Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Portuguesa

Os Maias

Por Eça de Queirós (1888)

E subitamente houve uma surpreza: em quanto elles tiravam os bilhetes, os cavallos tinham partido, passavam juntos diante da tribuna. Todos se ergueram, de binoculos na mão. O starter ainda estava na pista, com a bandeira vermelha inclinada ao chão: e as ancas de cavallos fugiam na curva, lustrosos á luz, sob as jaquetas enfunadas dos jockeys.

Então todo o rumor de vozes caíu; e no silencio a bella tarde pareceu alargar-se em redor, mais suave e mais calma. Atravez do ar sem poeira, sem a vibração dos raios fortes, tudo tomava uma nitidez delicada: defronte da tribuna, na collina, a relva era d'um louro

quente: no grupo de carruagens scintillava por vezes o vidro de uma lanterna, o metal de um arreio, ou de pé, sobre uma almofada, destacava em escuro alguma figura de chapeo alto; e pela pista verde, os cavallos corriam, mais pequenos, finamente recortados na luz.

Ao fundo, a cal das casas cobria-se de uma leve agoada côr de rosa: e o distante horizonte resplandecia, com dourados de sol, brilhos de po vidrado, fundindo-se n'uma nevoa luminosa, onde as collinas, nos seus tons azulados, tinham quasi transparencia, como feitas d'uma substancia preciosa...

- É Rabbino! exclamou por traz de Carlos, um sugeito, de pé n'um degrau.

As côres encarnadas e brancas do Darque corriam com effeito na frente. Os dous outros cavallos iam juntos; e, o ultimo, n'um galope que adormecia, era Vladimiro, outro potro do Darque, baio-claro, quasi louro á luz.

Então, a secretaria da Russia bateu as palmas, interpellou Carlos, que justamente tirara na poule o numero de Vladimiro. A ella coubera Minhoto, uma pileca melancolica do Manoel Godinho; e tinham feito sobre os dous cavallos uma aposta complicada de uvas e

de amendoas. Já umas poucas de vezes os seus lindos olhos garços tinham procurado os de Carlos; e agora tocava-lhe no braço com o leque, gracejava, triumphava...

- Ah, vous avez perdu, vous avez perdu! Mais c'est un vieux cheval de fiacre, vôtre Vladimir.

Como um cavallo de fiacre? Vladimiro era o melhor potro do Darque! Talvez ainda viesse a ser a unica gloria de Portugal, como outr'ora o Gladiador era a unica gloria da França! Talvez ainda substituisse Camões...

- Ah, vous plaisantez...

Não, Carlos não gracejava. Estava até prompto a apostar tudo por Vladimiro.

- Você aposta por Vladimiro? gritou Telles da Gama, voltando-se vivamente.

Carlos, por divertimento, sem mesmo saber por quê, declarou que tomava Vladimiro. Então, em roda, foi uma surpreza; e todo o mundo quiz apostar, aproveitar-se d'aquella phantasia de homem rico, que sustentava um potro verde, de tres quartos de sangue, a que

o proprio Darque chamava pileca. Elle sorria, aceitava; terminou ate por erguer a voz, proclamar Vladimiro contra o campo. E de todos os lados o chamavam, n'uma sofreguidão de saque.

- Mr. de Maia, dix tostons.

- Parfaitement, madame.

- Oh Maia, você quer meia libra?

- Ás ordens.

- Maia, tambem eu! Ouça lá... Tambem eu!... Dous mil réis.

- Ó sr. Maia, eu vou dez tostões...

- Com o maior prazer, minha senhora...

Ao longe os cavallos davam a volta, na subida do terreno. Rabbino já desapparecera, - e Vladimiro n'um galope a que se sentia o cançasso, corria só na pista. Uma voz elevou-se, dizendo que elle manquejava. Então Carlos, que continuava a tomar Vladimiro contra o campo, sentiu que lhe puxavam de vagar pela manga; voltou-se; era o secretario de Steinbroken, chegando subtilmente a tomar tambem parte no saque á bolsa do Maia, propondo dous soberanos, em seu nome e em nome do seu chefe, como uma aposta collectiva da legação, a aposta do reino da Filandia.

- C'est fait, monsieur! exclamou Carlos, rindo.

Agora começava a divertir-se. Apenas vira de relance Vladimiro, e gostara da cabeça ligeira do potro, do seu peito largo e fundo; mas apostava sobre tudo para animar mais aquelle recanto da tribuna, ver brilhar gulosamente os olhos interesseiros das mulheres. Telles da Gama ao lado approvava-o, achava aquillo patriotico e chic.

- É Minhoto! gritou de repente Taveira.

Na volta, com effeito, fizera-se uma mudança. Subitamente Rabbino perdera terreno, resistindo á subida, com o folego curto. E agora era Minhoto, o cavallicoque obscuro de Manuel Godinho, que se arremessava para a frente, vinha devorando a pista, n'um esforço continuo, admiravelmente montado por um jockey hespanhol. E logo atraz vinham as côres escarlates e brancas de Darque: ao principio ainda pareceu que era Rabbino: mas, apanhado de repente n'um raio obliquo de sol, o cavallo cobriu-se de tons lustrosos de baio claro, e foi uma surpreza ao reconhecer-se que era Vladimiro! A corrida travava-se entre elle e Minhoto. Os amigos de Godinho, precipitando-se para a pista, bradavam, de chapéos no ar:

- Minhoto, Minhoto!

E, em redor de Carlos, os que tinham apostado pelo campo contra Vladimiro faziam tambem votos por Minhoto, em bicos de pés, junto do parapeito da tribuna, estendendo o braço para elle, enimando-o:

- Anda Minhoto!... Isso, assim!.... Aguenta, rapaz!... Bravo!... Minhoto! Minhoto!

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...121122123124125...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →