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#Romances#Literatura Portuguesa

A ilustre Casa de Ramires

Por Eça de Queirós (1900)

O Bento, cuidadoso, sempre lento, ainda enfiou os botões de ágata nos punhos da camisa do Sr. Doutor, e desdobrou sobre a cama, para ele vestir, a quinzena, as calças bem vincadas, de cheviote leve. E Gonçalo, retomado pela idéia de artigos para os Anais, folheava, rente à janela, a História da Administração Pública em Portugal, quando Bento voltou com um rolo de pergaminho, donde pendia, por fitas roídas, um selo de chumbo.

- Esse mesmo! - exclamou o Fidalgo atirando o volume para o poial da janela. - É esse mesmoque eu enrolei no pergaminho para se não quebrar. Desembrulha, deixa em cima da cômoda... O Sr. Dr. Matos aconselhou que o tomasse com água tépida, em jejum. Parece que ferve. E limpa o sangue, desanuvia a cabeça... Pois eu muito necessitado ando de desanuviar a cabeça!... Toma tu também, Bento. E diz à Rosa que torne. Todos tomam agora, até o Papa!

Com cuidado, o Bento desenrolara o frasco, estendendo sobre o mármore da cômoda o pergaminho duro, onde a letra do século XVI se encarquilhava amarela e morta. E Gonçalo, abotoando o colarinho:

- Ora aí está o que eu levo preciosamente para deslindar o foro de Praga! Um pergaminho dotempo de D. Sebastião... E só percebo mesmo a data, mil quatrocentos... Não, mil quinhentos e setenta e sete. Nas vésperas da jornada da África... Enfim! serviu para embrulhar o frasco.

O Bento, que escolhera no gavetão um colete branco, relanceou de lado o pergaminho venerável:

- Naturalmente foi carta que El-Rei D. Sebastião escreveu a algum avozinho do Sr. Doutor...

- Naturalmente - murmurava o Fidalgo, diante do espelho. - E para lhe dar alguma coisa boa,alguma coisa gorda... Antigamente ter Rei era ter renda. Agora... Não apertes tanto essa fivela, homem! Trago há dias o estômago inchado... Agora, com efeito, esta instituição de Rei anda muito safada, Bento!

- Parece que anda - observou gravemente o Bento. - Também, o Século afiança que os Reis estão a acabar, e por dias. Ainda ontem afiançava. E o Século é jornal bem informado... No de hoje, não sei se o Sr. Doutor leu, lá vem a grande festa dos anos do Sr. Sanches Lucena, e o fogo de vistas, e o bródio que deram na Feitosa...

Enterrado no divã de damasco, Gonçalo estendera os pés ao Bento que lhe laçava as botas brancas:

- Esse Sanches Lucena é um idiota! Ora que arranjo fará a esse homem, aos sessenta anos,ser deputado, passar meses em Lisboa no Francfort, abandonar as propriedades, deixar aquela linda quinta... E para quê? Para rosnar de vez em quando "apoiado"! Antes ele me cedesse a cadeira, a mim, que sou mais esperto, não possuo grandes terras, e gosto do Hotel Bragança. E por Sanches Lucena... O Joaquim amanhã que me tenha a égua pronta. a esta hora, para eu ir à Feitosa visitar esse animal... E ponho então o fato novo de montar que trouxe de Lisboa, com as polainas altas... Há mais de dois anos que não vejo a D. Ana Lucena. É uma linda mulher!

- Pois quando o Sr. Doutor estava em Lisboa eles passaram aí, na caleche. Até pararam, e o Sr.Sanches Lucena apontou para a Torre, a mostrar à senhora... Mulher muito perfeita! E traz uma grande luneta, com um grande cabo. e um grande grilhão, tudo de ouro...

- Bravo!... Encharca bem esse lenço com água-de-colônia, que tenho a cabeça tão pesada!... Essa D. Ana era uma jornaleira, urna moça do campo, de Corinde?

Bento protestou, com o frasco suspenso, espantado para o Fidalgo:

- Não senhor! A Sra. D. Ana Lucena é de gente muito baixa! Filha dum carniceiro de Ovar... E oirmão andou a monte por ter morto o ferrador de Ilhavo.

- Enfim - resumiu Gonçalo-, filha de carniceiro, irmão a monte, bela mulher, luneta de ouro...Merece fato novo!

Em Vila-Clara, às dez horas, sentado num dos bancos de pedra do Chafariz, sob as olaias, o Titó esperava com o amigo João Gouveia - que era o Administrador do Concelho da Vila. Ambos se abanavam com os chapéus, em silêncio, gozando a frescura e o sussurro da água lenta na sombra. E a "meia" batia no relógio da Câmara, quando Gonçalo, que se retardara na Assembléia num voltarete enremissado, apareceu anunciando uma fome terrível, "a fome histórica dos Ramires", e apressando a marcha para o Gago - sem mesmo consentir que o Titó descesse à tabacaria do Brito, a buscar uma garrafa de aguardente de cana da Madeira, velha e "da ponta fina..."

- Não há tempo! Ao Gago! Ao Gago!... Senão devoro um de vocês, com esta furiosa fomeRamírica!

Mas, logo ao subirem a Calçadinha, parou ele cruzando os braços, interpelando divertidamente o Sr. Administrador do Concelho pelo estupendo feito do seu Governo... então o seu Governo, os seus amigos Históricos, o seu honradíssimo S. Fulgêncio - nomeavam, para Governador Civil de Monforte, o Antônio Moreno! O Antônio Moreno, tão justamente chamado em Coimbra, Antoninha Morena! Não, realmente, era a derradeira degradação a que podia rolar um país! Depois desta, para harmonia perfeita dos serviços, só outra nomeação, e urgente - a da Joana Salgadeira, Procuradora-Geral da Coroa!

(continua...)

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