Por Eça de Queirós (1878)
- Você por que não pôs a mesa, Joana, se a outra saiu?
Mas a rapariga não ouvira sair a Sra. Juliana! Imaginara que estava para baixo, para sala! Como ela agora é que queria fazer tudo!...
Quando Joana trouxe o almoço daí a pouco Jorge veio sentar-se à mesa, torcendo muito nervosamente o bigode. Levantou-se duas vezes com um sorriso mudo para ir buscar uma colher, o açucareiro. Luísa via-lhe os músculos da face contraídos: mal podia comer, atarantada; a chávena, quando a erguia, tremia-lhe mão; com os olhos baixos espreitava Jorge às furtadelas, e o seu silêncio torturava-a.
- Tu falaste ontem que ias jantar fora hoje...
- Vou - disse secamente. E acrescentou: - Graças a Deus!
- Estás de bom humor!... - murmurou ela.
- Como vês!
Luísa fez-se pálida, pousou o talher; tomou o jornal para disfarçar uma lagrimazinha que lhe tremia na pálpebra; mas as letras confundiam-se, sentia pular o coração. De repente a campainha tocou. Era a outra, decerto!
Jorge, que se ia erguer, disse logo:
- Há de ser essa senhora. Ora, vou-lhe dizer duas palavras...
E ficou de pé, junto à mesa, aguçando devagar um palito.
Luísa, a tremer, levantou-se também:
- Eu vou-lhe falar...
Jorge reteve-a pelo braço, e tranqüilamente:
- Não, deixa-a vir. Deixa-me gozar!...
Luísa recaiu na cadeira, muito pálida.
Os tacões de Juliana soaram no corredor. Jorge aguçava tranqüilamente o seu palito.
Luísa então voltou-se para ele, e batendo as mãos, aflita:
- Não lhe digas nada!...
Ele fixou-a, assombrado:
- Por quê?
Juliana neste momento abriu o reposteiro.
- Então que desaforo é este, sair e deixar tudo por arrumar? - disse-lhe Luísa logo, erguendo-se.
Juliana, que vinha sorrindo, estacou à porta, petrificada: apesar de sua amarelidão, uma vaga cor de sangue espalhou-se nas feições.
- Não lhe torne acontecer semelhante coisa, ouviu? A sua obrigação é estar em casa pelamanhã... - Mas o olhar de Juliana, que se cravava nela terrivelmente, emudeceu-a. Agarrou no bule com as mãos trêmulas. - Deite água neste bule, vá!
Juliana não se mexeu.
- Você não ouviu? - berrou de repente Jorge. E atirou uma punhada à mesa, que fez saltar alouça.
- Jorge! - gritou Luísa, agarrando-lhe no braço.
Mas Juliana fugira da sala, correndo.
- E logo na rua! - exclamou Jorge. - Faze-lhe as contas e que se vá. Ah! Estou farto! Nem maisum dia! Se a tomo a ver, desfaço-a! Até que enfim! Chegou-me a minha vez!
Foi buscar o paletó, muito excitado, e antes de sair, voltando à sala:
- E que se vá hoje mesmo, ouviste? Nem uma hora a mais! Há quinze dias que a trago aquiatravessada. Para a rua!
Luísa veio para o quarto quase sem se poder suster. Estava perdida! Estava perdida! Uma multidão de idéias, todas extremas e insensatas, redemoinhava no seu cérebro como um montão de folhas secas numa ventania: queria fugir, atirar-se ao rio, de noite; arrependia-se de não ter cedido ao Castro... De repente imaginou Jorge abrindo as cartas que Juliana lhe entregava, lendo: "Meu adorado Basílio!" Então uma cobardia imensa, amoleceu-lhe a alma. Correu ao quarto de Juliana, ia suplicar-lhe que lhe perdoasse, que ficasse, que a martirizasse!... E depois? Diria que a Juliana chorara, se atirara de joelhos! Mentiria, cobri-lo-ia de beijos... Era nova, era bonita, era ardente - convencê-lo-ia!
Juliana não estava no quarto. Subiu à cozinha; estava lá, sentada, com os olhos chamejantes, os braços nervosamente cruzados, numa raiva muda. Apenas viu Luísa, deu um salto sobre os calhares, e mostrando-lhe o punho, berrou:
- Olhe que a primeira vez que você me torne a falar como hoje, vai aqui tudo raso nesta casa!
- Cale-se, sua infame! - gritou Luísa.
- Você manda-me calar, sua p...! - E Juliana disse a palavra.
Mas a Joana correu, atirou-lhe pelo queixo uma bofetada que a fez cair, com um gemido, sobre os joelhos.
- Mulher! - bradou Luísa arremessando-se sobre a Joana, agarrando-a pelos braços.
Juliana, assombrada, fugiu.
- Ó Joana! Ó mulher! Que desgraça, que escândalo! - exclamava Luísa as mãos apertadas nacabeça.
- Racho-a! - dizia a rapariga com os dentes cerrados, os olhos como brasas - Racho-a!
Luísa andava em volta da mesa da cozinha, automaticamente, pálida como repetindo, toda a tremer:
- O que você foi fazer, mulher! O que você foi fazer!
A Joana, ainda toda revolvida de sua cólera, com o rosto manchado de vermelho, remexia furiosamente as panelas.
- E se ela me diz uma palavra, acabo-a, aquela bêbeda! Acabo-a!
Luísa desceu ao quarto. No corredor saiu-lhe Juliana, com a cuia à banda, as dedadas escarlates na face, medonha.
- Ou aquela desavergonhada vai já para a rua - gritou ela - ou eu vou-me pôr lá embaixo naescada, e quando o seu homem vier, mostro-lhe tudo!...
- Pois mostre, faça o que quiser! - disse Luísa, passando, sem a olhar.
Fora uma desesperação, um ódio que a tinham decidido. Mais valia acabar por uma vez!...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. O Primo Basílio. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7530 . Acesso em: 29 jun. 2026.