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#Romances#Literatura Portuguesa

O crime do Padre Amaro

Por Eça de Queirós (1875)

- E depois não tem o colega notado que é uma coisa que só sucede às mulheres? É só a elas, cuja malícia é tão grande que o próprio Salomão não lhes pôde resistir, cujo temperamento é tão nervoso, tão contraditório, que os médicos não as compreendem. É só a elas que sucedem prodígios!... O colega já ouviu de ter aparecido a nossa Santa Virgem a um respeitável tabelião? Já ouviu dum digno juiz de direito possuído do espírito maligno? Não. Isto faz refletir... E eu concluo que é malícia nelas, ilusão, imaginação, doença, etc... Não lhe parece? A minha regra nesses casos é ver tudo isso de alto e com muita indiferença.

Mas o cônego, que vigiava a porta, brandiu subitamente o guarda-sol, fazendo pari o largo:

- Pst, pst! Eh lá!

Era Amélia que passava. Parou logo, contrariada daquele encontro que a ia ainda retardar mais. E já o senhor pároco devia estar desesperado...

- De modo que, disse o cônego à porta abrindo o seu guarda-sol, você, abade, em lhe cheirando a prodígio...

- Suspeito logo escândalo.

O cônego contemplou-o um momento, com respeito:

- Você, Ferrão, é capaz de dar quinaus a Salomão em prudência!

- Oh, colega! oh, colega! exclamou o abade, ofendido com aquela injustiça feita à incomparável sabedoria de Salomão.

- Ao próprio Salomão! afirmou ainda o cônego da rua.

Tinha preparado uma história hábil para justificar a sua visita à paralítica; mas durante a sua conversação com o abade ela escapara-lhe, como tudo o que deixava um momento nos reservatórios da memória; e foi sem transição que disse simplesmente a Amélia:

- Vamos lá, também quero ir ver essa Totó!

Amélia ficou petrificada. E o senhor pároco, naturalmente, já lá estava! Mas a sua madrinha Nossa Senhora das Dores, que ela invocou logo naquela aflição, não a deixou enleada no embaraço. - E o cônego, que caminhava ao lado dela, ficou surpreendido ouvindo-lhe dizer com um risinho:

- Viva, hoje é o dia das visitas à Totó! O senhor pároco disse-me que também talvez hoje aparecesse por lá... Talvez lá esteja até.

- Ah! O amigo pároco também? Está bom, está bom. Faremos uma consulta à Totó!

Amélia então, contente de sua malícia, tagarelou sobre a Totó. O senhor cônego ia ver... Era uma criatura incompreensível... Ultimamente, ela não tinha querido contar em casa, mas a Totó tomara-lhe birra... E dizia coisas, tinha um modo de falar de cães e de animais, de arrepiar!... Ai, era um encargo que já lhe pesava... Que a rapariga não lhe escutava as lições, nem as orações, nem os conselhos... Era uma fera!

- O cheiro é desagradável! rosnou o cônego, entrando.

Que queria! A rapariga era uma porca, não havia tê-la arranjado. O pai, esse, um desleixado também...

- É aqui, senhor cônego, disse, abrindo a porta da alcova - que, agora, em obediência às ordens do senhor pároco, o tio Esguelhas deixava sempre fechada.

Encontraram a Totó meio erguida sobre a cama, com a face acesa numa curiosidade, àquela voz do cônego que não conhecia.

- Ora viva lá a Sra. Totó! disse ele da porta, sem se aproximar.

- Vá, cumprimenta o senhor cônego, disse Amélia, começando logo, com uma caridade desacostumada, a compor a roupa da cama, a arrumar a alcova. Dize-lhe como estás... Não te faças amuada!

Mas a Totó permaneceu tão muda como a imagem de S. Bento que tinha à cabeceira, examinando muito aquele sacerdote tão gordo, tão grisalho, tão diferente do senhor pároco... E os seus olhos, mais brilhantes todos os dias à medida que se lhe cavavam as faces, iam, como de costume, do homem para Amélia, numa ansiedade de perceber por que o trazia ela ali, àquele velho obeso, e se ia também subir com ele para o quarto.

Amélia agora tremia. Se o senhor pároco entrasse, e ali, diante do cônego, a Totó, tomada do seu frenesi, rompesse aos gritos, tratando-os de cães!... Com o pretexto de dar uma arrumadela, foi à cozinha vigiar o pátio. Faria um sinal da janela, apenas Amaro aparecesse.

E o cônego, só na alcova da Totó, preparando-se para começar as suas observações, ia perguntarlhe quantas eram as pessoas da Santíssima Trindade, - quando ela, adiantando a face, lhe disse numa voz sutil como um sopro:

- E o outro?

O cônego não compreendeu. Que falasse alto! Que era?

- O outro, o que vem com ela!

O cônego chegou-se, com a orelha dilatada de curiosidade:

- Que outro?

- O bonito. O que vai com ela para o quarto. O que a belisca...

Mas Amélia entrava; e a paralítica calou-se logo, repousada, com os olhos cerrados e respirando regaladamente, como num alívio repentino de todo o seu sofrimento. O cônego, esse, imobilizado de assombro, permanecia na mesma postura, dobrado sobre a cama como para auscultar a Totó. Ergueu-se por fim, soprou como numa calma de agosto, sorveu de espaço uma pitada forte; e ficou com a caixa aberta entre os dedos, os olhos muito vermelhos cravados na colcha da Totó.

- Então, senhor cônego, que lhe parece cá a minha doente? perguntou Amélia.

Ele respondeu, sem a olhar:

- Sim senhor, muito bem... Vai bem... É esquisita... Pois é andar, é andar... Adeus...

(continua...)

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