fez Arthur inquieto, indo fechar a porta do quarto.

— Qual baixo ! É um bebado ! Olha que brincadeira ! Estavamos aqni todos tres como Deus com os anjos . . . Está tudo estragado agora ! Eu por mim, não torno aqui a pôr os pés

A colera eriçava-lhe os pellos do bigode. Arthur tentava calmai-o : o D. Manuel parecia-lhe urna

pessoa fina . . .

— Você verá ! Espere-lhe pela volta !

— Mas porquê, que diabo ?

Melchior hesitou, parecia querer soltar uma rovelação, mas depois d'encolher desesperadamente os hombros :

—A culpa é do governo ! Canalhas d'hespanhoes ! Eu, é gente que odeio — E lançou-se em violentas declamaçoes patrioticas : a Uniõo Iberica era a infamia das infamias ! Mas que se livrasse um hespanhol de se lhe. atravessar no caminho Bebia-lhe o Bangue ! Positivamente, bebia-lhe o sangue !

Uma risada muito alta, muito calida, da Concha, dentT0, na saleta, interrompeu-o, immobilisou-o : olhou Arthur dos pés á cabeça com odio, com desprezo—e atirando o chapéu para a nuca, rompeu pelo corredor, blasphemando.

Quando Arthur voltou á saleta, a contar que Melchior abalara, achou a Concha muito animada, com uma côr radiosa nas faces : nunca a vira tão bonita ; tinha descoberto que D. Manuel era ainda seu parente e diziam-se já com familiaridade : Conchita, Manolo !

(continua...)

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