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#Romances#Literatura Portuguesa

A ilustre Casa de Ramires

Por Eça de Queirós (1900)

Subitamente a um brado de D. Garcia, que rondava, toda a chusma de peões amontoada em torno ao Bastardo se arredou: e o forte corpo apareceu, nu e branco, sobre a terra negra, com um denso pêlo ruivo nos peitos, a sua virilidade afogada noutra mata de pêlo ruivo, e todo ligado por cordas de cânave que o inteiriçavam. Naquela rigidez de fardo, nem as costelas arfavam apenas os olhos refulgiam, ensangüentados, horrendamente esbugalhados pelo espanto e pelo furor. Alguns Cavaleiros correram a mirar a aviltada nudez do homem famoso de Baião. O senhor dos Paços de Argelim mofou, com estrondo:

- Bem o sabia, por Deus! Corpo de manceba, sem costura de ferida!...

Leonel de Samora raspou o sapato de ferro pelo ombro do malfadado:

- Vede este Claro-Sol, tão claro, que se apaga agora, em água tão negra!

O Bastardo cerrava duramente as pálpebras - donde duas grossas lágrimas escaparam, lentamente rolaram... Mas um agudo pregão ressoou pela ribanceira:

- Justiça! Justiça!

Era o Adail de Santa Irenéia, que marchava, sacudia uma lança, atroava os cerros:

- Justiça! justiça que manda fazer o senhor de Treixedo e de Santa Irenéia, num perromatador!... Justiça num perro, filho de perra, que matou vilmente, e assim morra vilmente por ela!...

Três vezes pregoou por diante da hoste apinhada nos cerros. Depois quedou, saudou humildemente Tructesindo Ramires, o velho Castro, como ajulgadores no seu Estrado de julgamento.

- Aviai, aviai! - bradava o Senhor de Santa Irenéia.

Imediatamente, a um comando do Sabedor, seis besteiros, com as pernas embrulhadas em mantas da carga, ergueram o corpo do Bastardo como se ergue um morto enrolado no seu lençol, e com ele entraram na água, até o mais alto pilar de granito. Outros, arrastando molhos de cordas, correram pelo limoso passadiço de traves. Com um alarido de agüenta! endireita! alça! num desesperado esforço o robusto corpo branco foi mergulhado n'água até as virilhas, arrimado ao mais alto pilar, depois nele atado com um longo calabre que, passando pela argola de ferro, o suspendia, sem escorregar, tão seguro e colado como um rolo de vela que se amarra ao mastro. Rapidamente os besteiros fugiram d'água, desentrapando logo as pernas, que palpavam, raspavam no horror das bichas sugadoras. Os outros recolheram pelo passadiço, numa fila que se empurrava. No Pego ficava Lopo de Baião bem arranjado para a vistosa morte lenta, com a água que já o afogava até as pernas, com cordas que o enroscavam até o pescoço, como a um escravo no poste; e uma espessa mecha dos cabelos louros laçada na argola de ferro, repuxando a face clara, para que todos nela gozassem largamente a humilhada agonia do Claro-Sol.

Então o atento da hoste, esperando espalhada pelos recostos dos cerros, mais entristeceu o enevoado silêncio do ermo. A água jazia sem um arrepio, com as suas manchas, negras como uma lâmina de estanho enferrujado. Entre as cristas das rochas, arqueiros postados pelo Sabedor atalaiavam, para além, os descampados. Um alto vôo de gralha atravessou grasnando. Depois um bafo lento agitou as flâmulas das lanças cravadas no tojo denso.

Para despertar, aviar a lentidão das bichas, alguns peões atiravam pedras à água lodosa. Já alguns Cavaleiros espanhóis rosnavam impacientes com a delonga, naquela cova abafada. Outros, descendo agachados à borda da lagoa, para mostrar que as faladas bichas nunca acudiriam, mergulhavam lentamente, n'água negra, as mãos descalçadas, que depois sacudiam, rindo e mofando do Sabedor... Mas de repente um estremeção sacudiu o corpo do Bastardo; os seus rijos músculos, no furioso esforço de se desprenderem, inchavam entre as cordas, como cobras que se arqueiam; dos beiços arreganhados romperam, em rugidos, em grunhidos, ultrajes e ameaças contra Tructesindo covarde, e contra toda a raça de Ramires, que ele emprazava, dentro do ano, para as labaredas do Inferno! Indignado, um Cavaleiro de Santa Irenéia agarrou uma besta de garrunche, a que retesou a corda.

Mas D. Garcia deteve o arremesso:

- Por Deus, amigo! Não roubeis às sanguessugas nem uma pinga daquele sangue fresco!... Vede como vêm! vede como vêm!

Na água espessa, em torno às coxas mergulhadas do Bastardo, um frêmito corria, grossas bolhas empolavam - e delas, molemente, uma bicha surdiu, depois outra e outra, luzidias e negras, que ondulavam, se colavam à branca pele do ventre, donde pendiam, chupando, logo engrossadas, mais lustrosas como lento sangue que já escorria. O Bastardo emudecera - e os seus dentes batiam estridentemente. Enojados, até rudes peões desviaram a face cuspindo para as urzes. Outros, porém, chasqueavam, assuavam as bichas, gritando: - a ele, donzelas! a ele! E o gentil Çamora de Cendufe clamava rindo contra tão insossa morte! Por Deus! Uma apostura de bichas, como a enfermo de almorreimas. Nem era sentença de Rico-homem - mas receita de herbanista mouro!

(continua...)

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