Por Eça de Queirós (1870)
Como tinha então trazido o ópio? Ainda quando o tivesse já no quarto, o frasco, ou qualquer invólucro que contivesse o narcótico devia aparecer. Não era natural que tivessesido aniquilado. O copo em que ficara o resto da água opiada, ali estava. Um indício mais grave parecia destruir a hipótese do suicídio: não se encon trou a gravata do morto. Não eranatural que ele a tivesse tirado, que a tivesse destruído ou lançado fora. Não era também racional que tendo vindo àquele quarto esmeradamente vestido como para uma visita cerimoniosa, não trouxesse gravata. Alguém, pois, tinha estado naquela casa, ou pouco antesda morte ou ao tempo dela. Era essa pessoa que tinha para qualquer fim tomado a gra vata do morto.Ora a presença de alguém naquele quarto, coincidindo com a estada do suposto suicidado ali, tirava a possibilidade ao suicídio e dava presunções ao crime.
Aproximámo-nos da janela, examinámos detidamente o papel em que estava escrita adeclaração do suicida:
— A letra é dele, parece-me indubitável que é — disse o mas carado — mas, na verdade,não sei porquê, não lhe acho a feição usual da sua escrita! Observou-se o papel escrupulosamente; era meia folha de es crever cartas. Notei logo no alto da página a impressão muito apa gada, muito indistinta, de uma firma e de uma coroa,que devia ter estado gravada na outra meia folha. Era, portanto, papel marcado. Fiz notar esta circunstância ao mascarado; ele ficou surpreendido e confuso. No quarto não haviapapel, nem tinteiro, nem penas. A declaração, pois, tinha sido escrita e preparada fora.
— Eu conheço o papel de que ele usava em casa — disse o mascarado -, não é deste; não tinha firma, não tinha coroa. Não podia usar doutro.
A impressão da marca não era bastante distinta para que se percebesse qual fosse a firma e qual a coma. Ficava, porém, claro que a declaração não tinha sido escrita nem em casa dele, onde não havia daquele papel, nem naquele quarto, onde não havia papel al gum,nem tinteiro, nem um livro, um buvard, um lápis.Teria sido escrita fora, na rua, ao acaso? Em casa de alguém? Não, porque ele não tinha em Lisboa, nem relações íntimas, nem conhecimento de pessoas cujo papel fossemarcado com coroa.
Teria sido feita numa loja de papel? Não, porque o papel que se vende vulgarmentenas lojas não tem coroas. Seria a declaração escrita em alguma meia folha branca tira da de uma velha carta recebida? Não parecia também natural, por que o papel estava dobrado ao meio e não tinhaos vincos que dá o envelope.
Demais a folha tinha um aroma de pós de marechala, o mesmo que se sentia,suavemente embebido no ar do quarto em que estávamos. Além disso, pondo o papel directamente sobre a claridade da luz, distingui o vestígio de um dedo polegar, que tinha sido assente sobre o papel no momento de estar suado ouhúmido, e tinha embaciado a sua brancura lisa e acetinada, havendo deixado uma impressão exacta. Ora este dedo parecia delgado, pequeno, feminil. Este indicio era notavelmente vago,mas o mascarado tinha a esse tempo encontrado um, profundamente eficaz e seguro.
— Este homem — notou ele — tinha o costume invariável, me cânico, de escrever, abreviando-a, a palavra that; deste modo: dois TT separados por um traço. Esta abreviaturaera só dele, original, desconhecida. Nesta declaração, aliás pouco inglesa, a palavra thatacha-se escrita por inteiro.
Voltando-se para M. C.:- Porque não apresentou logo este papel? — perguntou o mas carado. — Esta declaração foi falsificada.- Falsificada! — exclamou o outro, erguendo-se com sobressalto ou com surpresa.
— Falsificada; feita para encobrir o assassinato; tem todos os indícios disso. Mas o grande, o forte, o positivo indício é este: onde estão as 2300 libras em notas de Inglaterra,que este homem tinha no bolso?
M. C. olhou-o pasmado, como um homem que acorda de um sonho.- Não aparecem, porque o
senhor as roubou. Para as roubar matou este homem. Para encobrir o crime falsificou este bilhete.
— Senhor — observou gravemente A. M. C. -, fala-me em 2300 libras: dou-lhe a minhapalavra de honra que não sei a que se quer referir.
Eu então disse lentamente, pondo os olhos com uma perscruta ção demorada sobre asfeições do mancebo: — Esta declaração é falsa, evidentemente; não percebo o que quer dizer este novo negócio das 2300 libras, de que só agora se fala; o que vejo é que este homem foienvenenado: ignoro se foi o senhor, se foi outro que o matou, o que sei é que evidentemente o cúmplice é uma mulher.- Não pode ser, doutor! — gritou o mascarado. — É uma su posição absurda.
— Absurda!?... E este aposento, este quarto forrado de seda, fortemente perfumado, carregado de estofos, iluminado por uma claridade baça coada por vidros foscos; a escadacoberta com um ta pete; um corrimão engenhado com uma corda de seda; ali aos pés daquela volteriana aquele tapete feito de uma pele de urso, sobre a qual me parece que estou vendo ovestígio de um homem prostra do? Não vê em tudo isto a mulher? Não é esta evidentemente uma casa destinada a entrevistas de amor?...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de; ORTIGÃO, Ramalho. O Mistério da Estrada de Sintra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14021 . Acesso em: 30 jun. 2026.