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#Romances#Literatura Portuguesa

O Conde d'Abranhos

Por Eça de Queirós (1925)

Como pode realmente o homem que todo o dia trabalhou no seu tear, e à noite, depois do caldo de couves, dormiu do sono brutal da fadiga física, participar do governo da coisa pública – como esse outro homem que conhece as línguas, tem os princípios da Introdução aos três remos, estudou o Direito Romano, se penetrou do Direito Canónico, leu os poetas do século, discutiu as leis no Parlamento, fez administração nas Secretarias?

Irrisão?

Outra vantagem da Universidade é a organização dos seus estudos. O Conde considerava-a admirável e a melhor garantia da Ideia Conservadora. E aqui copio textualmente o relatório que acompanha o seu notável Projecto de Reforma do Ensino:

«Têm alguns espíritos ávidos de inovação, ainda que no fundo sinceramente afeiçoados aos princípios conservadores, sustentado que o sistema da Sebenta (como na sua jovial linguagem lhe chama a mocidade estudiosa) é antiquado. Eu considero, porém, a Sebenta como a mais admirável disciplina para os espíritos moços. O estudante, habituando-se, durante cinco anos, a decorar todas as noites, palavra por palavra, parágrafos que há quarenta anos permanecem imutáveis, sem os criticar, sem os comentar, ganha o hábito salutar de aceitar sem discussão e com obediência as ideias preconcebidas, os princípios adoptados, os dogmas provados, as instituições reconhecidas. Perde a funesta tendência – que tanto mal produz – de querer indagar a razão das coisas, examinar a verdade dos factos; perde, enfim, o hábito deplorável de exercer o livre-exame, que não serve senão para ir fazer um processo científico a venerandas instituições, que são a base da sociedade. O livre-exame é o princípio da revolução. A ordem o que é? – A aceitação das ideias adoptadas. Se se acostuma a mocidade a não receber nenhuma ideia dos seus mestres sem verificar se é exacta, corre-se o perigo de a ver, mais tarde, não aceitar nenhuma instituição do seu país sem se certificar se é justa. Teríamos então o espírito da revolução, que termina pelas catástrofes sociais!

Hoje, destruído o regime absoluto, temos a feliz certeza de que a Carta liberal é justa, é sábia, é útil, é sã. Que necessidade há de a examinar, discutir, verificar, criticar, comparar, pôr em dúvida? O hábito de decorar a Sebenta produz mais tarde o hábito de aceitar a Carta. A Sebenta é a pedra angular da Carta! O Bacharel é o gérmen do.Constitucional.»

Conheço na filosofia contemporânea – sem mesmo exceptuar os livros dos Thiers, dos Guizots, dos Bastiats, dos Pagès – poucas páginas tão profundas. A frase é tersa, viril, nobre, bem ponderada; a argumentação é sã e cerrada, inexpugnável; a ideia tem a solenidade severa de um dogma. Nobre página! E pensar que aquele que a escreveu não escreverá outra, e repousa sob o pedestal da sua estátua, com as mãos em cruz, na terra bruta!

Não menos maravilhoso parecia ao Conde o sistema das relações entre o estudante e o lente.

O hábito de depender absolutamente do lente, de se curvar servilmente diante da sua austera figura, de obter por meio de empenhos que a sua severidade se abrande, forma os espíritos no salutar respeito da autoridade. O sentimento excessivo da dignidade pessoal leva ao amor exagerado da independência civil. Cada um se torna por este modo o seu próprio dono, o seu chefe, o seu Rei, o seu Deus. E a anarquia! Assim educado, durante cinco anos, a curvar-se, a solicitar, a sorrir, a obedecer, a lisonjear, a suplicar, a depender, o bacharel entra na vida pública disciplinado, e, em lugar de ser o homem que quer tomar na vida o lugar que lhe convém (o que seria a desorganização das posições sociais) vai humildemente colocar-se, com um sorriso, no lugar, na fila, no cantinho que lhe marcam os que governam. Assim se forma uma imperecível harmonia social.

O jovem Abranhos bem depressa mostrou, em Coimbra, o seu profundo amor da Disciplina e da Ordem.

O lente de Direito Natural era então o velho Dr. Pascoal; já muito míope, a sua veneranda ciência, os seus achaques, os seus serviços de decano, inspiravam a todos os que admiram estes vetustos sábios encanecidos nos comentários de vetustos compêndios, uma admiração simpática.

Havia, porém, nesse curso (a recordação recente das guerras civis de algum modo o explica) temperamentos rebeldes e perniciosos, que, por o ancião pertencer a uma velha família Miguelista, procuravam como dizia o Conde, achincalhar a prelecção. Foi assim que uma ocasião, de repente, de entre os bancos, um morcego solta o voo, e estonteado pela luz, esvoaça furiosamente, vai bater nos vidros, vai bater nas paredes, vai bater, finalmente, no rosto venerável do Dr. Pascoal. O velho grita, o archeiro corre... Mas, como diz o nosso grande poeta, autor dos Cânticos do Céu:

Quem sabe donde vem a aragem fresca?

Quem sabe donde vem o voo d'ave?

Quem sabe de onde vinha o morcego?

(continua...)

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