Por Camilo Castelo Branco (1869)
― Se ela me tivesse amor, fazia o diabo em casa, logo que soubesse das minhas asneiras, não é verdade? Pois nunca me jogou a mais pequena chalaça a tal respeito!...
― Então não há que duvidar: – evidenciou Atanásio Mendes – sua mulher tinha com quem se distrair; e agora percebo eu como é que ela está inocente. Quer dizer na sua que está tão inocente como você, seu maganão!
Atanásio riu-se do chiste do próprio remoque.
― Pois sim – refletiu judiciosamente Fialho – mas você bem sabe que nós, os homens, não somos mulheres. Elas tem outra casta de obrigações. Se a mulher for igual ao marido, então não há honra nem vergonha neste mundo, não acha?
― Diz bem, compadre; mas é que elas abusam do exemplo que os homens dão, percebe você?
― Isso também é verdade – concordou Hermenegildo, fechando o olho esquerdo.
― Você parece que quer dormir... – notou o hóspede.
― Sim, ele agora parece que chega – resmungou Fialho, fechando o olho direito. Minutos depois, esta vítima deplorável da perversão dos costumes... roncava.
VIII REVELAÇÕES TRISTES
Àquela hora alta da noite, Ângela, ajoelhada diante do santuário, pedia à Virgem que lhe inspirasse o melhor meio de cumprir os seus deveres na apertada situação em que se via.
O ar inocente desta mulher, que se ajoelha como infeliz sem culpa, deve tocar o ânimo de quem vai lendo isto, e já desde o começo do livro pende a desconfiar da virtude da esposa do brasileiro. É, pois, tempo de antepararmos da involuntária aleivosia a mulher pura.
Na margem direita do Lima, ergue-se por entre árvores seculares o antiquíssimo paço de Gondar, cujo décimooitavo senhor, no tempo da invasão francesa, era Simão de Noronha Barbosa, capitão de cavalaria, gentil e valente, em anos florentíssimos.
Ainda não tinha dezesseis quando amou a filha de um seu caseiro, com quem queria casar-se. Os parentes e o tutor debalde lhe antepuseram os estorvos da lei e ainda ordens expressas da regência. A mulher humilde chegou a ser-lhe arrebatada e presa; mas a passagem da onda revolucionária socavou às portas ferradas da cadeia de Ponte do Lima, e remessou-lhe aos braços a formosa encarcerada. Certo general de Napoleão mandou a um vigário que os casasse em sua presença e galardoou assim a devoção, talvez forçada, de capitão português ao leão de Austerlitz.
Simão de Noronha foi ferido mortalmente no recontro de Amarante. A esposa, que o acompanhava, quando o
viu acutilado e moribundo entre as garras dos patriotas, que cevavam suas iras mais encarniçadamente nos jacobinos, morreu de puro terror, sufocada por um golfo de sangue. Era uma fidalga alma a daquela filha do povo!
A piedade dalguns populares salvou o capitão de ser arrastado nas ruas de Amarante.
Após seis meses de curativo, recolheu-se ao seu paço de Gondar, e levou consigo o esqueleto mal escarnado de sua mulher. Dias depois entrou num mosteiro, e amortalhou-se no hábito de noviço beneditino.
Antes, porém, de findo o noviciado, Simão viu casualmente sua prima D. Maria d’Antas. Era uma senhora de formosura rara. Não direi que o rasgar o noviço o hábito fosse um preito digno desta notável dama; nem me espantaria que toda a congregação beneditina despisse as túnicas, e os frades se esmurraçassem por amor dela.
Mulheres assim aluiriam conventos, se lhes fosse consentido visitar os primos. Por um de seus cabelos arrastariam comunidades, e dum volver de olhos consumariam a empresa que não bastaram séculos a vingar.
D. Maria d’Antas, filha dum desembargador da suplicação, trouxera de Lisboa, aos vinte e cinco anos, o coração já derrancado. Os seus costumes e manhas não edificavam ninguém; mas endoideciam os mais guapos e galhardos fidalgos do Alto Minho. Além de bela e palavrosa, a fidalga d’Antas era guapa cavaleira, monteava lobos, matava patos bravos, e tinha de mulher, apenas, a cara, que ficaria bem num anjo, e as fraquezas que venceriam a rebeldia dos demônios.
Simão de Noronha, em 1812, já morava nos eu solar das margens do Lima. O esqueleto da esposa e o hábito de noviço eram apenas umas lembranças de infortúnios remotos. A casa ameada de Gondar recebia a luz e os aromas das Primaveras novas pelas rasgadas janelas onde, às vezes, aparecida uma mulher alta vestida de branco. Era D. Maria d’Antas, não já esposa, mas prima, título respeitável com que ambos se abroquelavam da infamação. É, porém, de notar que nenhum se preocupava dos rumores públicos acerca daquele viverem sós e desligados doutros parentes sob o mesmo teto.
Devolvido oito anos, a calúnia já tinha mais onde morder. Maria d’Antas, sem pejo nem resguardo, aparecia com uma criança dum ano nos braços.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CASTELO BRANCO, Camilo. Os Brilhantes do Brasileiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1779 . Acesso em: 17 jun. 2026.