Por Eça de Queirós (1875)
Amaro encolhia os ombros. Que lhe haviam eles de fazer, se era a vontade de Deus?...
E Amélia, resignando-se à vontade de Deus em tudo, ia deixando cair as saias.
Tinha agora daquelas pieguices freqüentes que impacientavam o padre Amaro. Em certos dias aparecia muito murcha; trazia sempre algum sonho lúgubre a contar, que a torturara toda a noite, e em que ela pretendia descobrir avisos de desgraças...
Perguntava-lhe às vezes:
- Se eu morresse, tinhas muita pena?
Amaro enfurecia-se. Realmente era estúpido! Tinham apenas uma hora para se verem, e haviam de estar a estragá-la com lamúrias?
- É que não imaginas, dizia ela, trago o coração negro como a noite.
Com efeito as amigas da mãe estranhavam-na. Às vezes, durante serões inteiros não descerrava os lábios, pendia sobre a sua costura, picando molemente a agulha; ou então, muito cansada mesmo para trabalhar, ficava junto da mesa fazendo girar devagar o abajur verde do candeeiro, com o olhar vazio e a alma muito longe.
- Ó rapariga, deixa esse abajur em paz! diziam-lhe as senhoras nervosas.
Ela sorria, dava um suspiro fatigado, e retomava muito lentamente a saia branca que havia semanas andava bainhando. A mãe, vendo-a sempre tão pálida, pensara em chamar o doutor Gouveia.
- Não é nada, minha mãe, é nervoso, passa...
O que provava a todos que era nervoso eram os sustos súbitos que a tomavam - a ponto de dar um grito, quase desmaiar, se de repente uma porta batia. Certas noites mesmo, exigia que a mãe viesse dormir ao pé dela, com medo de pesadelos e de visões.
- É o que diz sempre o Sr. doutor Gouveia, observava a mãe ao cônego, é uma rapariga que necessita casar...
O cônego pigarreava grosso.
- Não lhe falta nada, resmungava. Tem tudo o que precisa. Tem de mais, ao que parece...
Era com efeito a idéia do cônego, que a rapariga (como ele dizia só consigo) "andava-se a arrasar de felicidade". Nos dias em que sabia que ela fora ver a Totó, não se fartava de a estudar, cocando-a do fundo da poltrona com um olho pesado e lúbrico. Prodigalizava-lhe agora as familiaridades paternais. Nunca a encontrava na escada sem a deter, com coceguinhas aqui e ali, palmadinhas na face muito prolongadas. Queria-a em casa repetidas vezes pela manhã; e enquanto Amélia palrava com D. Josefa, o cônego não cessava de rondar em torno dela, arrastando as chinelas com um ar de velho galo. E eram entre Amélia e a mãe conversas sem fim sobre esta amizade do senhor cônego, que decerto lhe deixaria um bom dote.
- Seu maganão, tem dedo! - dizia sempre o cônego quando estava sò com Amaro, arregalando os olhos redondos. Aquilo é um bocado de rei!
Amaro entufava-se:
- Não é mau bocado, padre-mestre, é um bom bocado.
Era este um dos grandes gozos de Amaro - ouvir gabar aos colegas a beleza de Amélia, que era chamada entre o clero "a flor das devotas". Todos lhe invejavam aquela confessada. Por isso insistia muito com ela em que se ajanotasse aos domingos, à missa; zangara-se mesmo ultimamente de a ver quase sempre entrouxada num vestido de merino escuro, que lhe dava um ar de velha penitente.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. O Crime do Padre Amaro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1791 . Acesso em: 29 jun. 2026.