Por Padre Antônio Vieira (1652)
Verdadeiramente, senhores, que quando considero no que aqui estamos vendo, não há coisa para mim no mundo tão temerosa, como o mesmo concurso e devoção desta casa, e ainda os mesmos milagres dela. Oh! se ouvíramos os brados que nos estão dando à consciência estas paredes! Queixam-se de nós com Deus, e queixam-se de nós conosco; e cada voto, cada milagre dos que aqui se vêem pendurados, é um brado, é um pregão do céu contra o nosso descuido. É possível (estão bradando estas paredes) é possível que faz tantos milagres Deus por nos dar a saúde e vida temporal, e que os homens não queiram fazer o que Deus lhes manda, sendo tão fácil, para alcançar a saúde espiritual e a vida eterna? É possível que esteja Deus empenhando toda a sua onipotência em vos dar a vida do corpo, e vós que estejais empregando todas as vossas potências em perder a vida da alma? Dizei-me em que empregais a vossa memória? Em que empregais o vosso entendimento? Em que empregais a vossa vontade, e todos os vossos sentidos, senão em coisas que vos apartam da salvação? É possível (tornam a bradar contra nós estas paredes, e a argumentar-nos a nós conosco mesmos) é possível que havemos de fazer tanto pela saúde e pela vida temporal, e que pela saúde da alma e pela vida eterna não queremos fazer coisa alguma? Se adoeceis, se estais em perigo, tanto acudir àqueles altares, tantos votos, tantas missas, tantas romarias, tantas novenas, tantas promessas, tantas ofertas: gaste-se o que se gastar, perca-se o que se perder, empenhe-se o que se empenhar; e pela saúde da alma, pela vida eterna, como se tal coisa não houvera, nem se crerá? Vede o que diz Santo Agostinho: Si tantum, ut aliquanto plus vivatur; quanto magis, ut sempre vivatur? Se tanto se faz para viver um pouco mais, quanto mais se deve fazer para viver sempre? – Pois desenganai-vos, que por mais que não façais caso da outra vida, ela há de durar eternamente, e por mais que façais tanto caso desta vida, ela há de acabar e em mui poucos dias. Uma vez escapareis da morte, e pendurareis a mortalha em Penha de França; mas alfim, há de vir dia em que a morte vos não há de perdoar, e em que vós não pendurareis a mortalha, mas ela vos leve à sepultura. Lázaro ressuscitou uma vez, valeu-lhe Maria, mas depois morreu alfim como os demais.
O que importa é tratar daquela vida que há de durar para sempre, e procurar sarar a alma, se está enferma, e sobretudo, ressuscitá-la, se está morta. Cristo, para ressuscitar, escolheu uma sepultura aberta em uma penha: ln monumento, quod erat excisum in petra (Mac. 15, 46), e ressuscitou ao terceiro dia. Tudo aqui temos: a penha, os três dias, e o ressuscitador: Ego sum ressurrectio et vita.20 Já que a alma está morta, sepulte-se naquela penha para que ressuscite. Ó alma infelizmente morta e felizmente sepultada: se ali sepultares de uma vez e para sempre tudo o que te mata! Tu ressuscitarás, e ressuscitarás, se quiseres, neste mesmo momento. Que felicidade a nossa, e que glória daquela Senhora e de seu sacramentado Filho, se todos os que hoje entraram em Penha de França mortos, saíssem ressuscitados! Não ama ao Filho, nem é verdadeiro devoto da Mãe, quem assim o não fizer. Não guardemos o ressuscitar para o terceiro dia, nem para o segundo, que não sabemos o dia nem a hora. Cristo ressuscitou ao terceiro dia, para provar a verdade da sua morte; os mortos que então ressuscitaram, ressuscitaram logo, e no primeiro momento dos três dias, para provar a eficácia da virtude de Cristo. Não é esta a matéria em que se hajam de perder momentos, porque pode ser que seja esta a última inspiração, e este aquele último momento de que pende a eternidade. Ouçam estas vozes do céu os que hoje aqui vieram surdos; abram os olhos e vejam seu perigo, os que vieram cegos; tornem por outro caminho e com outros passos, os que vieram mancos, e todos levem vivas e ressuscitadas as almas que trouxeram mortas, deixando em Penha de França, por memória deste dia, cada um a sua mortalha. Estes são os mais gloriosos troféus com que se podem ornar estas miraculosas paredes. E este o FINIS de maior louvor de Deus e de sua Mãe, com que devemos cerrar um e outro livro, pois é o fim que só nos há de levar à vida sem fim.
Baixar texto completo (.txt)Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 23 ago. 2026.