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#Romances#Literatura Portuguesa

O crime do Padre Amaro

Por Eça de Queirós (1875)

- Diga-me uma coisa. O que é que o senhor tem com isso?

O cônego pulou.

- O que tenho? o que tenho? Pois o senhor ainda me fala nesse tom? O que tenho é que vou daqui imediatamente dar parte de tudo ao senhor vigário-geral!

O padre Amaro, lívido, foi para ele com o punho fechado:

- Ah, seu maroto!

- Que é lá? que é lá? exclamou o cônego de guarda-sol erguido. Você quer-me pôr as mãos?

O padre Amaro conteve-se; passou a mão sobre a testa em suor, com os olhos cerrados; e depois de um momento, falando com uma serenidade forçada:

- Ouça lá, Sr. cônego Dias. Olhe que eu vi-o ao senhor uma vez na cama com a S. Joaneira...

- Mente! mugiu o cônego.

- Vi, vi, vi! afirmou o outro com furor. Uma noite ao entrar em casa... O senhor estava em mangas de camisa, ela tinha-se erguido, estava a apertar o colete. Até o senhor perguntou: "Quem está aí?". Vi, como estou a vê-lo agora. O senhor a dizer uma palavra, e eu a provar-lhe que o senhor vive há dez anos amigado com a S. Joaneira( à face de todo o clero! Ora aí tem!

O cônego, já antes esfalfado dos excessos do seu furor, ficou agora, àquelas palavras, como um boi atordoado. Só pôde dizer daí a pouco, muito murcho:

- Que traste você me sai!

O padre Amaro então, quase tranqüilo, certo do silêncio do cônego, disse com bonomia:

- Traste por quê? Diga-me lá! Traste por quê? Temos ambos culpas no cartório, eis aí está. E olhe que eu não fui perguntar, nem peitar a Totó... Foi muito naturalmente ao entrar em casa. E se me vem agora com coisas de moral, isso faz-me rir. A moral é para a escola e para o sermão. Cá na vida eu faço isto, o senhor faz aquilo, os outros fazem o que podem. O padre-mestre que já tem idade agarra-se à velha, eu que sou novo arranjo-me com a pequena. É triste, mas que quer? É a natureza que manda. Somos homens. E como sacerdotes, para honra da classe, o que temos é fazer costas!

O cônego escutava-o, bamboleando a cabeça, na aceitação muda daquelas verdades. Tinha-se deixado cair numa cadeira, a descansar de tanta cólera inútil; e erguendo os olhos para Amaro:

- Mas você, homem, no começo da carreira!

- E você, padre-mestre, no fim da carreira!

Então riram ambos. Imediatamente cada um declarou retirar as palavras ofensivas que tinham dito; e apertaram-se gravemente a mão. Depois conversaram.

O cônego, o que o tinha enfurecido era ser lá com a pequena da casa. Se fosse com outra... até estimava! Mas a Ameliazinha!... Se a pobre mãe viesse a saber, estourava de desgosto.

- Mas a mãe escusa de saber! exclamou Amaro. Isto é entre nós, padre-mestre! Isto é segredo de morte! Nem a mãe sabe de nada, nem eu mesmo digo à pequena o que se passou hoje entre nós. As coisas ficam como estavam, e o mundo continua a rolar... Mas você, padre-mestre, tenha cuidado!... Nem uma palavra à S. Joaneira... Que não haja agora traição!

O cônego, com a mão sobre o peito, deu gravemente a sua palavra de honra de cavalheiro e de sacerdote que aquele segredo ficava para sempre sepultado no seu coração.

Então apertaram ainda uma outra vez afetuosamente a mão.

Mas a torre gemeu as três badaladas. Era a hora de jantar do cônego.

E ao sair, batendo nas costas de Amaro, fazendo luzir um olho de entendedor:

- Pois seu velhaco, tem dedo!

- Que quer você? Que diabo... Começa-se por brincadeira...

- Homem! disse o cônego sentenciosamente, é o que a gente leva de melhor deste mundo. - É verdade, padre-mestre, é verdade! É o que a gente leva de melhor deste mundo.

•••

Desde esse dia Amaro gozou uma completa tranqüilidade de alma. Até aí incomodava-o, por vezes, a idéia de que correspondera ingratamente à confiança, aos carinhos que lhe tinham prodigalizado na Rua da Misericórdia. Mas a tácita aprovação do cônego viera tirar-lhe, como ele dizia, aquele espinho da consciência. Porque enfim, o chefe de família, o cavalheiro respeitável, o cabeça - era o cônego. A S. Joaneira era apenas uma concubina... E Amaro mesmo, às vezes agora, em tom de galhofa, tratava o Dias de seu caro sogro.

Outra circunstância viera alegrá-lo: a Totó adoecera de repente: o dia seguinte ao da visita do cônego, passara-o soltando golfadas de sangue: o doutor Cardoso, chamado à pressa, falara de tísica galopante, questão de semanas, caso decidido...

- É destas, meu amigo, tinha ele dito, que é trás... trás... - era a sua maneira de pintar a morte, que, quando tem pressa, conclui o seu trabalho com uma fouçada aqui, outra além.

As manhãs na casa do tio Esguelhas eram agora tranqüilas. Amélia e o pároco já não entravam em pontas de pés, tentando esgueirar-se para o prazer, despercebidos da Totó. Batiam com as portas, palravam forte, certos que a Totó estava bem prostrada de febre, sob os lençóis úmidos dos suores constantes. Mas Amélia, por escrúpulo, não deixava de rezar todas as noites uma Salve-Rainha pelas melhoras da Totó. Às vezes mesmo ao despir-se, no quarto do sineiro, parava de repente, e fazendo um rostinho triste:

- Ai, filho! Até me parece pecado, nós aqui a gozarmos, e a pobre pequena lá embaixo a lutar com a morte...

(continua...)

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