Por Eça de Queirós (1878)
- Apanhou-me a carta, não sei como, por um descuido meu! Ao princípio pediu-me seiscentosmil réis. Depois começou a martirizar-me... Tive de lhe dar vestidos, roupa, tudo! Mudou de quarto, servia-se dos meus lençóis, dos finos. Era a dona da casa. O serviço quem o faz sou eu!... Ameaça-me todos os dias; é um monstro. Tudo tem sido baldado, boas palavras, bons modos... E onde tenho eu dinheiro? Pois não é verdade? Ela bem via... O que eu tenho sofrido! Dizem que estou mais magra, até o Sebastião reparou. A minha vida é um inferno. Se Jorge soubesse!... Aquela infame queria hoje dizer-lhe tudo!... E trabalho como uma negra. Logo pela manhã a limpar e varrer. Às vezes tenho de lavar as xícaras do almoço. Tenha piedade de mim, Sebastião, por quem é, Sebastião! Coitada de mim, não tenho ninguém neste mundo!
E chorava, com as mãos sobre o rosto.
Sebastião, calado, mordia o beiço; duas lágrimas rolavam-lhe também pela
face, sobre a barba. E levantando-se, devagar:
- Mas Santo nome de Deus, minha senhora! Por que não me disse há mais tempo?
- Ó Sebastião, podia lá! Uma vez estive pra lho dizer... Mas não pude, não pude!
- Fez mal...
- Esta manhã o Jorge quis pô-la fora. Embirra com ela, percebe os desmazelos. Mas nãodesconfia de nada, Sebastião!... - E desviou os olhos, muito escarlate. - Escarnecia-me às vezes por eu parecer tão apaixonada por ela... Mas esta manhã zangou-se, mandou-a embora. Apenas ele saiu, veio como uma fúria, insultou-me...
- Santo Deus! - murmurava Sebastião assombrado, com a mão sobre a testa.
- Talvez não acredite, Sebastião, sou eu que faço os despejos!...
- Mas merece a morte, esta infame! - exclamou batendo com o pé no chão.
Deu alguns passos pesados pela sala, devagar, as mãos nos bolsos, os seus largos ombros curvados. Voltou a sentar-se ao pé dela, e tocando-lhe timidamente no braço, muito baixo:
- É necessário tirar-lhe as cartas...
- Mas como?
Sebastião coçava a barba, a testa.
- Há de se arranjar - disse, por fim.
Ela agarrou-lhe a mão:
- Oh, Sebastião, se fizesse isso!
- Há de se arranjar.
Esteve um momento calculando - e com o seu tom grave:
- Eu vou-me entender com ela... É necessário que ela esteja só em casa... Podiam ir ao teatro,esta noite.
Levantou-se lentamente, foi buscar o Jornal do Comércio sobre a mesa, olhou os anúncios:
- Podiam ir a São Carlos, que acaba mais tarde... É o Fausto... Podiam ir ver o Fausto...
- Podíamos ir ver o Fausto... - repetiu Luísa, suspirando.
E então, muito chegados, ao canto do sofá, Sebastião foi-lhe dizendo um plano, em palavras baixas, que ela devorava, ansiosa.
Devia escrever a D. Felicidade, para a acompanhar ao teatro... Mandar um recado a Jorge, prevenindo-o que o iriam buscar ao Hotel Gibraltar... E a Joana? A Joana deixara a casa. Bem. Às nove horas, então. Juliana estaria só.
- Vê como tudo se arranja? - disse ele, sorrindo.
Era verdade... Mas daria a mulher as cartas?
Sebastião tornou a coçar a barba, a testa:
- Há de dar - disse.
Luísa olhava-o quase com ternura: parecia-lhe ver, na sua face honesta, uma alta beleza moral. E de pé diante dele, com uma melancolia na voz:
- E vai fazer isso por mim, Sebastião, por mim, que fui tão má mulher...
Sebastião corou, respondeu encolhendo os ombros:
- Não há más mulheres, minha rica senhora, há maus homens, é o que há!
E acrescentou logo:
- Eu vou buscar o camarote. Uma boa frisa, hem?... Uma frisazinha ao pé do palco...
Sorria para a tranqüilizar. Ela punha o chapéu, descia o véu com pequeninos soluços tristes, que voltavam a espaços.
No corredor encontraram a tia Joana com os braços abertos: beijou muito Luísa; aquela visita era um milagre! E que bonita que estava! Era a flor do bairro!
- Está bom, tia Joana, está bom - disse Sebastião, afastando-a brandamente.
Ora que não fosse metediço! Já lá a tinha tido mais de meia hora, também ela agora a queria um bocadinho! Assim é que ele devia ter uma mulherzinha! Uma rapariga de bem! Uma açucena!
Luísa corava, embaraçada.
E o Sr. Jorge? Que era feito dele? Ninguém o via. E a D. Felicidade?
- Está bom, basta, tia Joana! - fez Sebastião impaciente.
- Olha o sôfrego!... Ninguém lhe come a menina!... Cruzes!...
Luísa sorriu; lembrou-se então de repente que não tinha por quem mandar os bilhetes a D. Felicidade e a Jorge, ao hotel. Sebastião fê-la entrar logo embaixo no escritório: que escrevesse, ele os mandaria; escolheu-lhe o papel, molhando-lhe a pena - mais pronto, mais dedicado desde que a sabia infeliz. Luísa fez o bilhete para Jorge; e como apesar das suas aflições, se lembrou com terror de certo vestido verde decotado de D. Felicidade, acrescentou num P.S., no bilhete para ela: "o melhor é vires de preto, e não fazeres grande toalete. Nada de decotes nem de cores claras".
Quando entrou em casa, viu um galego saindo com a trouxazita de Joana. E logo no corredor sentiu a voz grossa da rapariga, que das escadas da cozinha dizia para cima, ameaçadoramente:
- Torne eu a apanhá-la, que não me sai viva das mãos, sua bêbeda!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. O Primo Basílio. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7530 . Acesso em: 29 jun. 2026.