Por Eça de Queirós (1878)
Joana, vá-se pelo amor de Deus, vá-se! Não diga nada! Despeça-se você! - E perdendo inteiramente todo o respeito próprio, caiu de joelhos, diante da cozinheira, soluçando: - Pelas cinco chagas de Cristo, vá, Joana, minha rica vá! Peço-lhe eu, Joana! Pelo amor de Deus!
A rapariga, assombrada, rompeu num choro estridente:
- Vou, sim, minha senhora!...Vou, sim, minha rica senhora!...
- Sim, Joana, sim. Eu dou-lhe alguma coisa. Você bem vê... Não chore... Espere...
Desceu ao quarto correndo, tirou da gaveta duas libras das suas economias, voltou, galgando os degraus, meteu-lhas na mão, dizendo-lhe baixo:
- Faça uma trouxa, eu amanhã lhe mandarei o baú.
- Sim, minha senhora, - soluçava a rapariga, babada de dor - sim, minha rica senhora!
Luísa veio deixar-se cair de bruços sobre a sua chaise longue, num choro convulsivo também, desejando a morte, pedindo, num terror, piedade a Deus!
Mas a voz áspera de Juliana disse bruscamente à porta:
- Então em que ficamos?
A Joana vai-se. Que quer mais?
- Que saia já! disse a outra imperiosamente. - Que o jantar o faço eu. Por hoje, já se vê!
As lágrimas de Luísa secavam-se, de raiva.
- E a senhora agora ouça!
O tom de Juliana era tão insultante, que Luísa ergueu-se como ferida.
E Juliana, ameaçando-a, do alto, com o dedo erguido:
- E a senhora agora é andar-me direita, senão eu lhas cantarei!...
E voltou as costas, batendo os tacões.
Luísa olhou em roda, como se um raio tivesse atravessado o quarto; mas tudo estava imóvel e correto; nem uma prega das cortinas se movera, e os dois pastorinhos de porcelana sobre o toucador sorriam pretensiosamente.
Então tirou o roupão violentamente, passou um vestido sem apertar o corpete, vestiu por cima um casaco largo de inverno, atirou o chapéu para a cabeça despenteada, saiu, desceu a rua tropeçando nas saias, quase a correr.
O Paula saltou para o meio da rua para a seguir; viu-a parar à porta de Sebastião, e veio dizer à estanqueira:
- Em casa do Engenheiro há novidade!
E ficou plantado à porta com os olhos cravados para as janelas abertas, onde as bambinelas de repes verdes caiam com as suas pregas imóveis.
- O Sr. Sebastião? - perguntava Luísa à rapariguita sardenta, que correra a abrir a porta.
E ia entrando pelo corredor.
- Na sala - disse a pequena.
Luísa subiu; sentia sons de piano; abriu violentamente a porta e correndo para ele, apertando as mãos contra o peito, numa voz angustiosa e sumida:
- Sebastião, escrevi uma carta a um homem, a Juliana apanhou-ma. Estou perdida!
Ele ergueu-se devagar, assombrado, muito branco; viu-lhe o rosto manchado, o chapéu malposto, a aflição do olhar.
- Que é? Que é?
- Escrevi a meu primo - repetiu, com os olhos cravados nele, ansiosamente - a mulher apanhoume a carta... Estou perdida!
Fez-se muito pálida, os olhos cerraram-se-lhe.
Sebastião amparou-a, levou-a meio desmaiada para o sofá de damasco amarelo. E ficou de pé, mais descorado que ela, com as mãos nos bolsos do seu jaquetão azul, imóvel, estúpido.
De repente correu fora, trouxe um copo de água, borrifou-lhe o rosto ao acaso. Ela abriu os olhos, as suas mãos errantes apalparam em redor, fitou-o espantada, e deixando-se cair sobre o braço do canapé, com o rosto escondido nas mãos, rompeu num choro histérico.
O seu chapéu caíra. Sebastião apanhou-o, sacudiu-lhe delicadamente as flores, pô-lo sobre a jardineira com cuidado; e vindo nas pontas dos pés debruçar-se junto dela:
- Então! Então! - murmurava. E as suas mãos, tocando-lhe de leve o braço, tremiam comofolhas.
Quis dar-lhe água para a sossegar: ela recusou com a mão, endireitou-se devagar no sofá, limpando os olhos, assoando-se com grandes soluços.
- Desculpe, Sebastião, desculpe - dizia. Bebeu então um gole de água, ficou com as mãos noregaço, quebrada; e, uma a uma, as suas lágrimas silenciosas caíam sem cessar.
Sebastião foi fechar a porta - e vindo ao pé dela com muita doçura:
- Mas então? Que foi?
Ela ergueu para ele a sua face chorosa, onde os olhos brilhavam febrilmente, olhou-o um momento, e deixando pender a cabeça, toda humilhada:
- Uma desgraça, Sebastião, uma vergonha! - murmurou.
- Não se aflija! Não se aflija!
Sentou-se ao pé dela, e baixo, com solenidade:
- Tudo o que eu puder, tudo o que for necessário, aqui me tem!
- Oh, Sebastião!... - exclamou num impulso de reconhecimento humilde; e acrescentou: Acredite, tenho sido bem castigada! O que eu tenho sofrido, Sebastião!
Esteve um momento com os olhos cravados no chão; e agarrando-lhe o braço de repente, com força, as palavras romperam abundantes e precipitadas, como os borbulhões de uma água comprimida que rebenta.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. O Primo Basílio. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7530 . Acesso em: 29 jun. 2026.