Por Eça de Queirós (1878)
- Bufa! Bufa! - gritou de cima Juliana. - Mas vai-te indo para o olho da rua!
Luísa escutava mordendo os beiços. Em que se convertera a sua casa! Uma praça! Uma taberna!
- Se eu te apanho! - rosnava a Joana descendo.
- Rua! Rua, sua porca! - gania a Juliana.
Luísa então chamou a rapariga:
- Joana, não procure casa, venha por aqui além de amanhã - disse-lhe baixo.
Juliana em cima cantava a Carta Adorada, com um júbilo estridente.
E daí a pouco desceu, veio dizer, muito secamente, que estava o jantar na mesa.
Luísa não respondeu. Esperou que ela subisse à cozinha, correu à sala de jantar, trouxe pão, um prato de marmelada, uma faca, veio fechar-se no quarto; - e ali jantou, a um canto da jardineira.
Às seis horas um trem parou à porta. Devia ser Sebastião! Foi ela mesma abrir, em bicos de pés. Era ele, animado, vermelho, com o chapéu na mão: trazia-lhe a chave da frisa número dezoito...
- E isto...
Era um ramo de camélias vermelhas, rodeadas de violetas dobradas.
- Oh, Sebastião! - murmurou ela, com um reconhecimento comovido.
- E carruagem, tem?
- Não.
- Eu cá mando. As oito, hem?
E desceu, todo feliz de a servir. Ela seguiu-o com o olhar que se umedecia. Foi à janela do quarto vê-lo sair. - Que homem!" - pensava. E cheirava as violetas, voltava o ramo na mão, sentia também um prazer doce na proteção dele, nos seus cuidados.
Nós de dedos bateram à porta do quarto:
- Então a senhora não quer jantar? - disse a voz impaciente de Juliana, de fora.
- Não.
- Mais fica!
D. Felicidade veio um pouco antes das oito. Luísa ficou tranqüila, vendo-a com vestido preto afogado, e o seu adereço de esmeraldas.
- Então que é isto? Que estroinice é esta, vamos a saber? - disse logo, muito alegre, a excelentesenhora.
Um capricho! - O Jorge tinha jantado fora, ela sentira-se tão só!... Dera-lhe o apetite de ir ao teatro. Não pudera resistir... Tinham de o ir buscar pelo Hotel Gibraltar.
- Eu tinha acabado de jantar quando recebi o teu bilhete. Fiquei!... E estive para não vir - disse,sentando-se, com pancadinhas muito satisfeitas nas pregas do vestido. - Apertar-me depois de jantar! Felizmente não tinha comido quase nada!
Quis então saber o que ia. O Fausto? Ainda bem! De que lado era a frisa? Dezoito. Perdiam a vista da família real, era pena!... Pois estava mais longe daquela noitada de teatro!... - E erguendo-se passeava diante do toucador com olhares de lado, alisando os bandós, ajeitando as pulseiras, entalada nos espartilhos, a pupila luzidia.
Uma carruagem parou à porta.
- O trem! - disse, toda risonha.
Luísa calçando as luvas, já com a capa, olhava em redor: o coração batia-lhe alto; nos seus olhos havia uma febre. Não lhe faltava nada? - perguntou D. Felicidade. A chave da frisa? O lenço?
- Ai! O meu ramo! - exclamou Luísa.
Juliana ficou espantada quando a viu vestida para teatro. Foi alumiar, calada; e atirando a cancela com uma pancada insolente:
- Não tem mesmo vergonha naquela cara! - rosnou.
O trem já rodava quando D. Felicidade rompeu a gritar, batendo nos vidros:
- Ai? - Espere, pare! Que ferro, esqueceu-me o leque! Não posso ir sem leque!
- Pare, cocheiro!
- Faz-se tarde, filha, dou-te o meu. Toma! - fez Luísa impaciente.
Aquelas agitações abalavam a digestão comprimida de D. Felicidade; felizmente, como ela dizia, arrotava! Graças a Deus, louvada seja Nossa Senhora, que podia arrotar!
Mas a descida do Chiado alegrou-a muito. Grupos escuros, onde se gesticulava, destacavam às portas vivamente alumiadas da Casa Havanesa; os trens passavam para o lado do Picadeiro, com um rápido reluzir de lanternas ricas, que alumiavam as bandas brancas dos capotes dos criados. D. Felicidade, com a sua face jubilosa à portinhola, gozava a claridade do gás nas vitrinas, o ar de inverno; e foi com uma satisfação que viu o guarda-portão do Gibraltar, de calções vermelhos, vir com o boné na mão, à portinhola.
Perguntaram por Jorge.
E caladas, olhavam a escada de lance decorativo onde globos foscos derramavam uma luz doce. D. Felicidade, muito curiosa da "vida de hotel", reparou na engomadeira que entrou com um cesto de roupa; depois numa senhora que lhe pareceu estabanada, e que descia, vestida de soirée, mostrando o pé calçado num sapato redondo de cetim branco; e sorria de ver sujeitos roçarem-se pelo trem, lançando para dentro olhares gulosos.
- Estão a arder por saber quem somos.
Luísa calada apertava nas mãos o seu ramo. Enfim Jorge apareceu no alto da escada, conversando muito interessadamente com um sujeito magríssimo, de chapéu ao lado, as mãos nos bolsos de umas calças muito estreitas, e um enorme charuto enristado ao canto da boca. Paravam, gesticulavam, cochichavam. Por fim o sujeito apertou a mão de Jorge, falou-lhe ao ouvido, riu baixo, torcendo-se, bateu-lhe no ombro, obrigou-o muito seriamente a aceitar outro charuto - e pondo o chapéu mais ao lado foi conversar com o guarda-portão.
Jorge correu à portinhola do trem, rindo:
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. O Primo Basílio. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7530 . Acesso em: 29 jun. 2026.