Por Eça de Queirós (1925)
Mas Neto, de pé, ainda queria dizer uma última palavra. De ora em diante, ele era o responsável pôr sua filha. Confiava em Deus, tinha a certeza que mais tarde, passado aquele primeiro desgosto, haveria mútua indulgência, e eles se viriam a juntar...
Godofredo negou, com um movimento de cabeça, um sorriso doloroso. Não, nunca de juntaria com ela.
— O futuro pertence a Deus – disse Neto. – Agora concordo que é melhor que estejam separados pôr algum tempo. E era a isto que eu queria chegar: enquanto ela estiver em minha casa, é como se estivesse num convento...
Respondo pôr ela.
Godofredo fez com os ombros um movimento vago. Tudo aquilo lhe parecia palavreado. O que queria agora era estar só. Tinha tocado a campainha, Margarida preparava-se para abrir a porta, alumiar ao sr. Neto. Ele tomou o seu chapéu, bebeu, já de pé, o último gole de café, e depois de apertar a mão do genro, saiu, recomendando baixo à criada que tivesse prontas as malas da senhora...
— E manda dizer que não lhe esqueça aquele açucareiro de prata que lhe deu o padrinho nos anos dela... O açucareiro é dela.
E desceu as escadas, regozijando-se desta boa idéia. A filha não lhe dissera nada do açucareiro. Mas enfim era dela, uma bonita peça de prata, e era bom que lhe recolhesse à casa, também.
Fora, a noite estava abafada, e Neto dirigiu-se à casa devagar, levando o chapéu na mão, calculando as despesas da Ericiera, contente consigo. Os banhos iam-lhe fazer bem. Com cinqüenta mil réis pôr mês, da Ludovina, podia-se estar com conforto: e, como a Ludovina não devia aparecer, nem havia toilletes a fazer, ainda se metia dinheiro no bolso.
Quando depois de subir, aos poucos, os seus cento e cinqüenta degraus, bateu à campainha da porta, foi a Teresa, a filha solteira, que veio abrir, a correr, com os olhos brilhantes, toda excitada. Ninguém lhe disfarçara a verdade. Sabia já que a Ludovina tinha sido apanhada com um homem, que havia um grande desgosto, que o pai fora para Ter uma explicação com o Godofredo.
— Então – perguntou ela, sofregamente. — Lá dentro, lá dentro falaremos.
Atravessaram a cozinha, que estava às escuras com uma claridade de brasa no fogão, onde fervia a chaleira, e entraram na sala de jantar, uma espécie de cubículo nas traseiras. Sentada à mesa redonda, coberta de oleado, a criada, a sra. Joana, uma raparigota fresca, com dois brincos ricos de senhora, e vestido de merino azul, lia o Diário das Novidades à luz dum candeeiro de petróleo, com abatjour ; e junto ao aparador na sombra, estendida numa cadeira de vime, calada, vestida, estava Ludovina.
Quando o pai apareceu, ela ergueu-se, com os olhos ainda vermelhos, toda vestida de preto.
Neto sentara-se, limpando com o lenço de seda o suor do pescoço. Os olhos das três mulheres devoraram-no. E como ele não se apressava, gozando a ansiedade da família, foi a sra. Joana que gritou:
— Vamos lá, então, fale!
Ele enrolou devagar o lenço e respondeu, no silêncio profundo da sala:
— O Godofredo dá trinta mil réis pôr mês.
Houve uma vaga respiração de alívio, correu um frêmito de satisfação. Teresa olhava a irmã, pasmada daqueles trinta mil réis que lhe vinham a assim para o bolso, pôr Ter sido apanhada com um homem. A sra. Joana confessou que era de cavalheiro. Mas a Ludovina não via nada de extraordinário: era o que faltava é que a pusesse fora da porta, sem cinco réis.
Então o pai voltou-se para ela com a testa enrugada.
— E no fim dizes que não tinhas escrito nada, e ele diz que te apanhou cartas indecentes.
— É mentira – disse ela simplesmente -, as cartas não diziam nada... Eram uma brincadeira.
Houve um silêncio, o Neto, com os olhos na borda da mesa, acalmava dignamente as repas da calva. E as três mulheres continuavam a olhá-lo esperando outros detalhes, toda a história da entrevista.
— E as malas da Lulu, ó papá – perguntou a Teresinha, que vivia desde essa tarde com o desejo de ver chegar as malas, de as ver desfazer, apanhar algum presente.
Mas o papá, todo noutra idéia, continuou, sem responder:
— E ficou combinado que para evitar falatório vamos passar o verão àEriceira.
Então foi uma alegria. Teresinha bateu as palmas. Joana ria, de satisfação, ela que tanto precisava de banhos. Só Ludovina ficava indiferente com uma sombra de tristeza na face, pensando no belo plano de que Godofredo andava ultimamente falando, os dois meses de agosto e setembro passados em Sintra. E foi sentar-se de novo, enquanto Joana e Teresinha torturavam o papá de perguntas, já com planos, ambas com o entusiasmo daquela estação de banhos... E eram já mil planos. Teresa já palrava desabaladamente. Joana lembrava coisas que seria necessário levar, os colchões, a louça de mesa, e o piano, para dar mais alegria. O melhor seria irem todos à Ericeira, para alugar a casa... Então Ludovina saiu do seu silêncio.
— E é necessário uma casa em que se caiba... Que para dormir num cubículo como este de cá, não tem jeito.
Diante desta exigência, o pai franziu a testa. E não se conteve e disse logo:
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. Alves & Cia. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16619 . Acesso em: 28 jun. 2026.