Por Eça de Queirós (1925)
— Pois eu, disse o Chouriço, aproximando-se com jubilo, emquanto o comboio parava — estendo-me agora ao comprido e levo a noite d'uma somneca até Lisboa. Sei-a toda, hein E ámanhã estas horas, na pandega ! Vem pouca gente Caramba, bonita pequena !
Era uma senhora, com um vestido de xadrez, que se debruçára á portinhola d'um wagon de primeira classe ; tinha um livro fechado na mão e o seu chapéu pequenino, feito de pennas, parecia o peito roliço d'uma ave negra.
Arthur seguiu ao longo do comboio, procurando o padrinho : não o encontrou. Quiz interrogar o conductor que ao fundo verificava uma descarga de caixotes. Mas o homem não o attendeu, atarantado, de bonet para a nuca, os olhos esgazeados : em volta d'elle, um guarda, o chefe da estação com as mãos atulhadas de papeis, o cocheiro do char-à-bancs da Villa, vociferavam e bracejavam, tão aturdidos em torno dos quatro caixotes, como se os surprehendesse a accumulação inesperada de todas as mercadorias do Universo. Por traz da grade fechada da estagio, as raparigas vozeavam tambem, offerecendo mexilhões e ovos molles d'Aveiro. Arthur, desconsolado, voltou ainda a olhar pelas portinholas até á terceira classe, onde soldados que conduziam um desertor beberricavam d'uma garrafa.
Ahi, o rapaz do campo accommodava devagar, debaixo do assento, o seu sacco de chita e o farnel ; passou depois o lenço pela testa como para limpar o suor, e, muito pallido, com os beiços a tremer :
— Adeus, mãe ! — disse.
A velha abraçou-se-lhe dezesperadamente ao pescoço :
— Meu filho ! meu rico filho, que não te torno a vêr ! Oh I meu filho, oh I Senhor ! que não o torno a vêr I
— Adeus, mãe ! Adeus, Joaquina ! Tem de ser, tem de ser!
Beijou violentamente a velha na face, apertou nos braços a rapariga, saltou para o wagon e ficou com a cabeça enterrada nos punhos, aos soluços.
Arthur commoveu-se, Pensou ainda na tristeza dos que emigram, nos pobres, nas existencias traba. lhosas em que o pão é um cuidado amargo. Quando viria á terra uma revolução de paz e de justiça dar a cada um um campo proprio a lavrar, uma lareira farta na velhice
Veio andando devagar junto ao comboio. O Chouriço já se installara n'uma primeira classe, de gabão pelos hombros, charuto nos dentes.
— então o padrinho perguntou galhofando.
— Não veio.
O Chouriço esfregou as mãos, divertido :
— É boa ! É muito boa ! vir o.amigo expressamente d'Oliveira d'Azemeis . . .
—E depois d'um momento :
— A proposito, diga-me uma cousa, como vae o Theodosio
— Não o tenho visto. Está p'ra quinta. — E o que fez o amigo por Oliveira P 'ra ló estou.
— Ainda se faz seu versinho, hein
Arthur sorriu ambiguamente. O Chouriço tirava o relogio, impaciente. O guarda fechava as portinholas. As raparigas, com os taboleiros ó cabeça, recolhiam á Villa ; havia agora um silencio na plataforma d'onde tinha desapparecido o chefe e o conductor. N'aquella estação somnolenta, o comboio parecia ter adormecido, sob a tarde serena ; só uma rapariguita ia dizendo a espagos, n'um tom plangente e fanhoso : agua ! agua ! E sem descontinuar, adiante, a machina resfolgava baixo.
— Então nós ficamos aqui toda a vida ?— exclamou uma voz irritada.
Era um sujeito gordo, que vinha com a senhora de vestido de xadrez. Arthur então reparou n'ella ; e pareceu-lhe tão linda, que ficou com os olhos pasmados n'um enleio que o invadia, sentindo bater forte o coração : nunca vira aquella delicadeza fina de pelle, nem uma doçura tão tenra da linha oval ; os seus olhos negros de grandes pestanas, um pouco tristes, enterneciam. Estava ainda debruçada á portinhola com o livro amarello na mão ; era pequenina e delicada e o corpete justo do vestido desenhava um seiozinho que devia caber na cova da mão.
Ella pareceu notar tambem aquelle rapaz tão admirado ; retirou-se devagar para dentro da carruagem, mas tornou logo a debruçar-se á portinhoIa, compondo ligeiramente o lago fÔfo da gravata de renda — e os olhos d'ambos encontraram-se.
— Boa pequena, hein ? — disse o Chouriço. — Eu estive para me metter na mesma carruagem e tinha divertimento p'ra toda a noite. Mas embirrei com a cara do marido.
Arthur achou-o tambem odioso— com as suas bochechas balofas e brancas, o chapelinho de casimira sobre o cabello encarapinhado, o beiço sensual de comilão e um enorme pince-nee, com a fita passada por traz da orelha.
— Eu parece-me que o conheço de Lisboa, creio até que é Barão — disse o Chouriço.
Mas o chefe da estação badalava a campainha e o comboio começou a rolar devagar com estalidos seccos dos freios retesados.
— Adeus amigo, saude ! — exclamou o Chouriço. — Até á vista !
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43205 . Acesso em: 29 jun. 2026.