Por Eça de Queirós (1875)
No fundo aquele encargo desagradava-lhe: era uma perturbação nos seus hábitos, toda uma manhã desarranjada; ia decerto fatigar-se, tendo de exercitar a sua sagacidade; além disso odiava o espetáculo de doenças e de todas as circunstâncias humanas relacionadas com a morte. Mas, enfim, fiel à sua promessa, daí a dias, na manhã em que fora prevenido que Amélia ia à Totó, arrastou-se contrariado para a botica do Carlos; e instalou- se, com um olho no Popular e outro na porta, à espera que a rapariga atravessasse para a Sé. O amigo Carlos estava ausente; o Sr. Augusto ocupava os seus vagares sentado à escrivaninha, de testa sobre o punho, relendo o seu Soares de Passos; fora, o sol já quente dos fins de abril fazia rebrilhar o lajeado do largo; não passava ninguém; e só quebravam o silêncio as marteladas nas obras do doutor Pereira. Amélia tardava. E o cônego, depois de ter considerado longo tempo, com o Popular caído nos joelhos, o medonho sacrifício que fazia pela sua velhota, ia cerrando as pálpebras, já tomado da quebreira, naquele repouso calado do meio-dia próximo - quando entrou na botica um eclesiástico.
- Oh, abade Ferrão, você pela cidade! exclamou o cônego Dias despertando do seu quebranto.
- De fugida, colega, de fugida, disse o outro colocando cuidadosamente sobre uma cadeira dois grossos volumes que trazia, amarrados num barbante.
Depois voltou-se e tirou, com respeito, o seu chapéu ao praticante.
Tinha o cabelo todo branco; devia passar já dos sessenta anos; mas era robusto, uma alegria bailava sempre nos seus olhinhos vivos, e tinha dentes magníficos a que uma saúde de granito conservava o esmalte; o que o desfigurava era um nariz enorme.
Informou-se logo com bondade se o amigo Dias estava ali de visita ou infelizmente por motivo de doença.
- Não, estou aqui à espera. Uma embaixada de truz, amigo Ferrão!
- Ah, fez o velho discretamente. - E enquanto tirava com método duma carteira atulhada de papéis a receita para o praticante, deu ao cônego notícias da freguesia. Era lá, nos Poiais, que o cônego tinha a fazenda, a Ricoça. O abade Ferrão passara de manhã diante da casa e ficara surpreendido vendo que lhe andavam a pintar a fachada. O amigo Dias tinha algumas idéias de ir lá passar o Verão?
Não, não tinha. Mas como trouxera obras dentro e a fachada estava uma vergonha, mandara-lhe dar uma mão de ocre. Enfim, era necessário alguma aparência, sobretudo numa casa que estava à beira da estrada, onde passava todos os dias o morgadelho dos Poiais, um parlapatão que imaginava que só ele tinha um palacete decente em dez léguas á roda... Só para meter ferro, àquele ateu! Pois não lhe parecia, amigo Ferrão?
O abade estava justamente lamentando consigo aquele sentimento de vaidade num sacerdote; mas, por caridade cristã, para não contrariar o colega, apressou-se a dizer:
- Está claro, está claro. A limpeza é a alegria das coisas...
O cônego então, vendo passar no largo uma saia e um mantelete, foi à porta afirmar-se se era Amélia. Não era. E voltando, retomado agora da sua preocupação, vendo que o praticante fora dentro ao laboratório, disse ao ouvido do Ferrão:
- Uma embaixada da fortuna! Vou ver uma endemoniada!
- Ah, fez o abade, todo sério à idéia daquela responsabilidade.
- Quer você vir comigo, abade? É aqui perto...
O abade desculpou-se polidamente. Viera falar ao senhor vigário-geral, fora depois ao Silvério para lhe pedir aqueles dois volumes, vinha ali aviar uma receita para um velho da freguesia, e tinha de estar de volta aos Poiais ao toque das duas horas.
O cônego insistiu; era um instante, e o caso parecia curioso...
O abade então confessou ao caro colega que eram coisas que não gostava de examinar. Aproximava-se sempre delas com um espírito rebelde à crença, com desconfianças e suspeitas que lhe diminuíram a imparcialidade.
- Mas enfim há prodígios! disse o cônego. - Apesar das suas próprias dúvidas, não gostava daquela hesitação do abade, a propósito dum fenômeno sobrenatural, em que ele, cônego Dias, estava interessado. Repetiu com secura: - Tenho alguma experiência, e sei que há prodígios.
- Decerto, decerto há prodígios, disse o abade. Negar que Deus ou a Rainha do Céu possa aparecer a uma criatura, é contra a doutrina da Igreja... Negar que o demônio possa habitar o corpo de um homem, seria estabelecer um erro funesto... Aconteceu a Jó, sem ir mais longe, e à família de Sara. Está claro, há prodígios. Mas que raríssimos que são, cônego Dias!
Calou-se um momento olhando o cônego, que tapava o nariz com rapé em silêncio - e continuou mais baixo, com o olho brilhante e fino:
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. O Crime do Padre Amaro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1791 . Acesso em: 29 jun. 2026.